Terça De Quadrinhos – A Metamorfose

Li dois livros do Franz Kafka: A Metamorfose e O Processo. Tenho a dizer, a priori, que o escritor tcheco, nesses dois livros, cria situações extremamente desfavoráveis ao protagonista sem uma prévia explicação ou o destrói sem motivo aparente… Pronto, isso é só um aperitivo sobre o que vem a seguir…vamos ao que interessa.

A Metamorfose é um conto que pode indicar várias interpretações subjetivas aos leitores mais interessados: apresenta facetas da humanidade que muitos não aceitam ou fingem não existir, ao encobrir por debaixo do tapete. Kafka trabalha assuntos como: rejeição, apatia, desrespeito, preguiça, de forma muito interessante, pois joga na cara que muitos de nós podemos ser levados por sentimentos de horror e descaso “condicionados”, e que nos desculpamos tentando nos convencer que possuímos motivos para tal, sendo que, na verdade, tal condicionamento é somente uma variação do que pode acontecer no dia a dia, naturalmente. Deixe-me explicar:

Algumas pessoas costumam dizer que nada na vida é capaz de mudar seus sentimentos por aquelas que amam, que em qualquer situação estará lado a lado dos entes queridos e amigos verdadeiros. O que o homem, muitas vezes, esquece, é que tudo que, cotidianamente, ocorre em nossas vidas, nos ajuda a gostar mais, gostar menos, nos aproximar mais, nos faz odiar, nos faz amar tudo que nos cerca. Não podemos estar presos a conceitos convictos de que tudo é imutável, principalmente quando se trata de sentimentos, pois sentimentos SÃO dependentes de nosso amor, ardor, horror, torpor.

Da 1ª vez em que li A Metamorfose, fui sendo levado pelo entendimento de que o personagem se transforma em uma barata (no livro NÃO indica qual inseto é, mas, em algumas versões, como nessa HQ, e como na música dos “Heróis Da Resistência”, a barata é referenciada) e isso indiciava que ele era uma personificação de uma pessoa preguiçosa, que rasteja e que leva uma vida sem compromisso ou desejo algum, mas nas seguidas vezes em que reli, pude perceber outras relações e entender de formas diferentes o que o texto pregava, e o lance da prioridade familiar para outros assuntos é uma delas.

Essa Graphic Novel ajuda muito ao leitor a compreender essa análise principalmente, pois as feições de cada pessoa, são muito expressivas. Seja com a família (a irmã com o olhar de dó, a mãe com o olhar de perda e o pai com o olhar de repulsa), que dia a dia, mês a mês convive com tal situação horrenda, seja com os inquilinos que são todos iguais e que são indiferentes com o sofrimento alheio e só se interessam por suas vidas e seja com a empregada que parece uma carrasca mais interessada em fazer o trabalho que ninguém mais tem coragem, mas que todos querem, que é eliminar de vez essa praga que atrapalha e empaca a ocorrência da vida.

Kafka cria um enredo bizarro e o ilustrador Peter Kuper personifica o aspecto sombrio sobre algo que pode muito bem acontecer com qualquer um, já que o homem é um bicho que vive de acordo com o seu interesse. Mesmo pessoas íntimas podem perder o interesse pelo próximo, quanto esse incomoda mais do que cativa (e não estou sendo pessimista, mas sim realista). Nós precisamos de demonstrações de afeto, responsabilidade, interatividade, importância, vontade, para vivermos da melhor maneira possível junto de outras pessoas. Uma família não existe sem certa compatibilidade ou empenho.

A vida para ser vivida de forma, no mínimo boa, precisa ser apreciada com apetite.

Resenha – Coisas frágeis vol. 1

“Coisas frágeis” é um livro de contos de Neil Gaiman – minha primeira experiência com o autor. Já ouvi coisas ótimas dele pertinentes a vários de seus livros (principalmente “Deuses Americanos” que tentei comprar na Bienal mas não consegui. Se alguém quiser me dar de presente eu, gentilmente, aceito).

Para conhecer um autor novo eu gosto de começar por um livro de contos – na verdade, tive uma professora que me disse que essa era a mehor maneira de saber se eu me daria bem com o estilo de escrita de um autor. Então “Coisas frágeis” veio no momento certo. Esse é o primeiro volume e conta com 9 contos de Gaiman. Na introdução, temos uma breve explicação de como o conto foi escrito – que eu só li depois que acabava de ler o conto em si para não influenciar minha interpretação.

No terceiro conto já dá para saber que Neil Gaiman é um contista diferenciado. Ele passa de um assunto a outro como quem está sempre pensando em tudo e com uma boa capacidade para falar sobre qualquer coisa.

O segundo conto, “A vez de Outubro”, mistura fantasia com uma realidade cruel. Quando eu era criança eu pensava como seria se objetos e coisas intangíveis tivessem vida e personalidade e tudo mais. Gaiman faz com que todos os meses se sentem à mesa para contar histórias. É delicado e pesado ao mesmo tempo (dado o teor da história que Outubro conta).

O conto “Pássaro do Sol” foi abandonado. Longo e chato.

É inegável que Gaiman é um escritor criativo e um contista cuidadoso. Ainda assim, não senti aquela empolgação de ler mais do autor depois desse livro. Talvez porque eu não seja uma grande entusiasta de contos. Talvez porque eu precise de mais informações para decidir.

Terça De Quadrinhos – Calvin & Haroldo

Eis uma HQ que nos inicia em um mundo observado por uma criança mega fantasiosa e que possui um tigre de pelúcia como melhor amigo e companheiro. Nada mais do que normal nesse contexto, mas o mais legal aqui é que, quando ninguém está vendo, o garoto imagina o tigre de verdade e esse não é só inteligente, como falante e representa a parte racional das tirinhas, já que o nosso protagonista humano representa a parte passional. Ok que tem lá seus momentos racionais, mas com enormes pitadas sarcásticas e de personalidade forte.

Calvin é uma criança moralmente normal, com suas absurdas convicções infantis, fantasias criativamente exageradas e discurso éticamente rebelde. Haroldo é o tigre com participações fantásticamente filosóficas, discurso socialmente pontual e características assombrosamente humanas. Esses são os personagens principais dessa HQ que engloba tirinhas de cunho socio-políticas-culturais e que poderiam ser muito bem utilizadas em sala de aula ou mesmo no meio de um contexto familiar, onde o pai compra para o filho, para que esse seja apresentado a uma crítica cínica sobre como é a vida de uma criança em idade inicial escolar. Aparecem também o pai e a mãe e a coleguinha Susie

Bill Watterson é o criador dessa tirinha que inicialmente era publicada em jornais e que depois tomou o gosto popular pelo mundo inteiro, sendo publicado no Brasil pelo jornal “Estado De São Paulo”. Calvin & Haroldo teve seu início em 1985 e parou de ser publicada pelo autor no ano de 1995 e durante esses 10 anos, as tiradas geniais de Haroldo e o humor ácido de Calvin apresentaram um mundo envolvente que uma criança de 6 anos é capaz de conceber quando não há limites para sua imaginação, seus questionamentos e interpretações do que é o mundo a sua volta.

“Tem Alguma Coisa Babando Embaixo Da Cama” é o 3º volume de álbuns que englobam as tirinhas da dupla e possui histórias que se desenvolvem em uma página até. Os quadrinhos seguem, de acordo com ações ou repercussões de pensamentos de Calvin, um enredo que pode nos fazer refletir sobre muitas coisas. De forma algum considero tais quadrinhos como um entretenimento infantil, ele é bem formatado para adultos também. Vale como dica de leitura tranquilamente.