Resenha – Religião para ateus

Tratar de religião ou a ausência dela é complicado. O assunto é espinhoso. Quem acredita, defende suas crenças com unhas e dentes e quem não acredita, desconsidera tudo o que uma religião apresenta. Alain de Botton tenta fugir desses dois tipos de conclusão e parte para o debate nos pedindo a mente aberta. Não há outra maneira de falar seriamente sobre o assunto e muito menos debater sobre o tema.

“As religiões merecem nossa atenção pela sua absoluta ambição conceitual, por mudarem o mundo de uma maneira que poucas instituições seculares fizeram.”

Alain é filho de judeus que se tornaram ateus tratando a religião com desconfiança e ensinando seus filhos que religião é igual a acreditar em Papai Noel – por um tempo é razoável mas levar isso para a vida faz você parecer ridículo. Seu pai era um bancário que morreu e deixou um fundo de USD 300 milhões para ele e sua irmã. Outra questão interessante é que Alain se auto intitula um autor de auto-ajuda – gênero renegado por muitos leitores e autores.

Mas vamos em frente (tentando com todas as forças não pensar em Paulo Coelho).

O livro é dividido em 10 capítulos abordando o tema sob diversos pontos de vista: sabedoria sem doutrina, comunidade, gentileza, educação, ternura, pessimismo, perspectiva, arte, arquitetura e instituições.

Quanto a comunidade, por exemplo, Alain explica que hoje temos cidades monumentais com tanta gente que o senso de comunidade é estendido – talvez – ao seu vizinho. E só. A verdade é que o senso de comunidade está sumindo e cultivamos uma cultura cada vez mais “cada um por si”. Comunidade, no entanto, é a base de qualquer religião. Quando você participa de uma missa, deve sentir que está ali com um grupo de pessoas iguais a você. Ali, não importa seu cargo, a promoção que você não teve, se você é estéril, impotente, se você tem um casamento infeliz, se seus filhos são horríveis e etc. Nada disso importa porque a oração é a mesma e o senso de comunidade se instala naturalmente.

No capítulo sobre educação, Alain nos explica que há muito a se aprender com as escrituras sagradas. Não apenas sobre História, mas também, na maneira como a religião ensina seus discípulos. A verdade é que aquele que lê a Biblia a conhece quase de trás para frente, memorizando passagens e relendo partes importantes quase sempre. Mas para os não-adoradores, a educação e leitura funcionam de uma maneira diferente. “Nós nos sentimos culpados por tudo o que ainda não lemos, mas deixamos de notar que já lemos muito mais do que Agostinho e Dante, ignorando, desse modo, que o problema está sem dúvida em nossa maneira de assimilar, não na extensão de nosso consumo.”

O capítulo sobre ternura é um tédio só. Debater o apego das pessoas à religião é fácil. Na verdade, a maioria das pessoas se apega à religião por causa de um desespero – às vezes sutil, às vezes escancarado. Então recomendo nem dar muita atenção a esse capítulo que tem um tom auto-ajuda além do normal – e não do jeito bom. Além disso, Alain começa o capítulo com uma “cena” (um homem senta em uma Igreja e bla bla bla) o que é muito diferente do resto do livro.

O livro é permeado de fotos fazendo com que a leitura de um tema pesado se torne um pouco mais leve – apesar de uma foto da Madonna e do Guy Ritchie aparecer também (totalmente desnecessário). O que me fez pensar o quão pop Alain quer ser. (A Revista Época da semana do dia 03 de Setembro – que tem Alain na capa – ajuda a responder um pouco isso: EXTREMAMENTE POP).

Mas vamos em frente novamente.

Acredito que os dois melhores capítulos são Pessimismo e Perspectiva. A verdade é que meu interesse por religiões sempre foi entender como ela funciona – algo que nunca consegui entender de verdade. A questão do pessimismo envolve muito do que cheguei, inclusive, a estudar em ciências políticas – veja só. Um povo que é otimista em sua relação com o Ser Supremo, tende a esperar que coisas boas aconteçam. Tende a fazer o mínimo possível pois há uma recompensa em algum lugar – é o idoso que não toma remédio porque Deus cura, são os pais que não usam contraceptivos porque “seja o que Deus quiser”. Esse otimisto religioso acaba impactando diretamente a cultura e, por fim, a economia.

Não vou entrar a fundo nisso mas há historiadores que acreditam que o resultado econômico das colônias das Américas são desnivelados por um motivo diferente daquele que você aprende na escola. Você deve ter aprendido – quando ainda não podia argumentar – que Estados Unidos e Canadá prosperaram porque foram colônias de povoamento. Os colonos tinham que desenvolver a terra para viver ali. E as colônias do México para baixo, foram colônias de exploração – onde os colonos não se importavam muito com a estrutura em si. Mas isso não é bem verdade. Em essência, a maior diferença entre esses colônias era a religião – porque muitos nativos portugueses e espanhóis vieram morar nas colônias. Os protestantes acreditavam que eles tinham que fazer sua vida dar certo, Deus não dá nada de graça e recompensa os que trabalham. Os católicos, por sua vez, cobravam pelo céu, diziam que era pecado guardar dinheiro e desejar mais do que de tem (avareza). Então aqui está o impacto direto da religião no desenvolvimento econômico.

E perspectiva, nada mais é do que entender que Deus existe para cada um de um jeito diferente. Simples assim. Pode não ser o mesmo, com os mesmos poderes mas com certeza está ali de alguma forma. (O meu é mais parecido com o Batman , por exemplo).

Os capítulos sobre arte e arquitetura são os mais similares a um livro de auto-ajuda do que o resto. Alain aborda a importância da beleza ao nosso redor para nos tornar pessoas melhores e muitos outros mimimis que não vou repetir ou comentar.

A questão central do livro não é SE Deus existe, e sim – para os ateus e aqueles em dúvida – POR QUE o homem sente a necessidade de inventá-lo e reinventá-lo o tempo todo?

O livro é interesse para aqueles que gostam de debater e pesquisar o assunto. A estrutura de capítulos temáticos facilita a leitura e a ordem dos temas flui nauturalmente. Acho que é uma leitura muito válida para quem tem interesse nos mistérios da fé mas ainda não tem certeza de qual caminho seguir. Não espere respostas prontas. O livro talvez aumente suas dúvidas, mas se isso já fizer com que você pense em religião de uma maneira mais aberta, já valeu a leitura.

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Resenha – O Melhor Do Mundo

Li esse livro quando trabalhei, por um tempo, com desenvolvimento humano em uma empresa e estava muito interessado em estruturar palestras que pudessem auxiliar no crescimento de cada colaborador. Seth Godin foi um leitura efetivamente procurada e bem aproveitada. Hoje penso em ler mais sobre tal autor e indico muito para quem se interessa pelo assunto.

O livro não é de auto-ajuda, minha opinião, claro, e isso proporciona um envolvimento mais abrangente e sustentável perante a leitura. O sub título foi algo que me influenciou mais ainda a ler e prestar atenção no que estava escrito: “Saiba quando insistir e quando desistir“. Um livro curto e super direto ao que é importante. Enquanto muitas pessoas ficam perdendo tempo com algo que não tem como ir adiante ou evoluir, Seth Godin defende que desistir não é um opção ruim, e sim a opção mais do que acertada.

Muito sobre o que se fala em ser o melhor do mundo, em ser o nº 1, é superestimado, pois nem todos podem chegar a tal posição, nem todos conseguem vencer, nem todos fazem aquilo em que são melhores. Eu por exemplo não poderia ser o melhor médico do mundo, pois NÃO tenho aptidão no que se diz respeito à biologia, então seguir com algo em que eu só perderia tempo, é errado e o certo seria MESMO desistir.

Todo o discurso do livro gira em torno desse conceito. Em decidir quando é o momento de seguir em frente e quando é o momento de deixar de lado. Isso não é uma tarefa fácil, muito pelo contrário, perceber quando pode fazer mais e quando é hora de jogar a toalha, é exatamente o que faz a diferença e o autor apresenta 3 momentos que nos indica isso:

  • O VÃO: “…é a longa e cansativa caminhada entre o início e a maestria…é a combinação de burocracia e trabalho árduo…é a diferença entre conhecimentos básicos dos ‘iniciantes’ e a técnica mais apurada dos ‘especialistas’…”. Godin defende que o que vale ser feito pode ser controlado pelo Vão e que as pessoas bem sucedidas se lançam sobre ele;
  • O BECO SEM SAÍDA: “O beco sem saída toma seu tempo, impedindo outras oportunidades“. Aqui é onde você trabalha e nada acontece;
  • O ABISMO: “é uma situação em que não se pode desistir até que se caia“.

O Beco sem saída e o Abismo são as curvas que levam ao fracasso…O Vão é onde o sucesso acontece“. Eis a ideia geral do livro, é exatamente sobre isso que se trata todo contexto defendido por Godin ao escreve-lo. Aqui são apresentados exemplos de pessoas que se dedicam e também, e é onde o autor me convenceu mais ainda a lê-lo, onde é rechaçada a equivocada defesa de “nunca desista”.

Os melhores do mundo sentem dor, perdem, são derrotados, mas seguem em frente, se não for desse jeito, será de outro. Os melhores do mundo persistem, descobrem seu “Vão” e o consome. Os melhores do mundo encaram o “Vão” como um aliado, uma preparação para alcançar o objetivo final e assim conquistar a glória. Os melhores do mundo desistem daquilo que os “empaca”, percebem Os Becos sem Saída e O Abismo e DESISTEM.

Seth Godin dá ainda algumas dicas preciosas sobre tipos de Vãos, apontando quando é valioso SEGUIR EM FRENTE e dedica um capítulo exclusivo ao que se trata de DESISTIR.

Costumo dizer que esse livro abre os olhos para aqueles que não possuem preconceitos sobre tudo que possa ajudar a evoluir, sendo aquilo que a priori cause espanto e/ou mesmo aquilo que cause empolgação. Fica a dica.

 

Resenha – O Monge Que Vendeu Sua Ferrari

O Oriente, as intenções nada pragmáticas pelas várias opções que é nos concedida, mas que, quando há escolha, a vida tem que ser mesmo mudada e orientações para isso não faltam, cabe a você decidir o que seguir.

Sou um camarada que agrada muito da filosofia budista e de algumas outras filosofias comportamentais.

O Monge que vendeu sua Ferrari envereda exatamente sobre decisões, escolhas e caminhos a seguir. O livro versa sobre uma mudança radical de vida. Quando tudo parece ter findado ou começado a encaminhar para o fundo do poço, sempre existe uma mudança, ou, na verdade, a vida sempre EXIGE uma mudança.

A história é sobre Julian Mantle, um advogado extremamente bem sucedido, ambicioso e que trabalhava muito e o muito aqui é para demonstrar exagero mesmo. Em uma audiência, com o tribunal lotado, ele sofre um ataque cardíaco, resultado de uma vida desregrada, sem limites alimentares, psicológicos ou materiais. A partir desse acontecimento trágico, a fugacidade e fragilidade do que é a vida passa a ter novos significados e se tornar presente em sua vida. Algo dentro de seu ser o questiona sobre o que já fez, o que tem feito e o que gostaria de fazer.

O livro é narrado por John, um pupilo e estimado amigo de Julian. Todo o enredo nos é apresentado por esse outro personagem, que recebe, após 3 anos, a visita daquele que um dia, quase morre na sua frente. O obstinado advogado que teve sua antiga vida repentinamente destruída por excessos, aparece à frente do amigo como uma nova pessoa, completamente diferente e sem vestígios daquele passado desmedido. Um ser humano que aprendeu que não vivia, simplesmente existia.

Julian convida John a escutar uma história diferenciada, uma fábula cheia de conhecimento e experiências de como alguém que já teve tudo, passa a não ter nada e entende que sua vida evoluiu por causa disso. Uma história onde “há males que vem para muito bem”, onde uma pessoa vende tudo que tem – até a Ferrari – e viaja para conhecer uma cultura completamente contrastante com a que conviveu a vida inteira. Uma história de um homem que conheceu o “ser” no lugar do “ter”. Enfim, uma historia de libertação.

A Índia aparece como um país estranho e encantador, o cenário ideal para uma narrativa de crescimento. Julian vaga pelo país em busca de uma comunidade de monges que vivem no alto do Himalaia, mas que não são fáceis de serem encontrados. Uma jornada de autoconhecimento e aperfeiçoamento se inicia, vai desde a procura, passa pelo encontro e evolui com a despedida. Algumas técnicas preferidas no livro são:

  • O Coração da rosa – disciplinando sua mente a ficar atento somente à uma rosa;
  • O pensamento em oposição – substituindo pensamento indesejável por algum edificante;
  • O segredo do lago – visualizar, em um lago tranquilo, a realização de sonhos;
  • Visão clara de um objetivo – tendo uma imagem mental clara do que deseja;
  • Pressão positiva para realização – se comprometendo com o que quer, se mantendo inspirado;
  • Não definir meta sem cronograma – dê prazo para o que deseja;
  • Regra dos 21 dias – para cristalizar um novo comportamento, execute uma atividade por 21 dias seguidos;
  • Paixão – o combustível mais potente para alcançar os sonhos.

Existem mais ao longo do livro e todas parecem muito fáceis de conduzir. Algumas tentei fazer, algumas tive resultado, assumo não ter seguido em frente, mas digo que quero tentar novamente. Contudo, é possível concluir algumas coisas: Tudo na vida acontece por um motivo, tudo que nos rodeia, que nos é apresentado, tem um propósito, cabe a nós entendermos isso e aprendermos a acolher as glórias e derrotas.

Mas tudo isso só faz sentido e pode nos fazer mudar, quando fazemos uma escolha: esvaziamos nossa xícara.