Domingo dos Quadrinhos – Maurício de Sousa por 50 Novos Artistas

Maurício de Sousa por 50 Novos ArtistasMaurício de Sousa é o quadrinista mais conhecido do Brasil e responsável por personagens reconhecidos em diversos lugares do mundo (em menor grau do que por aqui, obviamente). O alcance da sua obra é inquestionável e impressionante.

Em 2011, a Panini lançou o terceiro volume de uma série que buscou homenagear os 50 anos de carreira de Maurício, com artistas recriando os personagens clássicos da Turma da Mônica. Foram convidados 50 artistas, desde totais desconhecidos em início de carreira a nomes já um tanto conhecidos entre entusiastas dos quadrinhos, como Mike Deodato Jr., Adão Iturrusgarai, Daniel HDR, Luke Ross, entre outros.

Algumas histórias agradam pela bela arte, outras divertem pela perspectiva alternativa sobre os personagens, outras ainda dão uma certa saudade do traço original, como seria de se esperar em uma coletânea deste tamanho. Mas, de modo geral, os artistas foram muito bem escolhidos e o nível se mantém entre as histórias.

Pessoalmente, algumas histórias me agradaram muito mais do que outras. Mas prefiro que interessados formem sua própria opinião sobre isso. Para quem gosta da Turma da Mônica ou de quadrinhos em geral, esta é uma HQ para ter, ler com atenção e de vez em quando dar mais uma olhadinha. Boa ideia e boa execução.

 

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Semana de Cinema – Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros

Abraham Lincoln: Caçador de VampirosFui assistir a esta aparente pérola do cinema esta semana. E não é que fui surpreendido?

A proposta do filme é tão esdrúxula quanto curiosa: Abraham Lincoln, o presidente americano na época da Guerra Civil que colocou frente a frente as metades Sul e Norte dos Estados Unidos da América, teria combatido também uma invasão de vampiros. Exatamente.

O filme vale como um bom filme de ação, tendo utilizado muito bem as vantagens do 3D, com enquadramentos que aproveitam bem as características da nova tecnologia. Além disso, a presença de Tim Burton entre os produtores garante a atmosfera já conhecida dos fãs dos filmes por ele dirigidos.

Lincoln é apresentado em sua infância, conhecemos seus pais, o episódio que o levou a odiar os vampiros e o episódio em que conhece a guerra (entre humanos e vampiros) que acontece sem que ninguém saiba. A partir daí, uma série de batalhas com vampiros e o início de sua vida social e política são mostrados, culminando em uma aparente aposentadoria.

Daí pra frente é que o filme fica melhor ainda, com sequências envolvendo um personagem muito mais parecido fisicamente com o presidente americano e também muito mais maduro e sábio. As cenas com o estouro de cavalos e o trem são realmente bem feitas e envolventes.

Por incrível que pareça, desfaça-se dos seus preconceitos e vá ver esse filme. Vale a pena.

Domingo dos Quadrinhos – Star Wars (Série da Ediouro)

Star Wars 1Demorou mas saiu! Quase que o domingo acaba sem Domingo dos Quadrinhos, mas felizmente conseguimos providenciar a tempo!

Em 2005 a editora Ediouro inaugurou um braço de quadrinhos com a publicação de uma série mensal de quadrinhos de Star Wars, originalmente publicados pela Dark Horse Comics nos Estados Unidos. Apesar de interrompida em 2006, a revista chegou a trazer diversas histórias completas, que compensam de longe para o fã do universo criado por George Lucas.

Como exemplos da qualidade desta série, temos as duas primeiras histórias completas, que aparecem entre os números 1 e 4 da revista mensal: a primeira delas, Obsessão, se passa meses antes do episódio III (A Vingança dos Sith) e apresenta Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker perseguindo uma inimiga chamada Ventress. Com traços muito bons (e agressivos), combinados a um roteiro que prima pelos detalhes e pela aderência ao mundo criado para a série de filmes, Obsessão é uma história que agrada a qualquer fã de Star Wars.

A segunda história completa publicada na revista, chamada Temporada de Caça, apresenta a origem do mercenário Jango Fett. Para quem se lembra, Jango foi o homem utilizado como base para criação dos clones, os Stormtroopers. A história também é muito bem desenhada e roteirizada, e vale inclusive para “não tão fãs”, porque funciona bem como uma história em quadrinhos isolada.

Esta série deve ser fácil de encontrar em sebos, e interessa demais a quem é apaixonado pelos filmes e quer saber mais sobre este universo. Recomendado.

 

Resenha – A vingança

A vingança é o segundo livro da série de Christopher Reich. Para saber sobre A Farsa – primeiro livro – clique aqui. Se continuar lendo, encontrará alguns SPOILERS do primeiro livro.

Você foi avisado.

O segundo livro começa exatamente onde o primeiro terminou. Emma foge e Jonathan está perdido entendendo apenas uma parte da coisa toda e sem saber o que fazer. Isso quer dizer que o livro já começa em um ritmo frenético e, seguindo o que o autor fez no primeiro livro, cada capítulo acrescenta intensidade sem revelar muita coisa.

Jonathan está tentando seguir sua vida enquanto espera Emma aparecer. Até que ela decide que precisa ir embora para sempre. Afinal, ela agora é a caça – a “inimiga n.1” dos Estados Unidos. Emma agora é uma fugitiva apesar de Jonathan não entender bem o impacto disso em suas vidas.

Na verdade, é possível perceber certa ambiguidade em relação a Emma. Ela não está apenas fugindo, ela está operando. Mas não sabemos para quem ou o motivo. E aparentemente ela tem uma relação pessoal com um determinado terrorista. Isso faz com que o livro continue um mistério total mesmo quando se está na página 250.

O que dá o tom de “quero saber mais” dessa vez é que em dado momento, Jonathan também passa a ser o alvo da polícia londrina. Isso porque, não vou entrar em detalhes, mas ele se vê bem no meio de um atentado muito sério e se torna o principal suspeito. O que a gente quer saber é como isso tudo vai ser resolvido.

“A vingança” mantém a sensação de “quero terminar logo o livro” porque aguça a curiosidade do leitor a todo momento. Cada capítulo traz mais informações e o quebra-cabeça, ao invés de começar a se solucionar, fica mais confuso. Um mérito de Reich.

É claro que algumas coisas são forçadas e às vezes você pode sentir que está vendo um daqueles filmes do Bond onde ele consegue levantar um avião que está caindo e pular para outro que também está caindo e fazê-lo planar normalmente ou, como chamamos atualmente: mimimi Hollywoodiano. A verdade é que eu estava começando a ficar irritada com um médico que sem qualquer tipo de treinamento em espionagem consegue escapar da polícia com tanta facilidade. Ele não poderia ter se tornado espião por osmose. Ou poderia?

Com tudo o que li no primeiro livro, eu realmente esperava algo mais nesse. Algo menos óbvio. De qualquer forma, é um bom livro para passar o tempo. E, infelizmente, é só.

Domingo dos Quadrinhos – Incal

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Moebius é um dos principais nomes dos quadrinhos europeus. Seus desenhos detalhados e com estilo próprio o levaram a tal lugar, junto com a sua tendência a criar universos fantasiosos complexos.
É com isto em mente que pus as mãos em Incal, uma fantasia publicada originalmente em vários volumes e posteriormente agrupados na edição publicada no Brasil. E o mundo fantasioso de Moebius está lá.
Só que Incal é ainda mais fantasioso. Para ser bem sincero, Incal é uma viagem completa em vários sentidos; desde o mundo criado até os nomes usados (leiam para entender) e o final, surpreendente.
O final, aliás, consagra a obra; a HQ começa como uma história de fuga passada no futuro, evolui para uma dinâmica meio Guerra nas Estrelas e termina, quando você menos espera, num final inacreditável.
Incal é recomendado para quem já leu muitos quadrinhos e gosta de ficção científica. Para os outros, melhor começar por algo um pouco mais “pé no chão”.

Resenha – Jogo de Poder (Livro e filme)

Em Julho de 2003 o jornal Washington Post publicou uma coluna que causou comoção nos Estados Unidos. O jornal comentava sobre como a agente da CIA – Valerie Plame – havia organizado junto o marido – o diplomata Joe Wilson – uma história para convencer o país de que o Iraque não tinha os tubos de alúminio necessários para fazer armas nucleares (que o Governo Bush teimava que existiam). Após os atentados às torres gêmeas de 2001, o governo norte-americano estava entretido em uma luta firme no Afeganistão e, já que estavam por ali, começaram a procurar maneiras de destituir Saddam Hussein de seu posto no Iraque.

O motivo todos nós sabemos, mas o argumento que foi utuilizado na época foi o de que o Iraque consistia em um enorme problema para o Ocidente pois havia provas de que eles estavam comprando tubos de alumínio necessário para enriquecer urânio. Aqui, começou toda a loucura que envolveu a ONU e colocou o mundo em alerta.

Nesse contexto, o que uma simples matéria no jornal poderia mudar?

Valerie Plame foi a pessoa responsável na CIA pelo time que iria averiguar a verocidade dessas informações que o Governo havia recebido. Diziam que os tubos haviam sido comprados no Níger e seu marido conhecia o país com certa propriedade por causa de seus trabalhos diplomáticos para o governo norte-americano. Portanto, pagando a viagem de seu próprio bolso, Joe Wilson foi para o Níger para confirmar ou desmentir essas informações.

As informações eram falsas e Joe reportou isso para a CIA. Pouco tempo depois, o Governo decidiu ir à Guerra mesmo assim.A coisa toda foi tão rápida que é impossível não acreditar que a Casa Branca já tinha toda a guerra planejada esperando apenas um argumento plausível para convencer a população.

O livro nos conta como o Governo organizou as informações de maneira a cumprir seu objetivo de invadir o Iraque e passou a perseguir Plame e seu marido por terem informações contrárias. É aqui que entra a coluna do Washington Post. Valerie Plame, uma agente secreta da CIA teve sua identidade real publicada no jornal. Havia detalhes de seu trabalho, informações sigilosas e pessoais colocadas em um contexto para desacreditar qualquer coisa que viesse dela ou de seu marido. Ela foi retratada como traidora da pátria e começou a receber ameaças de morte de norte-americanos fanáticos que agora sabiam que ela era, onde ela morava e onde seus filhos estudavam.

Revelar a identidade de um agente secreto nos Estados Unidos é crime federal. Nada disso impediu a Casa Branca de convenientemente vazar a informação para a imprensa. A seriedade dessa atitude passou despercebida pela maioria dos norte-americanos assustados demais com as alegações do governo Bush.

Valerie e seu marido tentaram por anos, desesperadamente, provar que estavam falando a verdade enquanto se esquivavam dos ataques do Governo. Infelizmente, o livro tem dificuldades absurdas. Antes de publicá-lo, Valerie foi obrigada a submetê-lo para a verificação da CIA que chegou a censurar páginas inteiras.

Isso significa que muitas das missões que Valerie detalha no livro foram omitidas e resta ao leitor deduzir o que pode ser. O que, confesso, é divertido. Mas nada disso tira o foco do principal – a busca por quem vazou as informações para a imprensa e a verdade sobre o Iraque.

O livro tem um ritmo complicado justamente por causa da censura. A escrita de Valerie não é das melhores (ou talvez o problema seja a tradução) mas o livro entrega a mensagem que deseja: não existe Governo 100% confiável e limpo e, faz tempo, os Estados Unidos deixaram de ser o modelo de democracia para os demais países. A leitura vale a pena justamente para chegar a essa compreensão.

Já o filme apresenta mais alguns detalhes mas também não podemos ter 100% de certeza de que é verídico (pode ser apenas o que o roteirista achou que estava escrito nas linhas censuradas). Mas as atuações são boas e a história é contada sem censura.

Plame e seu marido não tiveram tempo, nem cacife, para impedir a guerra no Iraque apesar de suas tentativas. A história geral a gente já conhece mas Plame nos apresenta um viés muito mais sórdido da guerra: a corrupção do Governo Bush da verdade para benefício próprio. Havia uma idéia tão obssessiva de guerra que eles não se importaram de desrespeitar as leis e colocar em risco a vida de dois de seus mais fiéis cidadãos.

Resenha – O malufismo

Estamos em ano eleitoral e a cidade de São Paulo anda em polvorosa. Uma das notícias que causou a comoção nas redes sociais foi a parceria do PT com Maluf fazendo com que Erundina se retirasse da campanha.

Aqui no blog já falamos sobre a Privataria Tucana (que traz informações e cópias de documentos que atestam o formato da corrupção de Serra e seus cúmplices) e agora vamos falar um pouco sobre o Maluf. Aliás, se quiserem mais algumas informações/opiniões sobre a eleição de SP desse ano, sugiro darem uma passada no blog do nosso companheiro Gabriel que comenta sobre os candidatos e o cenário atual da política paulista.

Sempre me interessei pelos mecanismos de poder – o que são, o que fazem com as pessoas e a forma como corrompem o que parece ser senso comum. Foi pensando nisso que comprei o livreto “O Malufismo” da série Folha Explica, da Folha de São Paulo. Com 73 páginas, o livro não traz uma análise impressionante sobre a política nacional ou paulista. Ele nos dá apenas alguns dados que podem servir para chegar a uma conclusão..ou não. Maluf representa, em São Paulo, um eleitorado ultrapassado mas fiel e eu queria entender o motivo disso já que não conheço nenhum malufista declarado e era muito jovem durante seu último mandato como prefeito.

A definição de populismo abre o livreto já de cara dando o tom do debate. Isso faz sentido porque Maurício Puls (autor) é um sociólogo por formação, ou seja, há uma ênfase no contexto político-social em que Maluf surgiu para entendermos as implicâncias do malufismo.

Fiquei surpresa ao descobrir que Maluf não é o dono original do slogan “rouba mas faz”. Antes dele  Adhemar de Barros, que foi prefeito e governandor de São Paulo, seguia a mesma linha: chegava ao poder e gastava o que podia e o que não podia em construções de avenidas, pontes, viadutos e etc porque “isso o povo pode ver”. Todos os seus mandatos resultaram em dívidas e rombos para a cidade e o Estado. Adhemar dizia que saber fazer dívida era o que definia um bom governo. Isso em 1938.

Nessa época, havia a noção generalizada de que não era possível desenvolver uma cidade sem um pouco de corrupção. Adhemar de Barros foi para São Paulo o que, talvez, Sarney seja para o Maranhão. Dada as respectivas proporções e sem o viés coronelista, os dois se transformaram em quase donos do Estado. Ainda assim, Adhemar estava sujeito aos desafetos políticos e não conseguiu extender seus tentáculos além de São Paulo. Assim como Maluf.

Maluf surgiu na cena política através do apoio aos militares no golpe de 64. Como empresário, acabou sendo eleito para a Associação Comercial de São Paulo onde começou a desenvolver contatos e “amigos”. Em 1969 foi nomeado prefeito da cidade e deu sequência ao estilo de governo “construtor” de Adhemar de Barros. Seu principal projeto foi o elevado Costa e Silva que teve o trajeto modificado para ser concluído ainda em seu mandato.

No ano seguinte, já teve seu primeiro escândalo – Maluf deu 25 Fuscas de presente à seleção brasileira de futebol. Em 74 foi obrigado a devolver o dinheiro mas manteve suas apelações até ser exonerado em 1995. O mais interessante aqui é ver que a Ditadura – que tinha como interesse primordial o Governo – o condenou e exigiu que o dinheiro fosse devolvido, a Democracia – que deveria defender os interesses do povo – não. Saiu da prefeitura e deixou uma dívida de 10% da arrecadação.

Em 1975, Maluf queria ser governador. Alinhado com os militares radicais, ele era contra a extinção do AI 5 “por considerá-lo imprescindível ao combate da corrupção e da subversão.” Por favor, façam uma pausa para uma água aqui. Eu sei que essa foi forte demais.

Maluf se tornou governador e começou a articulação para a criação de um novo partido. Nesse momento, ele já estava se tornando o Maluf que conhecemos hoje. Mudou os óculos para parecer menos aristocrático e começou a discursar de maneira mais calma e com palavras mais simples para que os menos escolarizados pudessem compreendê-lo. De seus eleitores na época, apenas 6% votavam nele pela honestidade. Ou seja, o povo sabia que ele não era o mais limpo dos polítcos.

O livro nos traz dados e informações sobre cada campanha de Maluf a um cargo político até a crise com Pitta que revelou mais uma característica sórdida deste senhor que brandava aos quatro ventos que “Preto também pode ser um grande prefeito”. E quando Pitta se demonstrou péssimo no trabalho e chegou a ser afastado do cargo pela justiça, Maluf retirou seu apoio a ele dizendo que “Pitta tem o biotipo de quem nasceu para cumprir ordens”.

É difícil de acreditar que algo desse tipo tenha sido tolerado um dia. E mais, é difícil de acreditar que ninguém se lembre disso.

Lendo sobre suas campanhas e articulações fracassadas, fica claro que seu sonho sempre foi a Presidência. Tentou algumas vezes mas nunca conseguiu e, acredito, agora já seja tarde demais (para a sorte de todos os brasileiros). Sua reputação está manchada de uma maneira quase irreversível. Ainda assim, o malusfismo existe e persiste na política paulista. A importância de Maluf deixou de ser seu nome e passou a ser seus contatos. Seu partido hoje vive de alianças com partidos maiores, como uma mulher que se vende para quem pagar mais.

Ele se tornou um câncer para São Paulo, algo que nossos antepassados deixaram crescer e continua incomodando as gerações mais novas. Infelizmente, a cura continua sendo o que sempre foi: a educação política. Envolve informação disponível e conhecimento do passado para pararmos de repetí-lo. E isso, claro, não é a prioridade do governo. De nenhum deles. Desde sempre.

O livro não é exatamente uma análise política aprofundada mas claramente tem uma posição e os dados que nos apresenta são importantes para conhecer um pouco mais o eleitorado e a história paulista.

Deixo para o autor explicar porque esse tipo de comportamento é tolerado pelos eleitores e acredito, com muita tristeza, que essa seja uma verdade para todo o Brasil:

“O que leva um eleitor a defender um político que ele classifica como desonesto? O fato de que ele não considera a desonestidade um crime. E não considera a desonestidade um crime porque ele mesmo a pratica, em menor escala, em sua vida privada. Médicos e dentistas que não dão nota fiscal, comerciantes e industriais que sonegam impostos, camelôs e marreteiros que entregam mercadorias quebradas, taxistas que fazem os trajetos mais longos, nenhum deles se diz desonestos: são apenas pessoas que sabem ‘levar vantagem em tudo’.”