Resenha – Viver para contar

Gabriel Garcia Márquez é um dos autores latinos mais celebrados no mundo. Hollywood adaptou “O amor nos tempos de cólera” para o cinema, ele já esteve entre os escolhidos de Oprah para seu famoso Clube do Livro e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Se tornou um autor respeitado com grande sucesso comercial – o que é uma combinação difícil atualmente.

Viver para contar é quase uma auto-biografia. Digo quase porque o próprio Gabo comenta que muito daquilo que ele acreditava serem lembranças claras, ele acabou descobrindo que não aconteceram de verdade e talvez seja o fato de ele se aproveitar tão bem dessas lembranças falsas que suas histórias soem tanto como realidade misturada com fantasia.

Algo que sempre me atraiu muito no estilo de Garcia Márquez é sua maneira inusitada de descrever objetos, sensações, gostos e tudo o mais. A poesia de sua linguagem é algo que sempre me deixa com uma sensação forte de nostalgia por tempos que nem conheci. “O paladar que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa“, ou ainda: “os guajiros, por seu lado, falaram sempre uma espécie de castelhano sem ossos com faíscas radiantes”.

Ele descreve sem descrever forçando o leitor a interpretar tudo de uma maneira subjetiva. Nenhuma palavra parece ser usada para preencher espaço, todas elas têm um papel claro e específico em ajudar o leitor a criar um mundo conforme ele próprio imagina. É quase uma paixão pelas palavras e uma vontade insana de usá-las da melhor maneira possível para criar um quadro específico.

Como não poderia deixar de ser, o livro tem comentários sobre autores e obras que o influenciaram em quase todos os momentos de sua vida. Para os fãs de boa literatura, pode ser um guia excelente de “livros que valem a pena serem lidos”. Os nomes vão de Faulkner a James Joyce passando por Bolaños e Neruda.

Através de suas lembranças, também é possível conhecer muito sobre a história da Colômbia e suas terríveis guerras civis e mudanças de poder. A política tinha um papel específico na vida de Garcia Márquez e ao escrever para um jornal em Cartagena, ele tinha que aguardar o censor reler tudo o que havia produzido e retirar tudo o que acreditava ser impróprio. Ver o censor ali do lado…com a caneta em mãos deve ser um sentimento terrível para um escritor. Aliá, Gabo foi, por muitos anos, mais jornalista do que escritor.

Quando ele começa a nos guiar pela criação de Cem anos de solidão, eu me empolguei achando que finalmente ia conhecer mais sobre os bastidores do meu livro preferido. O livro foi uma tentativa de contar  a história de sua família “que nunca foi protagonista e nem mesmo vítima de coisa alguma específica, e sim testemunha inútil e vítima de tudo“.  Mas isso é tudo o que ele conta. Confesso que fiquei um pouco decepcionada…nem o prêmio Nobel ele chega a mencionar. Eu queria muito saber como ele se sentiu quando ganhou o Nobel afinal..ele é um dos raros autores latinos a receberem esse prêmio. Mas nada disso é comentado.

Ainda assim, eu não consigo descartar o Gabo só por causa disso. Diria que a leitura de “Viver para contar” não é só recomendada, deveria ser obrigatória. Ainda que a edição da Record não seja das melhores. O material da capa fica sujo muito fácil, quando cheguei quase na metade do livro, as páginas começaram a descolar na parte inferior. Um livro dessa magnitude merecia uma edição melhor e um carinho maior.

Mas relevei isso porque, pessoalmente, ler Gabo é o mesmo que ler poesia. Abra o livro e esqueça da vida.