Resenha – A Privataria Tucana

Decidida a provar para o meu pai que nenhum político é livre de corrupção, comprei o Privataria Tucana de presente para ele. Em uma conversa, alguns dias antes, ele tinha mencionado ue pelo menos nunca tinha ouvido nada sobre o Serra para questionar se ele era corrupto ou não. Mas isso, claro, se explica na parceria que o partido tucano tem com alguns meios de comunicação de São Paulo que publicam mas não questionam e nem vão à fundo na investigação quando se trata de ataques ao PSDB.

Obviamente, não é porque o livro acusa Serra de participar de esquemas de lavagem de dinheiro que isso se torna automaticamente verdade. No entanto, o livro traz cópias de documentos oficiais que achei interessante envolver nesse debate com o meu pai. Por fim, ele leu o livro e decidiu que não valia a pena votar em ninguém esse ano. Está analisando ainda o que fazer, mas a semente da dúvida sobre a idoneidade de Serra já foi plantada.

O autor – Amaury Ribeiro Jr. – é jornalista e já trabalhou em diversas publicações pelo Brasil. Escreveu alguns outros livros sem chamar muita atenção. O livro conta as tramóias envolvendo José Serra, familiares e amigos na criação de diversas empresas localizadas em paraísos fiscais com o intuito de lavar dinheiro. A temática é simples e a proposta é clara.

A minha intenção ao ler o livro era entender como esse processo de lavagem de dinheiro funcionava. Como uma pessoa sem formação em economia ou corrpção, esperava que o livro elucidasse as questões pertinentes ao processo. Não fui muito feliz. Entendi, sim, como funcionam as empresas de fachada e os paraísos fiscais. Mas alguns conceitos continuam sem explicação para mim (como internação de dinheiro).

Além disso, o livro é repleto de ataques diretos e comentários fora do lugar. Claro, eu já imaginava que o tom de acusação estaria presente mas o que parece ter escapado ao autor (e ao editor) é que, ao acrescentar esses ataques no texto ele entrega à oposição a munição para descaracterizar o livro. Ou seja, o que os tucanos estão dizendo é que o conteúdo de Privataria Tucana não passa de “intriga da oposição”.  O livro definitivamente não se trata apenas de uma análise documental. E essa é sua maior fraqueza.

Os documentos apresentados são interessantes e mostram o que todo mundo já sabia/suspeitava – Serra operou (passado e talvez presente) uma verdadeira lavanderia desde seus anos como Ministro da Saúde no Governo FHC. Alías, essa é uma outra questão interessante. O autor faz questão de mencionar Serra e FHC juntos quase sempre. Como se as provas contra Serra incriminassem FHC por tabela, apesar de não ter nenhuma prova concreta contra o ex-Presidente.

Além disso, a organização do conteúdo é confusa. Os anos estão misturados e, muitas vezes, o autor foca em um assunto e depois retorna ao mesmo tema em um capítulo à frente sob outro ângulo.  É uma forma de escrever típica de jornalistas de revistas e jornais que não possuem muito espaço para elaborar o texto então focam nas provas e comentários específicos. A diferença é que em uma revista ou em um jornal, não há espaço para o leitor se confundir e também, no livro, eles podem ser mais dinâmicos nas explicações.

Em linhas gerais, acredito que seja uma leitura válida. Primeiro, claro, para derrubar a idéia de idoneidade política do PSDB e, segundo, para exercer um julgamento próprio. Política, muitas vezes, envolve paixão e opiniões fortes e já pré-estabelecidas. Então, com uma mente aberta, é possível fazer algumas perguntas que podem derrubar opiniões ultrapassadas.