Semana de Cinema – Se7en – Os Sete pecados capitais

Um dos roteiros mais originais que já vi, com toda certeza. (Aposto que você imaginou que eu ia começar com o Brad Pitt). E tem Brad Pitt.

O filme conta a história de dois detetives – um deles em começo de carreira (David Mills – interpretado por um Brad Pitt um pouco inseguro mas super lindo) – e o outro ponderando sobre a aposentadoria (William Somerset – interpretado por Morgan Freeman quando ele já era idoso). Ambos investigam assassinatos estranhos inspirados nos sete pecados capitais. O assassino parece estar sempre um passo à frente de Mills e Somerset.

As cenas das mortes são fortes e o clima do filme todo é pesado com algumas cenas mais leves para que o público possa acalmar o coração um pouco (mas raras já que esse é um filme de Finch). A representação de cada pecado é quase literal e o assassino claramente é um homem a) sem uma vida pessoal e b) com muita imaginação e ódio pela humanidade.

À medida que a história se desenrola, aprendemos mais sobre a vida de Mills e Somerset. Mills é recém sacado e se mudou com sua jovem esposa para uma nova cidade. Ela não está se adaptando bem, eles têm uma vida difícil e estão tentando fazer a coisa toda funcionar. Mills vive sozinho e parece ser extremamente solitário. A relação entre dois é superficial no começo mas se aprofunda um pouco durante o filme (aquela coisa toda de desenvolvimento de personagem).

Os crimes ocorrem sem nenhum tipo de coerência além do fato de que seguem os 7 pecados capitais. É difícil para os investigadores encontrarem o começo da linha para seguirem o rastro do assassino. A originalidade é surpreendente em alguns assassinatos.

O filme é cheio de mensagens esquisitas – como o número de todos os prédios na cena inicial começarem com 7, ou como os livros bizarros do assassino cheios de coisas escritas terem DE FATO sido escritos (provavelmente pelo estagiário) para o filme. E é dirigido por David Fincher que conta uma história obscura como ninguém.

Foi lançado em 1995 e se você não assistiu até agora, você precisa corrigir esse erro grotesco da sua vida. Assista amanhã ou hoje de madrugada. É necessário! Não só pela atuação fantástica de Kevin Space em seu primeiro papel de destaque mas pelo debate que se dá quando ele finalmente aparece em cena e explica – ou tenta – suas motivações para os assassinatos. É alimento para o cérebro. E o final…ah…o final!!

Motivos não faltam para recomendar esse filme. Um clássico dos anos 90 que vai continuar surpreendendo os espectadores por muito tempo.

Resenha – A pirâmide vermelha

Ahh!! Rick Riordan! Há alguns anos atrás uma nova série me viciou – Percy Jackson e os Olimpianos (que sempre considerei uma mistura de Harry Potter com mitologia – duas das minhas coisas preferidas). Puro amor. Li os sete livros da série em menos de um mês.

Muito se fala sobre literatura jovem e os mimimis habituais de que “não tem qualidade” e “desde Harry Potter nada mais é bom”. Eu concordo que o padrão estabelecido por J.K Rowling realmente é alto. E definitivamente, nem todos os livros lançados para um público jovem tem a qualidade das histórias que ela criou para o jovem bruxo. Ainda assim, conheço pessoas que gostam mais de Percy Jackson do que de Harry Potter. No fundo, se esses livros afetarem os jovens como me afetaram aos 14 anos, tudo certo. Pode publicar. (Menos Crepúsculo. Crepúsculo NÃO!)

Depois do sucesso de Percy Jackson, Rick Riordan nos apresenta “As crônicas dos Kane”. O estilo, formato, fórmula são os mesmos. Só que agora ao invés de seres mitológicos estamos tratando de Deuses Egípcios (weeeeeeeee).

Os Kane são Carter e Sadie, dois irmãos que perderam a mãe muito cedo e foram criados separados. Sadie cresceu uma criança normal morando com seus avós em Londres e Carter cresceu seguindo o pai em suas escavações mundo afora – seu pai era um egiptólogo (que deve ser um dos empregos mais sensacionais do mundo). Esse é um ponto importante da história porque Riordan já mostra que tem um espaço grande para desenvolvimento dos personagens. Sadie só vê seu pai duas vezes por ano e quando finalmente ele aparece para vê-la, os irmãos testemunham o desaparecimento do pai de uma forma bem bizarra.

Vão morar com seu tio – Amos (que é um belo tonto) – e começam a aprender mais sobre suas origens e descobrem que seus pais foram magos poderosos que lutavam contra os Deuses Egípcios – que são do mal (o que é interessante, se pararmos para pensar que cada Deus cuidava de uma coisa – dos gatos, do sol, da terra, do mar e etc. Alguns queriam poder e outros queriam só cuidar de suas vidas. É invevitável quando se tem tantos Deuses que algum deles acabe tramando para derrubar os demais. Me pergunto se é por isso que hoje temos apenas um…mas eu divago…).

A premissa não é original, mas Riordan consegue transformar algo simples em uma história eletrizante. Em uma noite, li 80 páginas sem nem perceber. A leitura flui bem e cada capítulo vai acrescentando componentes e personagens estranhos que deixam a leitura mais divertida. (Por exemplo, um jacaré albino que adora bacon ou um babuíno que só come coisas que terminem com a letra o).

Os capítulos vão se alternando entre a visão de Carter e a visão de Sadie que precisam, agora, aprender a dominar poderes que eles nem sabiam que tinham para evitarem uma catástrofe porque o pai deles libertou cinco Deuses da Pedra de Roseta que precisam ser detidos porque um deles em particular – Set – quer liberar um caos completo na América do Norte e, possivelmente, no mundo.

Aos poucos, vamos conhecendo mais sobre a história egípcia, Deuses secundários, seus poderes, aprendemos mais sobre os magos e quais são seus reais poderes. É muito interessante como Riordan incorpora na história esses Deuses menores enquanto ensina mais sobre cada um. Mais ainda, como ele incorpora a História na história (eu realmente espero que vocês tenham entendido essa porque demorei dois dias para bolar) e dá vida não apenas a entidade mitológicas como também amplia o enredo de pouco em pouco.

O melhor é que, apesar do tom sobrenatural que o enredo pode tomar, Riordan criou Deuses com características humanas e muitas vezes engraçadas o que pode tornar a leitura muito mais agradável do que ler sobre seres perfeitos o tempo todo. O livro tem ação o suficiente para te mandar interessado e curioso o tempo todo e vai revelando aos poucos a trama total.

Sadie e Carter são obrigados a amadurecer mais rápido e a tomarem conta um do outro, desenvolvendo um senso de família que eles não tinham antes. A forma como isso é descrito por Riordan pode não ser original mas é inteligente e se adapta bem à trama.

A minha única ressalva é um erro bem crasso: “Com seu último encantamento, me prendeu-me à serpente.” Tenso. Mas foi o único que encontrei no livro todo.

Fora isso, a Intrínseca fez um ótimo trabalho com a edição mantendo a capa original e a qualidade é indiscutível. Se você está tentando estimular um jovem (vamos dizer…de uns 12 anos) a ler e quer uma opção além de Harry Potter, recomendo checar os livros de Riordan. Eles tratam de assuntos que possivelmente eles estudarão na escola (mitologia grega, história egípcia e etc) e pode estimular a curiosidade por essas civilizações. Mas além disso, se você procura um livro divertido para ler depois de Jane Austen ou algum russo intenso, os livros de Riordan também são uma boa pedida.

5 às 5as – Livros de guerra (não – ficção – 2a Guerra Mundial)

Livros de guerra! Sim…5 livros de não – ficção sobre a 2a Guerra Mundial que super recomendo para os interessados no assunto.

E os vencedores são:

1 – Noite – Ellie Wiesel: um dos relatos mais sinceros, diretos e pesados que você poderia ler sobre a 2a Guerra Mundial. É um livro curto que te chama a refletir sobre a vida e sobre o que aconteceu nos campos de concentração, mas mais do que isso, é um livro que não te deixa escolha a não ser tomar uma posição. O peso da escrita de Wiesel é exato para que qualquer leitor entenda o impacto físico e mental que um campo de concentração teve no um menino que estava cogitando seguir a carreria religiosa mas que se viu perdido no meio de tanta maldade.

2 – Futebol e guerra – Andy Dougan: esse livro conta a história do Dínamo de Kiev – um dos times europeus mais fortes na época em que a Segunda Guerra Mundial começou. A Ucrânia foi invadida pelos nazistas e o Luftwaffe (time da força aérea alemã) desafiou os jogadores que restaram do Dínamo para uma partida – onde claro, todas as regras estavam a favor dos nazistas.  Essa foi literalmente uma partida de futebol pela vida. Apesar das injustiças cometidas em campo e das consequências brutais, os jogadores do Dínamo se recusaram a entregar o jogo criando o primeiro exemplo ucraniano de resistência aos alemães. É uma leitura emocionante.

3 – O diário de Anne Frank – Anne Frank: como eu acho que todo mundo já leu esse livro, não vou me estender muito sobre ele. Esse foi uma leitura obrigatória na escola e foi o primeiro relato que li da 2a Guerra Mundial. O fato de ser escrito por uma menina que tinha mais ou menos a minha idade na época, foi algo bem forte e acho de verdade que despertou meu interesse maluco por relatos de guerras. Vale muito a pena incentivar seu filho(a) a ler esse livro.

4 – O salto para a vida – Célia Valente: outro livro que li na escola. A história de Lea Mamber – judia polonesa que reside no Brasil (se ainda estiver viva – realmente não sei) – que conseguiu fugir de um dos trens nazistas. Léa se tornou uma mulher de mil faces depois de fugir, chegou a assumir uma identidade alemã e viver entre o povo que acabara de assassinar sua família. É um bom livro também para jovens começarem a entender o escopo de uma guerra como essa. Leitura rápida e objetiva mas ainda assim triste.

5 – Cinco dias em Londres – John Lukacs: esse é um livro um pouco diferente dos outros dessa lista. Apesar de muitos acreditarem que a vitória contra o nazismo se deu apenas com a entrada dos EUA na Guerra, esse livro mostra que o primeiro ministro inglês – Churchill – travou uma batalha em seu próprio gabinete de guerra se recusando a assinar um tratado de paz com os nazistas em 1940. Essa decisão alterou profundamente o caminho que a guerra levou e colocou a Inglaterra no plano de frente na luta contra os nazistas. É uma leitura um pouco mais documental mas serve para entendermos como a guerra é ‘decidida’ nos âmbitos governamentais.

Boa leitura! =)

Resenha – O Capote

Escrito em 1842, o Capote é um conto curto e direto de Gogol – escritor russo conhecido por seu humor negro e contos que misturam fantasia com realismo.

O conto é a história de Akaki Akakiévitch – um homem resignando a sua vidinha simples, sem grandes talentos, de personalidade vazia e sem grandes aspirações. Trabalhava para um ministério russo copiando documentos. Morava sozinho, não tinha amigos, era motivo de chacota de seus companheiros de profissão e pobre de dar dó.

Com o frio de Petesburgo, Akaki precisava constantemente remendar seu velho casaco – apelidado de capote. Porém, de tão velho e puído, o capote não poderia ser remendado dessa vez. Com suas economias e se privando de quase tudo (incluindo jantar) Akaki conseguiu juntar o dinheiro necessário para outro capote – lindo e na moda. Motivo de orgulho e congratulações de seus amigos.

Gogol nos apresenta em 50 páginas uma Rússia burocrática, superficial e hipócrita. Tudo isso com um senso de humor ácido (meu preferido) e certeiro. A história dá reviravoltas interessantes e fantasiosas. É um conto rápido para apresentar um autor que muitos consideram o fundador da literatura russa moderna.

Extremamente recomendado. Leia na sala de espera do  médico que foi viajar no feriado e te deixou esperando enquanto o vôo dele estava atrasado. Pelo menos vai manter seu senso de humor vivo – e negro.

Resenha – Religião para ateus

Tratar de religião ou a ausência dela é complicado. O assunto é espinhoso. Quem acredita, defende suas crenças com unhas e dentes e quem não acredita, desconsidera tudo o que uma religião apresenta. Alain de Botton tenta fugir desses dois tipos de conclusão e parte para o debate nos pedindo a mente aberta. Não há outra maneira de falar seriamente sobre o assunto e muito menos debater sobre o tema.

“As religiões merecem nossa atenção pela sua absoluta ambição conceitual, por mudarem o mundo de uma maneira que poucas instituições seculares fizeram.”

Alain é filho de judeus que se tornaram ateus tratando a religião com desconfiança e ensinando seus filhos que religião é igual a acreditar em Papai Noel – por um tempo é razoável mas levar isso para a vida faz você parecer ridículo. Seu pai era um bancário que morreu e deixou um fundo de USD 300 milhões para ele e sua irmã. Outra questão interessante é que Alain se auto intitula um autor de auto-ajuda – gênero renegado por muitos leitores e autores.

Mas vamos em frente (tentando com todas as forças não pensar em Paulo Coelho).

O livro é dividido em 10 capítulos abordando o tema sob diversos pontos de vista: sabedoria sem doutrina, comunidade, gentileza, educação, ternura, pessimismo, perspectiva, arte, arquitetura e instituições.

Quanto a comunidade, por exemplo, Alain explica que hoje temos cidades monumentais com tanta gente que o senso de comunidade é estendido – talvez – ao seu vizinho. E só. A verdade é que o senso de comunidade está sumindo e cultivamos uma cultura cada vez mais “cada um por si”. Comunidade, no entanto, é a base de qualquer religião. Quando você participa de uma missa, deve sentir que está ali com um grupo de pessoas iguais a você. Ali, não importa seu cargo, a promoção que você não teve, se você é estéril, impotente, se você tem um casamento infeliz, se seus filhos são horríveis e etc. Nada disso importa porque a oração é a mesma e o senso de comunidade se instala naturalmente.

No capítulo sobre educação, Alain nos explica que há muito a se aprender com as escrituras sagradas. Não apenas sobre História, mas também, na maneira como a religião ensina seus discípulos. A verdade é que aquele que lê a Biblia a conhece quase de trás para frente, memorizando passagens e relendo partes importantes quase sempre. Mas para os não-adoradores, a educação e leitura funcionam de uma maneira diferente. “Nós nos sentimos culpados por tudo o que ainda não lemos, mas deixamos de notar que já lemos muito mais do que Agostinho e Dante, ignorando, desse modo, que o problema está sem dúvida em nossa maneira de assimilar, não na extensão de nosso consumo.”

O capítulo sobre ternura é um tédio só. Debater o apego das pessoas à religião é fácil. Na verdade, a maioria das pessoas se apega à religião por causa de um desespero – às vezes sutil, às vezes escancarado. Então recomendo nem dar muita atenção a esse capítulo que tem um tom auto-ajuda além do normal – e não do jeito bom. Além disso, Alain começa o capítulo com uma “cena” (um homem senta em uma Igreja e bla bla bla) o que é muito diferente do resto do livro.

O livro é permeado de fotos fazendo com que a leitura de um tema pesado se torne um pouco mais leve – apesar de uma foto da Madonna e do Guy Ritchie aparecer também (totalmente desnecessário). O que me fez pensar o quão pop Alain quer ser. (A Revista Época da semana do dia 03 de Setembro – que tem Alain na capa – ajuda a responder um pouco isso: EXTREMAMENTE POP).

Mas vamos em frente novamente.

Acredito que os dois melhores capítulos são Pessimismo e Perspectiva. A verdade é que meu interesse por religiões sempre foi entender como ela funciona – algo que nunca consegui entender de verdade. A questão do pessimismo envolve muito do que cheguei, inclusive, a estudar em ciências políticas – veja só. Um povo que é otimista em sua relação com o Ser Supremo, tende a esperar que coisas boas aconteçam. Tende a fazer o mínimo possível pois há uma recompensa em algum lugar – é o idoso que não toma remédio porque Deus cura, são os pais que não usam contraceptivos porque “seja o que Deus quiser”. Esse otimisto religioso acaba impactando diretamente a cultura e, por fim, a economia.

Não vou entrar a fundo nisso mas há historiadores que acreditam que o resultado econômico das colônias das Américas são desnivelados por um motivo diferente daquele que você aprende na escola. Você deve ter aprendido – quando ainda não podia argumentar – que Estados Unidos e Canadá prosperaram porque foram colônias de povoamento. Os colonos tinham que desenvolver a terra para viver ali. E as colônias do México para baixo, foram colônias de exploração – onde os colonos não se importavam muito com a estrutura em si. Mas isso não é bem verdade. Em essência, a maior diferença entre esses colônias era a religião – porque muitos nativos portugueses e espanhóis vieram morar nas colônias. Os protestantes acreditavam que eles tinham que fazer sua vida dar certo, Deus não dá nada de graça e recompensa os que trabalham. Os católicos, por sua vez, cobravam pelo céu, diziam que era pecado guardar dinheiro e desejar mais do que de tem (avareza). Então aqui está o impacto direto da religião no desenvolvimento econômico.

E perspectiva, nada mais é do que entender que Deus existe para cada um de um jeito diferente. Simples assim. Pode não ser o mesmo, com os mesmos poderes mas com certeza está ali de alguma forma. (O meu é mais parecido com o Batman , por exemplo).

Os capítulos sobre arte e arquitetura são os mais similares a um livro de auto-ajuda do que o resto. Alain aborda a importância da beleza ao nosso redor para nos tornar pessoas melhores e muitos outros mimimis que não vou repetir ou comentar.

A questão central do livro não é SE Deus existe, e sim – para os ateus e aqueles em dúvida – POR QUE o homem sente a necessidade de inventá-lo e reinventá-lo o tempo todo?

O livro é interesse para aqueles que gostam de debater e pesquisar o assunto. A estrutura de capítulos temáticos facilita a leitura e a ordem dos temas flui nauturalmente. Acho que é uma leitura muito válida para quem tem interesse nos mistérios da fé mas ainda não tem certeza de qual caminho seguir. Não espere respostas prontas. O livro talvez aumente suas dúvidas, mas se isso já fizer com que você pense em religião de uma maneira mais aberta, já valeu a leitura.