Resenha – Tempo é dinheiro

Só precisei ver que esse livro foi escrito por Lionel Shriver para comprar. Não precisei de indicações, comentários críticos nem nada disso. Depois de ler “Precisamos falar sobre o Kevin” e “O mundo pós aniversário” eu já era fã dela.

O livro aborda o “way of life” norte americano. Shep Knacker é um empresário que veio de uma família humilde e ao começar a fazer pequenos trabalho manuais na vizinhança, ganhou clientes a rodo e abriu um pequeno negócio. A “Knack para toda obra” cresceu e Shep acreditava que estava no caminho para seu sonho: guardar dinheiro o suficiente para aproveitar a velhice em um lugar tranquilo – de preferência em algum país do 3o mundo onde o dinheiro renderia mais. Depois de 22 anos como chefe de si mesmo, Shep vende a empresa por 1 milhão de dólares (quantia que ele achava que acabaria por comprar seu sonho de descanso). Mas os planos não saíram conforme pensado e Shep se tornou empregado de sua ex empresa.

Tudo isso enquanto Glynis, sua esposa, saia e entrava em depressões pesadas. Quando eles se conheceram, Glynis fazia peças de metais para vender e ganhar a vida – ainda que de forma modesta. Quando casaram, Glynis não se preocupava mais em trabalhar já que suas contas estavam pagas e ela podia descansar e criar os filhos. Shep via seu sonho de outra vida cada vez mais distante. Agora, ele trabalha por quatro e a margem de dinheiro guardado ia diminuindo.

Mas não se pode confiar no destino ou na vida, não é mesmo? Glynis explica a Shep que não pode viajar com ele e que eles não podem abandonar tudo: ela precisa do plano de saúde. Glynis descobriu que tem um câncer raro.

Somos apresentados também a Carol e Jackson – amigos do casal com duas filhas problemáticas: a mais velha tem uma doença degenerativa e, aos 16 anos, já começa a definhar. A mais nova é hipocondríaca por acreditar que estar doente é a única maneira de ter atenção dos pais. Jackson trabalha com Shep e é seu melhor amigo. Apesar de um casamento sólido, Carol e Jackson enfrentam alguns problemas típicos de pais que têm um foco de atenção constante nos filhos.

Os capítulos vão se alternando entre a vida de ambos os casais e quando Shep aparece, os capítulos iniciam com o saldo de sua conta. Assim, vamos acompanhando o sumiço de suas finanças à medida que os tratamentos de Glynis começam. Além disso, também aprendemos mais sobre o sistema de saúde norte americano (o livro é uma crítica direta e dura a esse sistema). Quando Obama chegou ao poder, em 2008, um de seus primeiros projetos envolveu a saúde…apesar de ser a terra das oportunidades e dos tênis baratos, uma internação sem convênio poderia custar quase um ano de salário para os desafortunados. (Para saber mais sobre o sistema de saúde norte americano, recomendo o documentário SOS Saúde de Michael Moore que traça um paralelo entre o sistema de saúde dos EUA, da Inglaterra, do Canadá e da França – e, pasmem, os EUA têm um sistema pior e que custa o dobro)

O livro é permeado de comentários ácidos como: “Algum palerma obsequioso foi pago para preencher todos aqueles códigos e ticar os quadrinhos, e despachar cópias para mais cinco lugares. Trinta por cento do dinheiro gasto com a assistência médica neste país vai para a chamada administração. A verdade é que existe toda uma camada de empresas de seguros com fins lucrativos entre a Glynis e os médicos, um bando de parasitas sacanas e gananciosos ganhando dinheiro com a doença dela”. Esse, claro, é Jackson. Shep nunca diria nada do tipo.

Aliás, Jackson também acaba se metendo em um problema insano que não vou detalhar porque a própria autora demora para nos dizer o que é. Então acho que ela quer que você descubra sozinho(a) e não sou eu quem vai estragar isso. ;). De qualquer forma, a família tem mais um problema de saúde – e caro – para cuidar. Mas surpresas sempre acontecem e prepare-se para reviravoltas na história que você certamente não esperava – do tipo que te deixam sem reação por alguns minutos.

O livro, como a maioria do trabalho de Shriver, é escrito de maneira magistral – com pensamentos profundos para cada personagem. Aliás, a construção das personagens é cuidadosa e elas são completas e interessantes por si só. A estrutura do livro é objetiva e ao nos permitir acompanhar as finanças de Shep, a autora nos coloca junto com sua personagem na linha de desespero financeiro sob um sistema de saúde que não funciona. Claro que a nossa conclusão acaba condicionada mas mesmo assim, em alguns pontos, ela nos permite desenvolver uma análise própria de como o sistema de saúde atual trata dos pacientes.

O câncer não é uma das personagens principais mas está ali, atravessando todos os diálogos e trazendo situações ao ponto de ebulição. Além disso, Glynis traduz muito bem uma personagem enfrentando esse tipo de batalha e acompanhamos sua solidão enquanto os amigos somem, a família se esquiva e sua dor aumenta. Aliás, vale iniciar uma reflexão sobre amigos e famílias que começam na lista de “íntimos” e terminam na lista de “não tão íntimos assim” quando uma doença como câncer aparece. Talvez valha pensar sobre quem realmente queremos colocar nessas listas.

Um livro pessoal, sincero, real, triste e simplesmente fantástico. Recomendadíssimo, íssimo!

Resenha – Cartas na rua

Histórias de um carteiro. É, eu sei o que você está pensando: o que poderia ser tão interessante na vida de um carteiro? Bom, de acordo com o Bukowski, um carteiro que bebe a noite inteira, trabalha a maior parte do tempo de ressaca, que odeia cachorros (e cada vez que um o ataca ele começa a gritar “Assassinato”), que odeia seu chefe e não está muito preocupado em fazer seu trabalho direito, tem MUITA história para contar.

Hank Chinaski parece ser um daqueles perdidos na vida. Aos 30 e poucos anos, trabalha como carteiro mas não vê isso como profissão. É só algo que ele faz. Depois de 3 anos, quando a estabilidade estaria começando, ele larga o emprego e decide viver de apostas em corridas de cavalo. Conhece Joyce – uma guria de 23 anos (podre de rica mas ele ainda não sabia disso) – que o acompanha nas corridas e logo exige que eles se casem.

Sem perspectiva nenhuma na vida, Hank concorda e eles se mudam para a “última cidade que poderia sofrer um ataque terrorista nos EUA”. Pequena, daquelas que todo mundo sabe da vida de todo mundo, todos os habitantes da cidade sabiam da riqueza da família de Joyce e o invejam e o odeiam ao mesmo tempo. E Hank sabe disso. Aos poucos, a vida ridícula que ele vivia na cidade com sua jovem esposa ninfomaníaca perde o encanto e eles decidem voltar para a cidade grande. Joyce exige que Hank encontre um emprego “para provar para seus pais e avós que eles podem se virar sozinhos” mas não sem antes pedir que o avô pague o novo apartamento e dê um carro para eles.

Hank encontra um emprego que “não cheira a trabalho”, mas logo volta aos Correios. Dessa vez como atendente. A vida dele segue o mesmo ritmo maçante parece que eternamente. Ele não parece se interessar por nada além de um copo de álcool e não leva quase nada na vida a sério. Ele acaba se divorciando de Joyce (ela pede o divórcio e ele nem pensa duas vezes) e volta para a “vida louca” de bebida, álcool, mulheres e corridas de cavalo. E trabalho de vez em quando.

Com mais de 30 anos, esse estilo e vida é triste e deprimente. Mas mesmo assim, não deixa de ser engraçado com comentários irônicos de Hank. Dizem que Hank – que aparece em outros dois livros de Bukowski – é um alter ego do autor que tinha problemas sérios com a bebida. Hank bebe muito. E não só isso, Bukowski trabalhou como carteiro temporário no começo dos anos 50 e odiava mais seu trabalho a cada dia.

Então podemos dizer que Cartas na Rua é quase uma biografia. Bukowski escreve de maneira direta e hilária. Ler o livro é sentir que você está na mesa de bar com ele enquanto ele te conta suas peripécias.

Café Do Poderoso – Sansa/Arya

Vamos falar hoje sobre os capítulos de Sansa (pág. 293), Arya (pág. 303)

Paty

Sansa

Eu fiquei chocada com esse capítulo. Fazer Sansa casar com Tyrion é uma coisa, mas fazer isso completamente de surpresa é demais. Mostra que os Lannister não pensam duas vezes para chegar onde querem. Apesar de Sansa não ser uma das minhas personagens preferidas fiquei com dó da menina…acabar com as idéias românticas dela dessa maneira foi crueldade pura. A forma como ela se submete a ele…”senhor isso, senhor aquilo…”…eu realmente fiquei com pena dela.

O choque de Sansa e o desgosto de Tyrion…a receita para o casamento perfeito, não?! ¬¬. O que penso é que Tyrion pode ajudar Sansa a desenvolver uma mente política que pode ser interessante. Se pensarmos no contexto, esse seria um dos casais mais fortes do reino, por enquanto. Duas famílias tradicionais e fortes (ainda que uma esteja sofrendo) unidas em casamento é uma arma política razoável. Quero ver o que vai acontecer quando Robb e Catelyn descobrirem desse casamento. O.o

Arya

Capítulo leve, direto que mostra que Arya está seguindo o caminho imposto a ela. Mais uma vez, senti que algo está começando ou vai começar logo entre ela e Gendry.  Mas confesso que eu ainda estava sob o efeito do capítulo anterior para realmente prestar atenção nesse. Vai ver é por isso que quase nada acontece…para que o leitor possa respirar um pouco.

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Ragner

Sansa

Eis que temos casamentos entre Sansa e Tyrion. Não me pareceu diferente do que imaginava. O rei fez pilhéria, o anão o enfrentou e a mão se interpôs, e para manter as aparências, tudo foi sendo empurrado de forma cretina para que Joffrey continuasse crendo em sua “majestade”.

Acreditei mesmo que Tyrion chegaria a consumar algo sexual, mas ele, mais uma vez, mostrou que é mais centrado do que já imaginava.

Arya

Sendo uma das minhas personagens principais, sempre quero que os capítulos dela tenha muita informação, ação, trama alucinante e por ai vai. Gosto pelo menos de algum acontecimento inusitado, mas não foi o caso dessa vez. Tal capítulo foi apenas uma passagem sobre que rumo ela está tomando e como está vivendo as situações que a rodeia.

O único trem legal aqui foi a demonstração de ciúmes entre ela e Gendry. Gostei deveras disso.

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QUER GANHAR O 4o LIVRO DA SÉRIE?

O Poderoso começa hoje o sorteio do 4o livro da série – Festim dos Corvos.

Todos os participantes do Café serão inscritos no sorteio dentro das regras abaixo:

– O participante deve comentar no Café e ler o livro com a gente

– Curtir nossa página no Facebook.

– Cada comentário gera uma inscrição. Quanto mais você comentar, mais chances você tem de ganhar.

– Não há custo algum de envio para o vencedor.

– O sorteio é aberto para todo o Brasil.

– O resultado sairá na metade da leitura de A Tormenta de Espadas no Café – na página 422.

Ao final do capítulo sobre o Bran. PARTICIPE!

5 às 5as – Brasil em foco

Hoje vamos falar de 5 livros com o Brasil como tema principal – algo que eu realmente gosto. Bora para a lista:

1 – Carta ao Rei Dom Manuel – Pero Vaz de Caminha: quem já foi ao Rio de Janeiro deve ter ido, também, ao Cristo. Você também pode ter tido, como eu, aquela sensação de “como será que foi ter visto isso antes de tudo o que o Brasil virou”? Eu realmente me impressiono com o tanto de mudanças que nosso país sofreu mas, mais do que isso, como tantas outras continuam iguais. A Carta de Pero Vaz de Caminha é quase uma fotografia do que era o Brasil quando os primeiros europeus chegaram. Além disso, as novas edições trazem a carta original e é possível ver também como a língua mudou e foi se atualizando. Um livro que normalmente as pessoas têm que ler na escola mas recomendo uma releitura de vez em quando para relembrar o que havia de lindo nesse país.

2 – Brasil – um país do futuro – Stefan Zweig: Publicado em 1941, o livro retrata o Brasil por um olhar estrangeiro (Zweig era austríaco). Passeando pelo país, Zweig comenta sobre quase todas as grandes cidades (São Paulo, Salvador, Recife) com um olhar diferenciado e com algumas previsões para o futuro. Algumas dessas previsões nunca se concretizaram mas ao ler o livro é possível notar que Zweig estava sob um efeito de adoração pelo país tupiniquim. O autor analisou também a economia e a história do país e declarou que o Brasil estava “destinado a ser um dos mais importantes fatores do desenvolvimento futuro do mundo”, e que, no momento em que o mundo se encontrava (2a Guerra Mundial), a existência do Brasil significava uma das “melhores esperanças de uma futura civilização e pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura”.

3 – Fordlândia – Greg Gandin: Fordlândia conta a historia da cidade que Henry Ford tentou construir no Brasil, láaaaaaa na Amazônia. A cidade serviria para explorar a borracha local para que Ford pudesse produzir seus carros por preços mais baixos (ele tinha que importar borracha da Malásia na época). O investimento na região foi fenomenal. Ford queria realmente construir uma cidade e seu projeto começou com a construção de casas, pavimentação de ruas e todo o mais necessário para que uma pequena civilização vivesse ali. Mas o planejamento não levou em conta a cultura local e os trabalhadores tinham que comer coisas tipicamente norte americanas, por exemplo, como hambugueres (naquele calor!!). Além disso, os empregados norte americanos não sabiam nada de agricultura e penaram para conseguirem fazer  coisa toda dar certo. Os trabalhadores se revoltaram e o exército teve que interferir – o que seria cômico se não fosse trágico. Fordlândia existe até hoje mas está abandonada.

4 – 1808 – Laurentino Gomes: Eu sei, eu sei: os historiadores de plantão vão dizer que não vale a pena ler esse livro e tudo o mais. Sinceramente, isso não me importa. Se eu fosse ler só o que historiadores acham certo, nunca chegaria ao fim da lista. 1808 retrata um episódio muito importante na nossa história – a fuga da corte portuguesa para o Brasil colocando nosso imenso país no centro do reinado pelos anos seguintes (ainda que fosse um reinado que já começava a demonstrar sinais de que não iria durar por muito tempo). O livro é escrito de uma maneira simples e direta e serve para despertar um super interesse para essa parte da nossa história. Recomendo para jovens estudantes que estão começando a aprender um pouco mais sobre história brasileira.

5 – Guia politicamente incorreto da história do Brasil – Leandro Narloch: mais uma vez, os “historiador pira”. Em alguns pontos acho que podemos dizer que o livro apela um pouco. Mas não deixa de ser divertido ler algo que saia do convencional e daquilo que sua professora de História costumava falar. A leitura flui fácil e é possível ler o livro em alguns dias e se divertir um pouco. Recomendo! (E concordo com o autor sobre a Guerra do Paraguai – me processem)

Resenha – Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury é um clássico das distopias. Bradbury criou um mundo que a princípio parece impensável mas aos poucos vamos percebendo o quão próximo estamos de algumas de algumas situações descritas.

Bradbury nos apresenta Montag – um orgulhoso bombeiro. No livro, a ordem natural foi  invertida e os bombeiros ao invés de apagarem incêndios – eles os começam. As casas são a prova de fogo e os livros são inimigos e devem ser queimados – o Governo defende a idéia dizendo que os livros atrapalham os pensamentos e a felicidade dos cidadãos de bem. É como se as estruturas fossem invertidas e a polícia ao invés de defender a população, existisse para matar (o que eles julgam ser) os maus elementos (oh!! espere aí….)

Apesar de publicado na década de 50, o livro retrata um mundo a partir de 1990 – ou seja, o que conhecemos hoje. Um mundo na ficção com pessoas alienadas que falavam apenas de “marcas de carros ou roupas ou piscinas.” (oh!!! espere aí…) O fato é que uma vida sem livros deixou as pessoas sem base para criar idéias, sem assuntos para conversas, sem motivos para interagirem.

O livro é dividido em partes. A primeira parte é sobre o despertar da consciência de Montag que ao conhecer sua nova vizinha Clarisse – que pegunta coisas que faz com que as pessoas pensem – se assusta por ser algo incomum (perguntar e pensar). Clarisse some tão rápido como apareceu, mas ao abrir os olhos para essa superficialidade, Montag começa a perceber outros pontos horríveis da realidade em que vive. As pessoas e os animais se tornaram máquinas (quase literalmente – a mulher dele sofre uma overdose de remédio para dormir e os paramédicos trocam o sangue dela. Na própria cama. Enquanto ele vê. Simples assim…).

Mas o ápice dessa parte é a cena que leva a uma conversa sincera (até demais) entre Montag e seu Capitão:  ao checarem uma denúncia anônima, os bombeiros descobrem uma senhora que guardava diversos livros e prefere morrer queimada com seus livros do que se entregar para a polícia. Montag não apenas pega um livro escondido como se sente muito mal com a decisão da senhora e tenta ajudá-la (duas coisas proibidas). Na manhã seguinte, ele acorda fisicamente doente e decide que vai abandonar o emprego.

O Capitão Beatty vem procurá-lo e faz um dos melhores discursos que já vi em um livro. Tive dificuldades em achar uma única parte para colocar como amostra grátis mas vamos com essa: “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias, as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

É nessa primeira parte que também percebemos algo terrível: o Governo pode ter facilitado mas foram AS PESSOAS que decidiram deixar de ler. Foram as pessoas, ao longo dos anos, que foram deixando os livros de lado e dando mais valor para a programação na tv. A tv – nessa nova realidade – é embutida na parede e as pessoas a chamam de “família” mas mal conversam entre si.

Enquanto você recupera o ar, a segunda parte começa com força total.

O fato é que Montag está farto de não saber nada. Então, ele decide revelar para sua esposa um segredo que poderia acabar com ambos: Montag tem roubado livros há algum tempo e já acumulou uns 20 – inclusive uma Bíblia (livro totalmente proibido). E agora, Montag quer entender o que tem ali só que apesar de ler e reler as passagens ele não consegue entender o significado de nada – porque pensar não é um exercício fácil.

A saída é procurar ajuda. Montag se recorda de Faber – um ex professor que agora está (óbvio) desempregado – e pede que o ajude a copiar os livros e garantir que outras pessoas os leiam. Pede, também, que o professor o ajude a entender. Simples assim. A segunda parte do livro é sobre Montag assumindo sua identidade duplas mas percebendo que não se pode fugir para sempre das garras do Governo.

Na terceira parte, estou tentando ao máximo não contar spoilers, Montag encontra um grupo de homens que vivem à margem da sociedade – são ex professores, filósofos, estudiosos que perderam qualquer tipo de função nessa sociedade hiper regrada e não pensante. Mas a forma que eles escolheram de honrar suas devidas profissões foi memorizando livros que consideram importantes. Cada um memorizou um livro e Montag percebe que há muitos outros como eles. Para salvar os pensamentos, as idéias, essas pessoas se tornaram portadores e contadores de histórias.

Eu fechei o livro e instantaneamente ele se tornou um dos meus preferidos. A escrita é excelente, clara e objetiva e até mesmo as partes mais descritivas – que costumam ser um pouco chatinhas – demonstram um certo talento de Bradbury para envolver o leitor. O conceito da história podia parecer absurdo em 1953 – a ponto de ser classificado como ficção científica – mas hoje, não acredito que isso esteja tão distante, lamentavelmente. No livro, o constante pavor do silêncio levou a população a manter a tv ligada e o cérebro plugado na programação. É como hoje onde quase tudo que existe para nos conectar também acaba nos distraindo do mais importante: pensar e analisar o tanto de informação que temos.

Outra coisa interessante é que o livro é dividido em 3 partes mas não segue a estrutura de um livro comum. Exemplo, em qualquer livro você tem muita descrição no começo, para que possamos imaginar as cenas e as personagens. Mas em Fahrenheit 451, a descrição fica quase toda no final. É como se à medida que Montag abre seus olhos, ele começa a VER as coisas de verdade e nós também. Uma bela construção para uma bela história triste.

Semana de Cinema – Se7en – Os Sete pecados capitais

Um dos roteiros mais originais que já vi, com toda certeza. (Aposto que você imaginou que eu ia começar com o Brad Pitt). E tem Brad Pitt.

O filme conta a história de dois detetives – um deles em começo de carreira (David Mills – interpretado por um Brad Pitt um pouco inseguro mas super lindo) – e o outro ponderando sobre a aposentadoria (William Somerset – interpretado por Morgan Freeman quando ele já era idoso). Ambos investigam assassinatos estranhos inspirados nos sete pecados capitais. O assassino parece estar sempre um passo à frente de Mills e Somerset.

As cenas das mortes são fortes e o clima do filme todo é pesado com algumas cenas mais leves para que o público possa acalmar o coração um pouco (mas raras já que esse é um filme de Finch). A representação de cada pecado é quase literal e o assassino claramente é um homem a) sem uma vida pessoal e b) com muita imaginação e ódio pela humanidade.

À medida que a história se desenrola, aprendemos mais sobre a vida de Mills e Somerset. Mills é recém sacado e se mudou com sua jovem esposa para uma nova cidade. Ela não está se adaptando bem, eles têm uma vida difícil e estão tentando fazer a coisa toda funcionar. Mills vive sozinho e parece ser extremamente solitário. A relação entre dois é superficial no começo mas se aprofunda um pouco durante o filme (aquela coisa toda de desenvolvimento de personagem).

Os crimes ocorrem sem nenhum tipo de coerência além do fato de que seguem os 7 pecados capitais. É difícil para os investigadores encontrarem o começo da linha para seguirem o rastro do assassino. A originalidade é surpreendente em alguns assassinatos.

O filme é cheio de mensagens esquisitas – como o número de todos os prédios na cena inicial começarem com 7, ou como os livros bizarros do assassino cheios de coisas escritas terem DE FATO sido escritos (provavelmente pelo estagiário) para o filme. E é dirigido por David Fincher que conta uma história obscura como ninguém.

Foi lançado em 1995 e se você não assistiu até agora, você precisa corrigir esse erro grotesco da sua vida. Assista amanhã ou hoje de madrugada. É necessário! Não só pela atuação fantástica de Kevin Space em seu primeiro papel de destaque mas pelo debate que se dá quando ele finalmente aparece em cena e explica – ou tenta – suas motivações para os assassinatos. É alimento para o cérebro. E o final…ah…o final!!

Motivos não faltam para recomendar esse filme. Um clássico dos anos 90 que vai continuar surpreendendo os espectadores por muito tempo.

Resenha – A pirâmide vermelha

Ahh!! Rick Riordan! Há alguns anos atrás uma nova série me viciou – Percy Jackson e os Olimpianos (que sempre considerei uma mistura de Harry Potter com mitologia – duas das minhas coisas preferidas). Puro amor. Li os sete livros da série em menos de um mês.

Muito se fala sobre literatura jovem e os mimimis habituais de que “não tem qualidade” e “desde Harry Potter nada mais é bom”. Eu concordo que o padrão estabelecido por J.K Rowling realmente é alto. E definitivamente, nem todos os livros lançados para um público jovem tem a qualidade das histórias que ela criou para o jovem bruxo. Ainda assim, conheço pessoas que gostam mais de Percy Jackson do que de Harry Potter. No fundo, se esses livros afetarem os jovens como me afetaram aos 14 anos, tudo certo. Pode publicar. (Menos Crepúsculo. Crepúsculo NÃO!)

Depois do sucesso de Percy Jackson, Rick Riordan nos apresenta “As crônicas dos Kane”. O estilo, formato, fórmula são os mesmos. Só que agora ao invés de seres mitológicos estamos tratando de Deuses Egípcios (weeeeeeeee).

Os Kane são Carter e Sadie, dois irmãos que perderam a mãe muito cedo e foram criados separados. Sadie cresceu uma criança normal morando com seus avós em Londres e Carter cresceu seguindo o pai em suas escavações mundo afora – seu pai era um egiptólogo (que deve ser um dos empregos mais sensacionais do mundo). Esse é um ponto importante da história porque Riordan já mostra que tem um espaço grande para desenvolvimento dos personagens. Sadie só vê seu pai duas vezes por ano e quando finalmente ele aparece para vê-la, os irmãos testemunham o desaparecimento do pai de uma forma bem bizarra.

Vão morar com seu tio – Amos (que é um belo tonto) – e começam a aprender mais sobre suas origens e descobrem que seus pais foram magos poderosos que lutavam contra os Deuses Egípcios – que são do mal (o que é interessante, se pararmos para pensar que cada Deus cuidava de uma coisa – dos gatos, do sol, da terra, do mar e etc. Alguns queriam poder e outros queriam só cuidar de suas vidas. É invevitável quando se tem tantos Deuses que algum deles acabe tramando para derrubar os demais. Me pergunto se é por isso que hoje temos apenas um…mas eu divago…).

A premissa não é original, mas Riordan consegue transformar algo simples em uma história eletrizante. Em uma noite, li 80 páginas sem nem perceber. A leitura flui bem e cada capítulo vai acrescentando componentes e personagens estranhos que deixam a leitura mais divertida. (Por exemplo, um jacaré albino que adora bacon ou um babuíno que só come coisas que terminem com a letra o).

Os capítulos vão se alternando entre a visão de Carter e a visão de Sadie que precisam, agora, aprender a dominar poderes que eles nem sabiam que tinham para evitarem uma catástrofe porque o pai deles libertou cinco Deuses da Pedra de Roseta que precisam ser detidos porque um deles em particular – Set – quer liberar um caos completo na América do Norte e, possivelmente, no mundo.

Aos poucos, vamos conhecendo mais sobre a história egípcia, Deuses secundários, seus poderes, aprendemos mais sobre os magos e quais são seus reais poderes. É muito interessante como Riordan incorpora na história esses Deuses menores enquanto ensina mais sobre cada um. Mais ainda, como ele incorpora a História na história (eu realmente espero que vocês tenham entendido essa porque demorei dois dias para bolar) e dá vida não apenas a entidade mitológicas como também amplia o enredo de pouco em pouco.

O melhor é que, apesar do tom sobrenatural que o enredo pode tomar, Riordan criou Deuses com características humanas e muitas vezes engraçadas o que pode tornar a leitura muito mais agradável do que ler sobre seres perfeitos o tempo todo. O livro tem ação o suficiente para te mandar interessado e curioso o tempo todo e vai revelando aos poucos a trama total.

Sadie e Carter são obrigados a amadurecer mais rápido e a tomarem conta um do outro, desenvolvendo um senso de família que eles não tinham antes. A forma como isso é descrito por Riordan pode não ser original mas é inteligente e se adapta bem à trama.

A minha única ressalva é um erro bem crasso: “Com seu último encantamento, me prendeu-me à serpente.” Tenso. Mas foi o único que encontrei no livro todo.

Fora isso, a Intrínseca fez um ótimo trabalho com a edição mantendo a capa original e a qualidade é indiscutível. Se você está tentando estimular um jovem (vamos dizer…de uns 12 anos) a ler e quer uma opção além de Harry Potter, recomendo checar os livros de Riordan. Eles tratam de assuntos que possivelmente eles estudarão na escola (mitologia grega, história egípcia e etc) e pode estimular a curiosidade por essas civilizações. Mas além disso, se você procura um livro divertido para ler depois de Jane Austen ou algum russo intenso, os livros de Riordan também são uma boa pedida.