Resenha – Tempo é dinheiro

Só precisei ver que esse livro foi escrito por Lionel Shriver para comprar. Não precisei de indicações, comentários críticos nem nada disso. Depois de ler “Precisamos falar sobre o Kevin” e “O mundo pós aniversário” eu já era fã dela.

O livro aborda o “way of life” norte americano. Shep Knacker é um empresário que veio de uma família humilde e ao começar a fazer pequenos trabalho manuais na vizinhança, ganhou clientes a rodo e abriu um pequeno negócio. A “Knack para toda obra” cresceu e Shep acreditava que estava no caminho para seu sonho: guardar dinheiro o suficiente para aproveitar a velhice em um lugar tranquilo – de preferência em algum país do 3o mundo onde o dinheiro renderia mais. Depois de 22 anos como chefe de si mesmo, Shep vende a empresa por 1 milhão de dólares (quantia que ele achava que acabaria por comprar seu sonho de descanso). Mas os planos não saíram conforme pensado e Shep se tornou empregado de sua ex empresa.

Tudo isso enquanto Glynis, sua esposa, saia e entrava em depressões pesadas. Quando eles se conheceram, Glynis fazia peças de metais para vender e ganhar a vida – ainda que de forma modesta. Quando casaram, Glynis não se preocupava mais em trabalhar já que suas contas estavam pagas e ela podia descansar e criar os filhos. Shep via seu sonho de outra vida cada vez mais distante. Agora, ele trabalha por quatro e a margem de dinheiro guardado ia diminuindo.

Mas não se pode confiar no destino ou na vida, não é mesmo? Glynis explica a Shep que não pode viajar com ele e que eles não podem abandonar tudo: ela precisa do plano de saúde. Glynis descobriu que tem um câncer raro.

Somos apresentados também a Carol e Jackson – amigos do casal com duas filhas problemáticas: a mais velha tem uma doença degenerativa e, aos 16 anos, já começa a definhar. A mais nova é hipocondríaca por acreditar que estar doente é a única maneira de ter atenção dos pais. Jackson trabalha com Shep e é seu melhor amigo. Apesar de um casamento sólido, Carol e Jackson enfrentam alguns problemas típicos de pais que têm um foco de atenção constante nos filhos.

Os capítulos vão se alternando entre a vida de ambos os casais e quando Shep aparece, os capítulos iniciam com o saldo de sua conta. Assim, vamos acompanhando o sumiço de suas finanças à medida que os tratamentos de Glynis começam. Além disso, também aprendemos mais sobre o sistema de saúde norte americano (o livro é uma crítica direta e dura a esse sistema). Quando Obama chegou ao poder, em 2008, um de seus primeiros projetos envolveu a saúde…apesar de ser a terra das oportunidades e dos tênis baratos, uma internação sem convênio poderia custar quase um ano de salário para os desafortunados. (Para saber mais sobre o sistema de saúde norte americano, recomendo o documentário SOS Saúde de Michael Moore que traça um paralelo entre o sistema de saúde dos EUA, da Inglaterra, do Canadá e da França – e, pasmem, os EUA têm um sistema pior e que custa o dobro)

O livro é permeado de comentários ácidos como: “Algum palerma obsequioso foi pago para preencher todos aqueles códigos e ticar os quadrinhos, e despachar cópias para mais cinco lugares. Trinta por cento do dinheiro gasto com a assistência médica neste país vai para a chamada administração. A verdade é que existe toda uma camada de empresas de seguros com fins lucrativos entre a Glynis e os médicos, um bando de parasitas sacanas e gananciosos ganhando dinheiro com a doença dela”. Esse, claro, é Jackson. Shep nunca diria nada do tipo.

Aliás, Jackson também acaba se metendo em um problema insano que não vou detalhar porque a própria autora demora para nos dizer o que é. Então acho que ela quer que você descubra sozinho(a) e não sou eu quem vai estragar isso. ;). De qualquer forma, a família tem mais um problema de saúde – e caro – para cuidar. Mas surpresas sempre acontecem e prepare-se para reviravoltas na história que você certamente não esperava – do tipo que te deixam sem reação por alguns minutos.

O livro, como a maioria do trabalho de Shriver, é escrito de maneira magistral – com pensamentos profundos para cada personagem. Aliás, a construção das personagens é cuidadosa e elas são completas e interessantes por si só. A estrutura do livro é objetiva e ao nos permitir acompanhar as finanças de Shep, a autora nos coloca junto com sua personagem na linha de desespero financeiro sob um sistema de saúde que não funciona. Claro que a nossa conclusão acaba condicionada mas mesmo assim, em alguns pontos, ela nos permite desenvolver uma análise própria de como o sistema de saúde atual trata dos pacientes.

O câncer não é uma das personagens principais mas está ali, atravessando todos os diálogos e trazendo situações ao ponto de ebulição. Além disso, Glynis traduz muito bem uma personagem enfrentando esse tipo de batalha e acompanhamos sua solidão enquanto os amigos somem, a família se esquiva e sua dor aumenta. Aliás, vale iniciar uma reflexão sobre amigos e famílias que começam na lista de “íntimos” e terminam na lista de “não tão íntimos assim” quando uma doença como câncer aparece. Talvez valha pensar sobre quem realmente queremos colocar nessas listas.

Um livro pessoal, sincero, real, triste e simplesmente fantástico. Recomendadíssimo, íssimo!

Anúncios

Participe do debate!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s