Domingo dos Quadrinhos – Star Wars (Série da Ediouro)

Star Wars 1Demorou mas saiu! Quase que o domingo acaba sem Domingo dos Quadrinhos, mas felizmente conseguimos providenciar a tempo!

Em 2005 a editora Ediouro inaugurou um braço de quadrinhos com a publicação de uma série mensal de quadrinhos de Star Wars, originalmente publicados pela Dark Horse Comics nos Estados Unidos. Apesar de interrompida em 2006, a revista chegou a trazer diversas histórias completas, que compensam de longe para o fã do universo criado por George Lucas.

Como exemplos da qualidade desta série, temos as duas primeiras histórias completas, que aparecem entre os números 1 e 4 da revista mensal: a primeira delas, Obsessão, se passa meses antes do episódio III (A Vingança dos Sith) e apresenta Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker perseguindo uma inimiga chamada Ventress. Com traços muito bons (e agressivos), combinados a um roteiro que prima pelos detalhes e pela aderência ao mundo criado para a série de filmes, Obsessão é uma história que agrada a qualquer fã de Star Wars.

A segunda história completa publicada na revista, chamada Temporada de Caça, apresenta a origem do mercenário Jango Fett. Para quem se lembra, Jango foi o homem utilizado como base para criação dos clones, os Stormtroopers. A história também é muito bem desenhada e roteirizada, e vale inclusive para “não tão fãs”, porque funciona bem como uma história em quadrinhos isolada.

Esta série deve ser fácil de encontrar em sebos, e interessa demais a quem é apaixonado pelos filmes e quer saber mais sobre este universo. Recomendado.

 

Resenha – Noite

Guerra e Holocausto. Gosto muito de ler sobre isso. Não por que eu goste de ler sobre mortos e etc (por favor!) mas porque eu sempre sinto que aprendo algo a mais sobre a estupidez humana. Tenho livros e mais livros sobre guerras, principalmente a Segunda Guerra Mundial. E se juntar todos eu sei que nunca conseguiria, de verdade, entender o que foi aquela época.

Apesar de tudo o que já li sobre o Holocausto, Noite é diferente. Elie Wiesel tinha 15 anos, em 1944, quando chegou a um dos piores campos de concentração da época – Auschwitz – onde ficou até o fim da Guerra em 1945. O livro trata de todas as suas noites sobrevivendo ao caos e a matança ao seu redor. Mas mais do que isso, o autor não trata apenas de sua sobrevivência, ele foca nas mortes que presenciou.

Para Wiesel, a guerra parecia um acontecimento longínquo e, com sua tenra idade, ele não se incomodava em pensar muito sobre o que estava acontecendo nos temidos campos de concentração. Até ser deportado com sua família para um deles. Aliás, muitas famílias da região não acreditavam que a guerra estava ocorrendo de verdade ou, pelo menos, não na maneira com que  contavam.

Noite é diferente porque o autor descreve seus sentimentos quase como um personagem no livro. Ele descreve as cenas que vê com uma agonia e uma dor que fazem com que seja impossível o leitor não sentir o mesmo. Uma das cenas mais fortes é quando ele testemunha um de seus “companheiros” ser obrigado a jogar o próprio pai no forno. É o tipo de cena que nem as mentes mais perversas poderiam imaginar.

Além disso, os quase dois anos de “estadia” em Auschwitz revela uma relação difícil entre pai e filho. Wiesel e seu pai foram presos juntos mas enquanto se esperava que essa aproximação resultasse em uma relação mais forte, quase que o contrário aconteceu. Enquanto seu pai morria lentamente, sofrendo com os maus tratos do campo, Wiesel se ressentia cada vez mais da fraqueza do “velho”. Esses sentimentos alteraram de forma fatal o relacionamento entre pai e filho.

O autor não tenta suavizar a relação (pode esquecer “A vida é bela”). Sua simplicidade e acidez ao descrever seus próprios pensamentos nos mostram que o menino de 15 anos já havia sumido. No lugar dele, surge um homem que tem sua fé abalada e que vê coragem e sobrevivência com outros olhos.

O livro é permeado de mortes, mas a mais relevante é a morte da fé de Wiesel em Deus. Quando jovem, ele pensava em seguir o Cabalismo e estudava religião. Quando se deparou com as atrocidades impostas a seu povo por Hitler, aos poucos, ele começou a duvidar de tudo aquilo que a religião pregava e questionava muito tudo o que havia aprendido. “Nuca mais esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha fé.”

E quem poderia culpá-lo? Quando se é obrigado a testemunhar tanta morte de adultos e crianças, tanto descaso com a vida, tantos maus tratos é difícil argumentar a existência de um ser superior que deveria protegê-lo de todo o mal.

Ao usar poucas palavras para descrever algumas das cenas mais intensas, Wiesel deixa que o leitor entenda o resto por si só. O impacto é chocante. É como um soco no estômago que te tira o fôlego por horas.

Ainda vivo, Wiesel é hoje professor e já escreveu mais de 50 livros além de ganhar o prêmio Nobel da Paz. Sempre que questionado sobre suas impressões sobre o Holocausto, ele avisa que educar as futuras gerações é a melhor maneira de prevenir que a História de repita. Ele se dedica a isso, palestrando e dando entrevistas sobre o assunto ainda que, muitas pessoas, já tenham esquecido.

E esse é só um dos motivos porque todo mundo deveria ler Noite.

Trecho do discurso de aceitação do Nobel:

“Eu me lembro: aconteceu ontem ou eternidades atrás. Um garoto judeu descobriu o reino da noite. Lembro-me do seu assombro. Lembro-me de sua angústia. Tudo aconteceu tão depressa. O gueto. A deportação. O vagão de gado selado. O altar de fogo sobre o qual a história de nosso povo e o futuro da humanidade seriam sacrificados.”

Resenha – Contra Ataque (Livro e Filme)

Contra Ataque – O massacre nas Olimpíadas de Munique e a reação mortal de Israel – começa, como diz no título, com o massacre nas Olimpíadas de Munique em 1972. O massacre, explicando rapidamente, ocorreu em Setembrode 1972 quando 9 membros da equipe olímpica de Israel foram feitos reféns por membros do Setembro Negro (grupo militante da causa Palestina).

Durante horas, os atletas israelenses foram mantidos prisioneiros enquanto os palestinos faziam exigências para aviões que o levassem para zonas seguras e a libertação de 230 prisioneiros palestinos em Israel. As autoridades alemãs nunca haviam lidado com um ato de terrorismo tão claro e decidiram armar uma emboscada no aeroporto. Definitivamente, a parte mais chocante é quando os palestinos percebem que não conseguirão escapar e decidem que todos os reféns devem ser assassinados (não, eu não vivo em uma realidade alternativa rosa em que eu cheguei a pensar que os reféns iriam sair vivos por causa bondade palestina). Enquanto esperavam dentro dos aviões, os reféns foram alvejados por metralhadoras até que se garantisse que nenhum havia sobrevivido.

O resultado foi a morte dos 9 reféns, 4 terroristas e 1 policial alemão. Um desastre.

Mas aqui é que o livro começa a contar uma parte da história que, por muitos anos, ficou escondida sob camadas de sigilo principalmente do Mossad (Inteligência Israelense) e dos Governos Europeus. O autor pesquisou a resposta de Israel nos 20 anos seguintes ao massacre e constatou que o Mossad, com autorização de todos os Governos durante esse tempo, caçou e assassinou todos os palestinos que acreditavam estarem envolvidos no ato terrorista.

Durante muitos anos se especulou como certos agentes palestinos haviam sido assassinados e por quem, já que os assassinatos ocorreram em territórios teoricamente neutros como França e Londres (na verdade, acho que os territórios neutros fingiam não saber quem estava por trás do assassinato). Mas a verdade é que Israel não poupou esforços para vingar seus atletas e demonstrar sua força. O nível de detalhe que o livro apresenta é impressionante porque se tratam de missões – acredita-se – sigilosas (pelo menos para a maioria das pessoas) e que, na época, se reveladas poderia ter consequências imprevistas.

Na década de 70, a luta de Israel e Palestina estava no auge com Israel ocupou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a Península de Sinai e as Colinas de Golã.  A ousadia do Setembro Negro forçou o mundo a reconhecer que as coisas estavam saindo do controle. Nessa época, toda a região estava envolvida em disputas territoriais de alguma parte com Israel sendo o alvo principal. Mas Israel também tinha aliados fortes como os Estados Unidos.

O livros nos leva por uma viagem por toda a Europa enquanto os alvos israelenses são executados e, ao mesmo tempo, o restante do mundo começa a pedir que a região tente se entender de forma mais enfática (ao invés de sentar na ONU e pedir paz ou cantar uma música do John Lennon para lembrar a todos como a paz é importante). No entanto, Israel não abriu mão de continuar investindo contra as cabeças que organizaram o massacre das Olimpíadas. Na verdade, o autor indica que Israel estava disposto a abrir mão de algumas coisas MENOS dessa vingança. Depois da 2a Guerra Mundial, o orgulho judeu estava em xeque e eles não iriam aturar algo assim.

O livro inspirou o filme Munique de Steven Spilberg lançado em 2005. Aliás, a cena do massacre em si (o assassinato dos 9 reféns) é aquela que nunca mais se pode esquecer pela frieza com que foi filmada (talvez a última grande cena de Spilber desde então). O filme se torna morno quando entra nas missões israelenses porque esse não é o típico filme de espiões e nem pode ser tratado como tal.

Tem muito mais contexto por trás das cenas do que apenas estratégias de execução e infelizmente, não acredito que Spilberg conseguiu captar a intensidade das ações israelenses.Mas isso é compreensível porque a audiência está condicionada a esperar carros explodindo e peitos o tempo todo. Até mesmo as cenas familiares – dos agentes do Mossad interagindo com suas respectivas famílias – são para a audiência do filme já que não constam no livro.

No entanto, ambos – filme e livro – nos trazem uma imagem do que ocorria na Europa e no Oriente Médio na época e como as relações internacionais estavam travadas, tensas e as grandes potências estavam perdidas. Além disso, o livro mostra o nível de crueldade com que palestinos e israelenses se atacavam que é digno de 11 de Setembro. O filme foi mal visto pelos israelenses que diziam retratar apenas atos de vingança quando, na verdade, se tratava de atos de defesa. Pode ser verdade. Mas uma defesa que exige 20 anos de planejamento, empenho, recursos e aprovação do Governo tem, sim, um gostinho de vingança.

Se tiver que escolher, leia o livro. É denso mas direto. É informativo mas objetivo. E quando se trata de conflitos no Oriente Médio, ser objetivo já é meio caminho andado.