Participação Especial – Resenha – Lolita

Após ser recusado por cinco editoras norte-americanas, em setembro de 1955, o romance “Lolita” de Vladmir Nabokov circulou por Paris através de 5 mil cópias publicadas pela Olympia Press. Quase seis décadas mais tarde, sinopse da história ainda tem potencial para escandalizar: a tragicomédia em duas partes retrata a obsessão sexual de Humbert Humbert, um imigrante europeu de meia-idade, por Dolores Haze, uma adolescente americana de 12 anos, a quem torna sua enteada e mais tarde sua amante.

Apesar de seu magnetismo para mulheres adultas, o protagonista e narrador não tolera quadris volumosos e peles amadurecidas. Os objetos de suas fantasias são criaturas que denomina ninfetas, ou seja, meninas de 9 a 14 anos com corpo em formação, na sua visão, tão ingênuas como crianças comuns, quanto vulgares como demônios sensuais. Para justificar sua perversão, Humbert relata um trágico amor da própria infância, uma paródia do poema “Annabel Lee” de Edgar Allan Poe.

Um dos narradores não confiáveis e monstros de Nabokov, talvez menos nocivo que seu primo Hermann de “Desespero” (de 1994), Humbert tece manipulações para leitores ao misturar cinismo com sentimentalismo e sua paixão não consumada pela sua Annabel Leigh é provavelmente uma delas. Por essa razão, conhecemos sua Lolita e jamais a Dolores, seu primeiro amor reencarnado. Solipsismo, a ideia de que apenas a experiência existe, é um termo-chave neste livro, uma ferramenta utilizada pelo protagonista ao descrever a memória que tem de sua enteada.

Criada por um entomologista amador (Nabokov estudava espécies de borboletas tão profundamente quanto a Literatura), a ninfeta do título é constantemente metamorfoseada por Humbert. Ela é uma típica jovem norte-americana obcecada por revistas e comidas calóricas, uma imitação em miniatura das femme fatales de hollywoodianas, uma traidora da mesma linha da Carmen de Prosper Mérimée e da Emma Bovary de Gustave Flaubert, uma “princesa frígida”, uma filha ora sarcástica e cruel, ora simplesmente negligenciada e invejada pela mãe, e ainda uma criança interrompida e corrompida, com crises de choro noturnas. Mesmo seus nomes são múltiplos – Dolores, Dolly, Lo, Lolita.

Assim como sua heroína, a história se transmuta em diferentes gêneros enquanto é despida. No início, assume o tom de confissões íntimas, evoluiu para drama suburbano, escorre como uma road story e descamba em suspense noir. No fundo é um conto de fadas adulto e sem moral da história. O uso recorrente das palavras “encantamento”, “elfos” e “fadas” é um sinal disso.

Esteticamente, mais do que um mergulho em um erotismo ilícito, seus capítulos oferecem um banquete de delícias intelectual. O tecido que envolve o esqueleto de sua trama é uma narração fértil em ironia, lirismo e elegância.  O exibicionista Humbert Humbert sabe chocar, mas também é capaz de entreter seu leitor culto se delicia com pastiches literários e alusões artísticas e um voyeur menos erudito com jogos de palavras, aliterações e anagramas.

Não há, porém, um código de linguagem que dificulte a compreensão da história, a leitura é elegante e flui e uma releitura oferece uma satisfação dupla pelo reencontro com feitiço perverso de sua trama e pela descoberta das dicas sobre o destino dos personagens são espalhadas pela narrativa. É sempre um prazer a percepção de que um livro acompanhado por horas foi estruturado do começo ao fim. Nenhuma frase é desperdiçada, todas as passagens estão encadeadas, cada nome de hotel e interação com outros personagens são significativos. Seus detalhes, o valor poético de sua narração e seus protagonistas memoráveis são os pontos que tornaram “Lolita” um clássico indispensável da Literatura mundial.

Rafaela Tavares

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Um comentário em “Participação Especial – Resenha – Lolita

  1. Belo texto. O livro é um clássico que até hoje não tive a vergonha na cara de tirar da estante e ler. Parabéns!

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