Resenha – O Caçador De Pipas

Algumas histórias são tão boas que MERECEM ser associadas à alguns tipos de arte, em casos específicos, as 6ª e 7ª arte. Literatura e Cinema andam juntos diversas vezes, muitas delas de forma agradável, outras nem tanto e existem ainda alguns casos de compatibilidade excelente.

Quando alguns filmes são adaptações de livros, é interessante ler primeiramente o livro, pois, além de costumar a ser melhor, existe aquele momento quando se entra na sala de exibição que você vai imaginando cenas concordando ou não com o que lhe é apresentado. No meu caso, em relação ao Caçador De Pipas, eu fiz o contrário, assisti ao filme antes.

Tinha ouvido algumas reclamações sobre a adaptação e também elogios, me guardei o direito de não me deixar levar…

O filme É muito emocionante, assim como o livro, um acerto excelente. A história está toda ali, MESMO. Eu não mudaria nada no roteiro, só escolheria um ator mais opulento para caracterizar fidedignamente a imagem do Pai, como eu criei em minha cabeça, e vi o ator, que faz o protagonista adulto, com muito pouco carisma, mas não chega a ofender e depois pensei na ideia dele ser muito introspectivo ou parecer fraco, correspondendo muito com algumas ações do passado. No livro é perceptível que Amir, quando criança, é um garoto meio que chateado por não ser o centro das atenções do pai, a mãe morreu no parto e ele se sente um pouco responsável, acreditando que o pai também pense assim. Ele sente inveja de Hassan que recebe um certo afeto do pai e isso também influencia em seu modo de ser. Amir é o filho de família abastada e Hassan é o filho do empregado.

Durante a infância de Amir, o filme expõe mesmo a condição de sentimento abalado e retraído dele, o que está presente no livro. O garoto age algumas vezes, revelando uma certa covardia, enquanto Hassan é exatamente o oposto. Um tem medo de ajudar o amigo em um momento de extrema necessidade, o outro aceita ofensas e tudo o mais pelo “amigo”. Depois de mais um exemplo de covardia e falsidade, Hassan e o pai se mudam, deixam a casa de Baba – pai de Amir. Os tempos em Cabul começam a ficar conturbados, a URSS invade o Afeganistão, instaurando um sistema opressor no povo e até mesmo as famílias ricas começam a sofrer com essa nova realidade.

Pai e filho fogem para os Estados Unidos e lá iniciam uma nova vida, muito diferente da que eles tinham no país natal, mas os dois aprendem a conviver com as dificuldades e o passado de Amir começa a ficar um pouco remoto. Mesmo distante da terra em que nasceram, os dois não deixam sua cultura de lado e convivendo com outras famílias afegãs, o modo de vida afegão continua a prevalecer. Costumes e tradições são extremamente importantes para ambos. A vida segue, Amir se apaixona e se casa, o pai está doente, com câncer e a nova família vive em comunhão. O casal cuida de Baba até esse vir a falecer – essa parte, especialmente no livro, é extremamente emocionante. A doença e todo o sofrimento que é causado é muito bem retratado. A doença parece ser igual para todos, o câncer atropela da mesma forma seja quem for…

Amir e Soraya Taheri, sua esposa, também afegã, vivem como um casal normal, mas não podem ter filhos. Ele é um escritor que vem tendo sucesso. A vida começa a seguir novamente um rumo tranquilo, mas o passado volta para cobrar uma atitude definitiva. Rahim Khan, amigo da família, quando viviam no Afeganistão, telefona e pede ajuda. Hassan teve um filho, e esse precisa urgentemente do auxílio daquele que pode ser o único elo familiar existente. Sohrab, o filho, tem muito mais a ver com a vida de Amir do que se podia imaginar. Esse não pode mais fugir de seu passado e de sua história e o momento para a redenção chega, finalmente.

O Taliban agora é quem comanda Cabul. A capital está desolada e muito foi mudado. Tanto livro, quanto filme apresentam um país devastado e cheio de opressão. Amir chega à cidade e procura por Sohrab. A vida do filho de seu antigo amigo, é extremamente sofrida, oprimida e isso aumenta mais ainda a vontade de Amir de modificar de vez seu destino e afastar para sempre o fantasma destrutivo de seu passado. Alguns horrores voltam a assombra-lo, mas o desejo de ser melhor e de consertar seus erros, são extremamente maiores. Enquanto Amir luta contra aquilo que o perturbava, Sohrab age, como Hassan sempre agiu e os dois fogem, fogem para, juntos, recomeçarem. Recomeçarem uma vida sem medo, sem olhar para trás. Começarem uma história diferente, que possa ser uma história de família, uma família renovada.

O Caçador de Pipas é um livro escrito entre a ficção e a realidade, os personagens podem ser criados, mas a história é sobre famílias reais, pessoas reais. O que acontece ali é sobre fatos de opressão e redenção, sobre como a vida muda e como podemos mudar com ela, sobre como enfrentamos nossos medos e defeitos, sobre como encaramos nosso passado, presente e futuro.

4 comentários em “Resenha – O Caçador De Pipas

  1. Rick disse:

    Já li o livro e assisti o filme. Mas, honestamente, é o livro que fica na memória. Mesmo depois de tanto tempo, ainda sinto a mesma tensão, a mesma tristeza, a mesma afinidade que senti durante a leitura. É um livro fantástico. Escrito com alma e coragem. No entanto a versão cinematográfica é uma das mais fieis que ja assisti. Concordo.

  2. Gustavo Almeida disse:

    Conto nos dedos da mão do Lula livros que me emocionaram tanto quanto esse. Simplesmente sensacional. Parabéns pelo site, vai ser um sucesso.

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