Resenha – Jogo de Poder (Livro e filme)

Em Julho de 2003 o jornal Washington Post publicou uma coluna que causou comoção nos Estados Unidos. O jornal comentava sobre como a agente da CIA – Valerie Plame – havia organizado junto o marido – o diplomata Joe Wilson – uma história para convencer o país de que o Iraque não tinha os tubos de alúminio necessários para fazer armas nucleares (que o Governo Bush teimava que existiam). Após os atentados às torres gêmeas de 2001, o governo norte-americano estava entretido em uma luta firme no Afeganistão e, já que estavam por ali, começaram a procurar maneiras de destituir Saddam Hussein de seu posto no Iraque.

O motivo todos nós sabemos, mas o argumento que foi utuilizado na época foi o de que o Iraque consistia em um enorme problema para o Ocidente pois havia provas de que eles estavam comprando tubos de alumínio necessário para enriquecer urânio. Aqui, começou toda a loucura que envolveu a ONU e colocou o mundo em alerta.

Nesse contexto, o que uma simples matéria no jornal poderia mudar?

Valerie Plame foi a pessoa responsável na CIA pelo time que iria averiguar a verocidade dessas informações que o Governo havia recebido. Diziam que os tubos haviam sido comprados no Níger e seu marido conhecia o país com certa propriedade por causa de seus trabalhos diplomáticos para o governo norte-americano. Portanto, pagando a viagem de seu próprio bolso, Joe Wilson foi para o Níger para confirmar ou desmentir essas informações.

As informações eram falsas e Joe reportou isso para a CIA. Pouco tempo depois, o Governo decidiu ir à Guerra mesmo assim.A coisa toda foi tão rápida que é impossível não acreditar que a Casa Branca já tinha toda a guerra planejada esperando apenas um argumento plausível para convencer a população.

O livro nos conta como o Governo organizou as informações de maneira a cumprir seu objetivo de invadir o Iraque e passou a perseguir Plame e seu marido por terem informações contrárias. É aqui que entra a coluna do Washington Post. Valerie Plame, uma agente secreta da CIA teve sua identidade real publicada no jornal. Havia detalhes de seu trabalho, informações sigilosas e pessoais colocadas em um contexto para desacreditar qualquer coisa que viesse dela ou de seu marido. Ela foi retratada como traidora da pátria e começou a receber ameaças de morte de norte-americanos fanáticos que agora sabiam que ela era, onde ela morava e onde seus filhos estudavam.

Revelar a identidade de um agente secreto nos Estados Unidos é crime federal. Nada disso impediu a Casa Branca de convenientemente vazar a informação para a imprensa. A seriedade dessa atitude passou despercebida pela maioria dos norte-americanos assustados demais com as alegações do governo Bush.

Valerie e seu marido tentaram por anos, desesperadamente, provar que estavam falando a verdade enquanto se esquivavam dos ataques do Governo. Infelizmente, o livro tem dificuldades absurdas. Antes de publicá-lo, Valerie foi obrigada a submetê-lo para a verificação da CIA que chegou a censurar páginas inteiras.

Isso significa que muitas das missões que Valerie detalha no livro foram omitidas e resta ao leitor deduzir o que pode ser. O que, confesso, é divertido. Mas nada disso tira o foco do principal – a busca por quem vazou as informações para a imprensa e a verdade sobre o Iraque.

O livro tem um ritmo complicado justamente por causa da censura. A escrita de Valerie não é das melhores (ou talvez o problema seja a tradução) mas o livro entrega a mensagem que deseja: não existe Governo 100% confiável e limpo e, faz tempo, os Estados Unidos deixaram de ser o modelo de democracia para os demais países. A leitura vale a pena justamente para chegar a essa compreensão.

Já o filme apresenta mais alguns detalhes mas também não podemos ter 100% de certeza de que é verídico (pode ser apenas o que o roteirista achou que estava escrito nas linhas censuradas). Mas as atuações são boas e a história é contada sem censura.

Plame e seu marido não tiveram tempo, nem cacife, para impedir a guerra no Iraque apesar de suas tentativas. A história geral a gente já conhece mas Plame nos apresenta um viés muito mais sórdido da guerra: a corrupção do Governo Bush da verdade para benefício próprio. Havia uma idéia tão obssessiva de guerra que eles não se importaram de desrespeitar as leis e colocar em risco a vida de dois de seus mais fiéis cidadãos.

Resenha – O malufismo

Estamos em ano eleitoral e a cidade de São Paulo anda em polvorosa. Uma das notícias que causou a comoção nas redes sociais foi a parceria do PT com Maluf fazendo com que Erundina se retirasse da campanha.

Aqui no blog já falamos sobre a Privataria Tucana (que traz informações e cópias de documentos que atestam o formato da corrupção de Serra e seus cúmplices) e agora vamos falar um pouco sobre o Maluf. Aliás, se quiserem mais algumas informações/opiniões sobre a eleição de SP desse ano, sugiro darem uma passada no blog do nosso companheiro Gabriel que comenta sobre os candidatos e o cenário atual da política paulista.

Sempre me interessei pelos mecanismos de poder – o que são, o que fazem com as pessoas e a forma como corrompem o que parece ser senso comum. Foi pensando nisso que comprei o livreto “O Malufismo” da série Folha Explica, da Folha de São Paulo. Com 73 páginas, o livro não traz uma análise impressionante sobre a política nacional ou paulista. Ele nos dá apenas alguns dados que podem servir para chegar a uma conclusão..ou não. Maluf representa, em São Paulo, um eleitorado ultrapassado mas fiel e eu queria entender o motivo disso já que não conheço nenhum malufista declarado e era muito jovem durante seu último mandato como prefeito.

A definição de populismo abre o livreto já de cara dando o tom do debate. Isso faz sentido porque Maurício Puls (autor) é um sociólogo por formação, ou seja, há uma ênfase no contexto político-social em que Maluf surgiu para entendermos as implicâncias do malufismo.

Fiquei surpresa ao descobrir que Maluf não é o dono original do slogan “rouba mas faz”. Antes dele  Adhemar de Barros, que foi prefeito e governandor de São Paulo, seguia a mesma linha: chegava ao poder e gastava o que podia e o que não podia em construções de avenidas, pontes, viadutos e etc porque “isso o povo pode ver”. Todos os seus mandatos resultaram em dívidas e rombos para a cidade e o Estado. Adhemar dizia que saber fazer dívida era o que definia um bom governo. Isso em 1938.

Nessa época, havia a noção generalizada de que não era possível desenvolver uma cidade sem um pouco de corrupção. Adhemar de Barros foi para São Paulo o que, talvez, Sarney seja para o Maranhão. Dada as respectivas proporções e sem o viés coronelista, os dois se transformaram em quase donos do Estado. Ainda assim, Adhemar estava sujeito aos desafetos políticos e não conseguiu extender seus tentáculos além de São Paulo. Assim como Maluf.

Maluf surgiu na cena política através do apoio aos militares no golpe de 64. Como empresário, acabou sendo eleito para a Associação Comercial de São Paulo onde começou a desenvolver contatos e “amigos”. Em 1969 foi nomeado prefeito da cidade e deu sequência ao estilo de governo “construtor” de Adhemar de Barros. Seu principal projeto foi o elevado Costa e Silva que teve o trajeto modificado para ser concluído ainda em seu mandato.

No ano seguinte, já teve seu primeiro escândalo – Maluf deu 25 Fuscas de presente à seleção brasileira de futebol. Em 74 foi obrigado a devolver o dinheiro mas manteve suas apelações até ser exonerado em 1995. O mais interessante aqui é ver que a Ditadura – que tinha como interesse primordial o Governo – o condenou e exigiu que o dinheiro fosse devolvido, a Democracia – que deveria defender os interesses do povo – não. Saiu da prefeitura e deixou uma dívida de 10% da arrecadação.

Em 1975, Maluf queria ser governador. Alinhado com os militares radicais, ele era contra a extinção do AI 5 “por considerá-lo imprescindível ao combate da corrupção e da subversão.” Por favor, façam uma pausa para uma água aqui. Eu sei que essa foi forte demais.

Maluf se tornou governador e começou a articulação para a criação de um novo partido. Nesse momento, ele já estava se tornando o Maluf que conhecemos hoje. Mudou os óculos para parecer menos aristocrático e começou a discursar de maneira mais calma e com palavras mais simples para que os menos escolarizados pudessem compreendê-lo. De seus eleitores na época, apenas 6% votavam nele pela honestidade. Ou seja, o povo sabia que ele não era o mais limpo dos polítcos.

O livro nos traz dados e informações sobre cada campanha de Maluf a um cargo político até a crise com Pitta que revelou mais uma característica sórdida deste senhor que brandava aos quatro ventos que “Preto também pode ser um grande prefeito”. E quando Pitta se demonstrou péssimo no trabalho e chegou a ser afastado do cargo pela justiça, Maluf retirou seu apoio a ele dizendo que “Pitta tem o biotipo de quem nasceu para cumprir ordens”.

É difícil de acreditar que algo desse tipo tenha sido tolerado um dia. E mais, é difícil de acreditar que ninguém se lembre disso.

Lendo sobre suas campanhas e articulações fracassadas, fica claro que seu sonho sempre foi a Presidência. Tentou algumas vezes mas nunca conseguiu e, acredito, agora já seja tarde demais (para a sorte de todos os brasileiros). Sua reputação está manchada de uma maneira quase irreversível. Ainda assim, o malusfismo existe e persiste na política paulista. A importância de Maluf deixou de ser seu nome e passou a ser seus contatos. Seu partido hoje vive de alianças com partidos maiores, como uma mulher que se vende para quem pagar mais.

Ele se tornou um câncer para São Paulo, algo que nossos antepassados deixaram crescer e continua incomodando as gerações mais novas. Infelizmente, a cura continua sendo o que sempre foi: a educação política. Envolve informação disponível e conhecimento do passado para pararmos de repetí-lo. E isso, claro, não é a prioridade do governo. De nenhum deles. Desde sempre.

O livro não é exatamente uma análise política aprofundada mas claramente tem uma posição e os dados que nos apresenta são importantes para conhecer um pouco mais o eleitorado e a história paulista.

Deixo para o autor explicar porque esse tipo de comportamento é tolerado pelos eleitores e acredito, com muita tristeza, que essa seja uma verdade para todo o Brasil:

“O que leva um eleitor a defender um político que ele classifica como desonesto? O fato de que ele não considera a desonestidade um crime. E não considera a desonestidade um crime porque ele mesmo a pratica, em menor escala, em sua vida privada. Médicos e dentistas que não dão nota fiscal, comerciantes e industriais que sonegam impostos, camelôs e marreteiros que entregam mercadorias quebradas, taxistas que fazem os trajetos mais longos, nenhum deles se diz desonestos: são apenas pessoas que sabem ‘levar vantagem em tudo’.”

Resenha – O Homem do Castelo Alto

O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick é um dos mais respeitados autores de ficção científica do mundo. Autor de diversos sucessos, seu principal trunfo é Blade Runner, livro que foi base para o famoso longa-metragem.

Foi com esta expectativa que comecei a desbravar O Homem do Castelo Alto. Nesta obra, Dick se propõe a pensar como seria o mundo se a Alemanha tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Uma ideia, a princípio, fascinante (como tema de ficção, claro). Nas mãos de alguém que se especializou em desenhar cenários futuristas, prometia muito.

E o livro realmente entrega boa parte do que promete. O universo alternativo imaginado pelo autor é plausível, e mesmo  pequenos detalhes, como a ausência de televisores nas casas, mostram o quanto a cultura da sociedade seria diferente com um outro “império” por trás. A atuação em geral do Japão e da Itália, ambos vencedores ao lado da Alemanha, também é coerente com a posição que os dois países tinham adotado na guerra. É, portanto, um bom exercício do ponto de vista geopolítico e talvez de análise da sociedade.

Mas o foco do livro não é esse. Tomando essas coisas como pano de fundo, Dick se propõe a contar uma estória, sobre a qual não entrarei em detalhes. O importante a se dizer é que a princípio é uma boa estória, mas ao final parece uma estória que não termina. O autor nos traz o que seria o início de alguma coisa, de alguma mudança na sociedade descrita, mas não nos entrega o suficiente disso para realmente sabermos o que acontecerá depois. Outro grande problema da obra vem das divagações do autor em torno do I Ching, famoso livro de pensamentos chinês que permeia toda a história. Por vezes participando apenas como coadjuvante, há partes em que a importância do I Ching, e divagações dos personagens a respeito dele, tomam páginas e páginas. Não parece ser o que procura um leitor de um livro de ficção científica sobre a Segunda Guerra Mundial.

Resumindo, o livro não te deixa com sensação de tempo perdido; o exercício sobre o tempo alternativo é interessante e merece ser feito se você se interessa pelo tema. Mas fiquei com a sensação de que o tema poderia ter sido melhor explorado, de que esta não foi a melhor forma de abordá-lo.

Resenha – Feios

Feios é uma obra de ficção sobre um mundo onde existe uma divisão entre pessoas consideradas bonitas (ou perfeitas) e as pessoas consideradas feias. Há duas cidades principais onde as pessoas feias e bonitas ficam separadas. Ao completarem 16 anos, as pessoas passam por cirurgias obrigatórias que retiram tudo o que é considerado imperfeito e elas podem se mudar para Nova Perfeição – onde apenas as pessoas perfeitas vivem de festas, sem qualquer resposabilidade.

As cirurgias foram criadas para que as pessoas parassem de se julgar baseando-se na cor da pele, cabelo, tatuagens, cicatrizes, olhos vesgos e etc. Ou seja, a criação de pessoas perfeitas e padronizadas foi justamente para evitar racismo e preconceitos mesquinhos dos seres humanos.

A personagem principal é Tally que está quase completando 16 anos e sonha em se tornar perfeita. Ela vive imaginando como será sua vida quando tudo for perfeito e se acha feia de uma maneira cruel. Quando se infiltra no mundo perfeito para visitar seu amigo recém operado, Tally quase é descoberta. É nesse contexto que ela conhece Shay.

Shay também é uma feia. Mas ela não parece se importar muito com isso e se rebela contra a idéia de que apenas quando se é considerado perfeito é possível ser feliz e decide fugir para uma cidade onde ninguém é obrigado a passar pela cirurgia – porque onde todo mundo é feio, ninguém é feio. Mas Tally não entende essa lógica. Ela vive obcecada pela idéia de se tornar perfeita, manipulada pela biologia e o que todo mundo diz que se deve fazer e ser. Tally é chata. Ela é toda adolescente leitora de revistas de moda que acredita que se você não tem a saia no tom certo de marrom, você nunca será alguém na vida. Ela é a adolescente que precisa de celular e maquiagem para ir para a escola..não para ser diferente, mas para se misturar. A história eleva o termo “Ditadura da beleza” a um novo patamar.

Mas algo dá errado antes da cirurgia de Tally e ela é, basicamente, forçada a escolher entre ser perfeita e trair uma das únicas pessoas que foi sua amiga independente de sua aparência. Ela se infiltra na cidade dos feios que fugiram e começa a enfrentar sua consciência, se dividindo entre seu sonho e sua amiga.

A imaginação do autor quase que trabalha contra ele. Ao descrever o caminho para Fumaça – cidade onde o grupo de feios fugitivos vive – ele se perde. Honestamente, a descrição é chata e beira o irritante.

Na Fumaça, Tally descobre o que era considerado bonito há 300 anos – quando aparentemente as cirurgias começaram. Ao folhear uma revista ‘antiga’ de celebridade ela percebe que  havia diversas pessoas que não pareciam envergonhadas de não serem “perfeitas”.  O mais estranho é ver nosso atual e distorcido conceito  de beleza colocado como “um conceito mais democrático de beleza”.

Tally encontra um mundo completamente novo e aprende detalhes sobre sua estimada operação que abrem sua cabeça para um mundo novo e novas possibilidades. Ela começa a ver que ser igual não é necessariamente ser melhor e que, na verdade, tem muita beleza no que é diferente.

Tudo o que acontece na Fumaça serve para manter o enredo rolando enquanto você começa a se perguntar onde tudo isso vai dar e qual a lição que o autor quer que o leitor tire do livro. Não é que ser bonito é subjetivo. Por que tenho certeza que quando pensaram nos perfeitos, 95% das pessoas que liam o livro pensaram em meninas brancas de cabelo liso.

O que o autor nos mostra é que nós JÁ ESTAMOS programados a ver beleza de determinada forma. As plásticas que vemos hoje são padronizadas, elas só não são obrigatórias. A história de Westerfeld é o extremo do modelo que criamos hoje em todas as revistas de beleza. Ultrapassa a padronização da beleza e se torna a padronização do pensamento.

Infelizmente esse é um tipo de reflexão que um jovem de 12 anos não poderia fazer. Muitas das pessoas que leram o livro provavelmente vão pensar que o livro é bom e “puxa, ainda bem que não somos assim”, sem refletir nem por um segundo que já estamos quase vivendo o que o livro descreve. Não nos extremos de dividir as cidades e todo o bla bla bla que o autor coloca para enfeitar a história, mas no conceito do bonito X feio e na idéia de que beleza significa quase automaticamente sucesso e boa vida.

Se metade das pessoas que lerem esse livro conseguirem entender isso, já é considerável porque esse é um debate muito importante. É essa crise de identidade do bonito X feio que faz com que a geração que cresce agora seja intrinsecamente insegura e desesperada em agradar. Esse tipo de pessoa não reclama, não muda o mundo, não se rebela, não transforma sua realidade. Elas se sentem contentes em serem aceitas.

Para elucidar tudo isso, indico o documentário sobre a mídia e a forma como as mulheres são retratadas atualmente (com legendas em português). O foco do documentário é a mídia norte-americana mas acho que fica claro que essa é uma epidemia que está se espalhando:

Dado o contexto atual, é impossível não pensar que o modelo de “Feios” seja uma realidade muito próxima e assustadora.

Resenha – Fallen

Fallen é um livro que nasce em uma época quase que dominada por uma safra de livros juvenis fantásticos e isso sustenta uma demasiada carga de “parecer” com todos os outros, mas ele muda completamente o personagem de fantasia aqui e um dos motivos que me levou a lê-lo, foi esse. Eu gostei do livro, gostei mesmo. A escrita é tranquila e nada maçante. Apesar do enredo ter sido construído na base do consagrado estilo romântico, com dois personagens lutando por um sentimento, um terceiro querendo roubar o amor da mocinha, a melhor amiga, a garota que incomoda e tudo o mais, o livro apresenta alguns tópicos diferenciados e a temática gira em torno de “anjos”.

Lucinda Price – Luce – é uma garota meio deprê, mas não é uma deprê normal, ela aparentemente tem motivos para isso e alem dos motivos, ela ainda é observada como maluca, desequilibrada até. A causa disso tudo é uma diferença sensorial que ela possui: ela vê sombras estranhas e nada agradáveis; e também sofre com o transtorno causado por um suposto envolvimento na morte, sem explicações, de um rapaz que ela gostava (nem mesmo Luce sabe se tem parcela de culpa na morte). Ela passa por momentos de perturbação pessoal e de incompreensão de outras pessoas, até da família, com tudo isso, ela acaba sendo enviada para um reformatório, feio, mórbido, decadente.

Toda a estrutura do reformatório é apresentada como uma escola para delinquentes. Existem aqui até o grupo dos “perigosos” que usam uma pulseira específica. Luce é bem recebida por alguns, bate de frente (literalmente) com outros e também chega a ser menosprezada. SIM, a garota mal chega em um lugar estranho e JÁ É desprezada, não apenas ignorada. Tal situação a deixa intrigada. Mesmo sendo abordada com bastante galanteio por um dos rapazes mais populares, ela se sente atraída pelo que a deixa de lado. É certo que muito na vida real acontece dessa forma, mas no livro as explicações se dão com o tempo e algo além envolve Luce e Daniel, o rapaz que nem a olha direito.

Daniel tem a aparência de triste, melancólica e passiva, Cam, o galanteador popular, já é mais ativo e impulsivo, deixando Luce dividida, assim como em histórias de amores impossíveis. O interesse por um, que não parece afim, é compensado pela empolgação do outro. No decorrer do livro, ela se sente cada vez mais envolvida pelo clima de mistério de Daniel e passa a pesquisar sobre ele (com a ajuda de uma amiga fiel), ficando com a intuição perseverante de que o conhece, de alguma maneira. Mas a decisão de finalizar qualquer comprometimento com Cam ainda não parece definitivo. Com o tempo, as investidas de Cam se tornam cada vez mais diretas, levando a um momento de ação definitiva por parte de Daniel.

Luce e Daniel se posicionam, e a hora da verdade chega, mas é claro que nada é tão simples e tão objetivo. Daniel tem uma longa história e Luce está presente nessa história desde SEMPRE. Daniel é um anjo, Luce uma mortal que ele escolheu para amar eternamente. (essa parte da história é um pouco ligeira, a escritora parece ter escrito com alguma pressa, uma pena, pois deveria ser a parte mais bem elaborada, mas creio que nos outros livros, tudo seja detalhadamente explicado). Tal contexto não é processado facilmente por Luce, que se perturba com isso, mas tuas pesquisas a ajudam a acreditar e então ela decide enfrentar de vez, TUDO, para estar ao lado do ser que ama. Quando os eternos amantes se aceitam, as peças se agrupam e os lados se desmascaram, adversários se posicionam no tabuleiro de uma guerra infinita entre seres eternos, onde não há somente bem ou mal.

Daniel e Cam são dois anjos caídos que se confrontam, juntos com seus aliados (sim, mais personagens são anjos), mas que, por algum motivo, AMBOS, não querem a morte de Luce. O grande problema é que muitos outros querem, outras forças desejam o fim do envolvimento do anjo com a mortal e essa luta pode ser muito mais complexa do que foi apresentada até agora (aqui quero, muito, ver como a autora estrutura essa ideia).

O livro é o 1º de uma série de 4, os próximos explicam o passado dos amantes, a causa dessa guerra angelical e explicará como anjos caídos fazem escolhas. Espero que a autora tenha trabalhado isso muito bem (o 4º ainda será publicado), pois pode ser um mote deveras interessante, ainda mais em uma época onde seres fantásticos ganham cada vez  mais lugar no imaginário popular e anjos são personagens que podem ter capacidades maiores do que mortos vivos (eu ainda sou MEGA fascinado com Vampiros, mas um que brilha e outros que são bonzinhos, me deixam deprimido).

Li Fallen por indicação da minha Pekena Ludmila Pires e o fiz com vontade mesmo, gostei do livro. Ele é gostoso de se ler, ainda mais sendo embalado por uma trilha sonora que o envolva. Fallen tem muito ar de música gótica, diria eu e acredito que os amantes de Evanescence podem gostar muito dele e vice-versa, mas eu acabei lendo ao som de Seether, pois o som que a voz sussurrante do vocalista entoa, ajuda um bocado a entrar no clima enevoado que a história dispõe e, junto, deixei tocar  Agridoce também, pois a caracterização rebelde e solitária que a musicalidade desse projeto da Pitty evidencia, auxilia na disposição entorpecente da protagonista.

Alguns personagens possuem carisma e são interessantes, mesmo que sem tanta profundidade, pois é o 1ª livro ainda, muito há para acontecer e a história de amor não é piegas (algumas são, a de um vampiro fadinha por exemplo). Parece que a autora acertou onde a criadora de Crepúsculo pode ter errado: a protagonista tem razão de ser da forma que é e o par romântico não é um morto vivo que a “engravida”, assim, eu indico.