Terça De Quadrinhos – Pequenos Milagres

Will Eisner é considerado um cara fenomenal dentro da 9ª Arte, um gênio, pois foi um dos mais consagrados artistas do meio que conseguiu unir quadrinhos com histórias que passava longe de conceitos infantis. Eisner (morto em 2005) foi um premiado quadrinista que trouxe para o público adulto, todo um universo de desenhos e que incentivou aos marmanjos a cultuar essa maravilhosa arte. Alan Moore, criador de Watchmen, defendeu que “Eisner é o responsável por dar inteligência aos quadrinhos” e olha que Moore não gosta de ninguém quase, kkkk.

No prefácio de “Pequenos Milagres”somos apresentados ao argumento da HQ: É difícil falar sobre milagres. Ou você acredita neles ou não. Eu acredito. No quarteirão onde passei minha infância, os milagres aconteciam à toda hora. Eram simplesmente parte da estrutura de nossas vidas e tornavam-se inseparáveis de eventos explicáveis, sendo, no final das contas, tratados como se fossem realidade. Anos de vivência têm o efeito de amadurecer julgamentos e inibir a aceitação do inexplicado. Quando começamos com relatos que não são dignos de confiança e carecem de evidência, nos aproximamos do folclore. Então, aquilo que alguém se lembra desses eventos é, na melhor das hipóteses, pouco confiável. O processo de relembrar é um trabalho de dedução, algo como um antropólogo reconstruindo um esqueleto antigo. Os contos neste livro se parecem com as histórias que meus pais chamavam de “meinsas”. E, embora sem apócrifos, eles foram destilados das minhas lembranças, que eram um patrimônio comum da nossa família. Por exemplo, minha mãe podia apontar para um velho alimentando pombos no parque e me dizer: “Aquele  é um tio, por parte do seu pai… Deixa eu te contar sobre ele… É um milagre.”

E pequenos contos começam seguindo essa temática, não somente histórias de milagres ocasionais, mas acontecimentos do cotidiano que podem ser observados como dádivas ou momentos de graça. Muitos dos “milagres” aqui apresentados apresentam situações do tipo: “Poderia ter sido assim”, “tal milagre poderia acontecer de várias formas”, “certas ocasiões são milagres ou mesmo coincidências?”. É possível ler uma vez e não entender ou perceber qual a conexão com algo tão puro e bom quanto um milagre, pode ser necessário ler mais vezes e o que também é muito legal, é poder interpretar tais eventos de maneiras diferentes em cada leitura. Muito do que parece simples fatos recorrentes ou de pequena importância, pode representar muito para quem convive com o acaso. O que para mim é de acordo com o esperado, para outras pessoas pode ser mais do que com o que contavam.

Pequenos milagres é composto por 4 contos, curtos ou mais longos, agradabilíssimos de se ler e a arte de Eisner é bem peculiar. Seus traços envolvem o leitor pela leveza e ainda assim consagra uma perspectiva madura e LONGE dos traços que a garotada está acostumada. Will Eisner por ser lido e contemplado por jovens e adultos, seja cativando pela arte ou nos levando a reflexão pela narrativa.

Domingo dos Quadrinhos – Incal

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Moebius é um dos principais nomes dos quadrinhos europeus. Seus desenhos detalhados e com estilo próprio o levaram a tal lugar, junto com a sua tendência a criar universos fantasiosos complexos.
É com isto em mente que pus as mãos em Incal, uma fantasia publicada originalmente em vários volumes e posteriormente agrupados na edição publicada no Brasil. E o mundo fantasioso de Moebius está lá.
Só que Incal é ainda mais fantasioso. Para ser bem sincero, Incal é uma viagem completa em vários sentidos; desde o mundo criado até os nomes usados (leiam para entender) e o final, surpreendente.
O final, aliás, consagra a obra; a HQ começa como uma história de fuga passada no futuro, evolui para uma dinâmica meio Guerra nas Estrelas e termina, quando você menos espera, num final inacreditável.
Incal é recomendado para quem já leu muitos quadrinhos e gosta de ficção científica. Para os outros, melhor começar por algo um pouco mais “pé no chão”.

Domingo dos Quadrinhos – Assim Falava Zaratustra (Dos Céus Aos Quadrinhos)

Assim Falava ZaratustraAssim falava quem? Você deve estar se perguntando quem raios é Zaratustra. Se não está, com certeza está se perguntando como esta figura criada por Nietzsche foi parar no nosso dia reservado a resenhas de quadrinhos.

A resposta veio pela autora: Thaís dos Anjos é designer, ilustradora, paulistana e amiga de infância deste que vos fala. Apesar do viés óbvio, prometo que a obra é boa. Muito boa.

Nietzsche compôs com Zaratustra uma obra complexa, que aborda questões filosóficas, a existência de um ser superior e a própria existência humana. Nesta adaptação, a autora procurou utilizar toda a profundidade do assunto para criar uma obra de arte. Mais do que uma história em quadrinhos, trata-se de uma obra de arte de qualidade, com traço diferenciado e cores que se assemelham muito mais às artes plásticas do que propriamente a uma HQ.

O tema não deixa de ser complexo no quadrinho, mas passa a ser o pano de fundo para um belo ensaio da autora, que cria cenas e imagens muito bonitas com base nos pensamentos do personagem principal.

Assim Falava Zaratustra é o “debut” de Thaís como autora de HQs, e demonstra pretensão (no bom sentido) de abordar temas não convencionais. A obra de Nietzsche foi um dia utilizada como inspiração pelos criadores do Super-Homem, aquele mesmo. Não deixa de ser um bom presságio.