Resenha – Cartas na rua

Histórias de um carteiro. É, eu sei o que você está pensando: o que poderia ser tão interessante na vida de um carteiro? Bom, de acordo com o Bukowski, um carteiro que bebe a noite inteira, trabalha a maior parte do tempo de ressaca, que odeia cachorros (e cada vez que um o ataca ele começa a gritar “Assassinato”), que odeia seu chefe e não está muito preocupado em fazer seu trabalho direito, tem MUITA história para contar.

Hank Chinaski parece ser um daqueles perdidos na vida. Aos 30 e poucos anos, trabalha como carteiro mas não vê isso como profissão. É só algo que ele faz. Depois de 3 anos, quando a estabilidade estaria começando, ele larga o emprego e decide viver de apostas em corridas de cavalo. Conhece Joyce – uma guria de 23 anos (podre de rica mas ele ainda não sabia disso) – que o acompanha nas corridas e logo exige que eles se casem.

Sem perspectiva nenhuma na vida, Hank concorda e eles se mudam para a “última cidade que poderia sofrer um ataque terrorista nos EUA”. Pequena, daquelas que todo mundo sabe da vida de todo mundo, todos os habitantes da cidade sabiam da riqueza da família de Joyce e o invejam e o odeiam ao mesmo tempo. E Hank sabe disso. Aos poucos, a vida ridícula que ele vivia na cidade com sua jovem esposa ninfomaníaca perde o encanto e eles decidem voltar para a cidade grande. Joyce exige que Hank encontre um emprego “para provar para seus pais e avós que eles podem se virar sozinhos” mas não sem antes pedir que o avô pague o novo apartamento e dê um carro para eles.

Hank encontra um emprego que “não cheira a trabalho”, mas logo volta aos Correios. Dessa vez como atendente. A vida dele segue o mesmo ritmo maçante parece que eternamente. Ele não parece se interessar por nada além de um copo de álcool e não leva quase nada na vida a sério. Ele acaba se divorciando de Joyce (ela pede o divórcio e ele nem pensa duas vezes) e volta para a “vida louca” de bebida, álcool, mulheres e corridas de cavalo. E trabalho de vez em quando.

Com mais de 30 anos, esse estilo e vida é triste e deprimente. Mas mesmo assim, não deixa de ser engraçado com comentários irônicos de Hank. Dizem que Hank – que aparece em outros dois livros de Bukowski – é um alter ego do autor que tinha problemas sérios com a bebida. Hank bebe muito. E não só isso, Bukowski trabalhou como carteiro temporário no começo dos anos 50 e odiava mais seu trabalho a cada dia.

Então podemos dizer que Cartas na Rua é quase uma biografia. Bukowski escreve de maneira direta e hilária. Ler o livro é sentir que você está na mesa de bar com ele enquanto ele te conta suas peripécias.