Resenha – Tempo é dinheiro

Só precisei ver que esse livro foi escrito por Lionel Shriver para comprar. Não precisei de indicações, comentários críticos nem nada disso. Depois de ler “Precisamos falar sobre o Kevin” e “O mundo pós aniversário” eu já era fã dela.

O livro aborda o “way of life” norte americano. Shep Knacker é um empresário que veio de uma família humilde e ao começar a fazer pequenos trabalho manuais na vizinhança, ganhou clientes a rodo e abriu um pequeno negócio. A “Knack para toda obra” cresceu e Shep acreditava que estava no caminho para seu sonho: guardar dinheiro o suficiente para aproveitar a velhice em um lugar tranquilo – de preferência em algum país do 3o mundo onde o dinheiro renderia mais. Depois de 22 anos como chefe de si mesmo, Shep vende a empresa por 1 milhão de dólares (quantia que ele achava que acabaria por comprar seu sonho de descanso). Mas os planos não saíram conforme pensado e Shep se tornou empregado de sua ex empresa.

Tudo isso enquanto Glynis, sua esposa, saia e entrava em depressões pesadas. Quando eles se conheceram, Glynis fazia peças de metais para vender e ganhar a vida – ainda que de forma modesta. Quando casaram, Glynis não se preocupava mais em trabalhar já que suas contas estavam pagas e ela podia descansar e criar os filhos. Shep via seu sonho de outra vida cada vez mais distante. Agora, ele trabalha por quatro e a margem de dinheiro guardado ia diminuindo.

Mas não se pode confiar no destino ou na vida, não é mesmo? Glynis explica a Shep que não pode viajar com ele e que eles não podem abandonar tudo: ela precisa do plano de saúde. Glynis descobriu que tem um câncer raro.

Somos apresentados também a Carol e Jackson – amigos do casal com duas filhas problemáticas: a mais velha tem uma doença degenerativa e, aos 16 anos, já começa a definhar. A mais nova é hipocondríaca por acreditar que estar doente é a única maneira de ter atenção dos pais. Jackson trabalha com Shep e é seu melhor amigo. Apesar de um casamento sólido, Carol e Jackson enfrentam alguns problemas típicos de pais que têm um foco de atenção constante nos filhos.

Os capítulos vão se alternando entre a vida de ambos os casais e quando Shep aparece, os capítulos iniciam com o saldo de sua conta. Assim, vamos acompanhando o sumiço de suas finanças à medida que os tratamentos de Glynis começam. Além disso, também aprendemos mais sobre o sistema de saúde norte americano (o livro é uma crítica direta e dura a esse sistema). Quando Obama chegou ao poder, em 2008, um de seus primeiros projetos envolveu a saúde…apesar de ser a terra das oportunidades e dos tênis baratos, uma internação sem convênio poderia custar quase um ano de salário para os desafortunados. (Para saber mais sobre o sistema de saúde norte americano, recomendo o documentário SOS Saúde de Michael Moore que traça um paralelo entre o sistema de saúde dos EUA, da Inglaterra, do Canadá e da França – e, pasmem, os EUA têm um sistema pior e que custa o dobro)

O livro é permeado de comentários ácidos como: “Algum palerma obsequioso foi pago para preencher todos aqueles códigos e ticar os quadrinhos, e despachar cópias para mais cinco lugares. Trinta por cento do dinheiro gasto com a assistência médica neste país vai para a chamada administração. A verdade é que existe toda uma camada de empresas de seguros com fins lucrativos entre a Glynis e os médicos, um bando de parasitas sacanas e gananciosos ganhando dinheiro com a doença dela”. Esse, claro, é Jackson. Shep nunca diria nada do tipo.

Aliás, Jackson também acaba se metendo em um problema insano que não vou detalhar porque a própria autora demora para nos dizer o que é. Então acho que ela quer que você descubra sozinho(a) e não sou eu quem vai estragar isso. ;). De qualquer forma, a família tem mais um problema de saúde – e caro – para cuidar. Mas surpresas sempre acontecem e prepare-se para reviravoltas na história que você certamente não esperava – do tipo que te deixam sem reação por alguns minutos.

O livro, como a maioria do trabalho de Shriver, é escrito de maneira magistral – com pensamentos profundos para cada personagem. Aliás, a construção das personagens é cuidadosa e elas são completas e interessantes por si só. A estrutura do livro é objetiva e ao nos permitir acompanhar as finanças de Shep, a autora nos coloca junto com sua personagem na linha de desespero financeiro sob um sistema de saúde que não funciona. Claro que a nossa conclusão acaba condicionada mas mesmo assim, em alguns pontos, ela nos permite desenvolver uma análise própria de como o sistema de saúde atual trata dos pacientes.

O câncer não é uma das personagens principais mas está ali, atravessando todos os diálogos e trazendo situações ao ponto de ebulição. Além disso, Glynis traduz muito bem uma personagem enfrentando esse tipo de batalha e acompanhamos sua solidão enquanto os amigos somem, a família se esquiva e sua dor aumenta. Aliás, vale iniciar uma reflexão sobre amigos e famílias que começam na lista de “íntimos” e terminam na lista de “não tão íntimos assim” quando uma doença como câncer aparece. Talvez valha pensar sobre quem realmente queremos colocar nessas listas.

Um livro pessoal, sincero, real, triste e simplesmente fantástico. Recomendadíssimo, íssimo!

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Resenha – Cartas na rua

Histórias de um carteiro. É, eu sei o que você está pensando: o que poderia ser tão interessante na vida de um carteiro? Bom, de acordo com o Bukowski, um carteiro que bebe a noite inteira, trabalha a maior parte do tempo de ressaca, que odeia cachorros (e cada vez que um o ataca ele começa a gritar “Assassinato”), que odeia seu chefe e não está muito preocupado em fazer seu trabalho direito, tem MUITA história para contar.

Hank Chinaski parece ser um daqueles perdidos na vida. Aos 30 e poucos anos, trabalha como carteiro mas não vê isso como profissão. É só algo que ele faz. Depois de 3 anos, quando a estabilidade estaria começando, ele larga o emprego e decide viver de apostas em corridas de cavalo. Conhece Joyce – uma guria de 23 anos (podre de rica mas ele ainda não sabia disso) – que o acompanha nas corridas e logo exige que eles se casem.

Sem perspectiva nenhuma na vida, Hank concorda e eles se mudam para a “última cidade que poderia sofrer um ataque terrorista nos EUA”. Pequena, daquelas que todo mundo sabe da vida de todo mundo, todos os habitantes da cidade sabiam da riqueza da família de Joyce e o invejam e o odeiam ao mesmo tempo. E Hank sabe disso. Aos poucos, a vida ridícula que ele vivia na cidade com sua jovem esposa ninfomaníaca perde o encanto e eles decidem voltar para a cidade grande. Joyce exige que Hank encontre um emprego “para provar para seus pais e avós que eles podem se virar sozinhos” mas não sem antes pedir que o avô pague o novo apartamento e dê um carro para eles.

Hank encontra um emprego que “não cheira a trabalho”, mas logo volta aos Correios. Dessa vez como atendente. A vida dele segue o mesmo ritmo maçante parece que eternamente. Ele não parece se interessar por nada além de um copo de álcool e não leva quase nada na vida a sério. Ele acaba se divorciando de Joyce (ela pede o divórcio e ele nem pensa duas vezes) e volta para a “vida louca” de bebida, álcool, mulheres e corridas de cavalo. E trabalho de vez em quando.

Com mais de 30 anos, esse estilo e vida é triste e deprimente. Mas mesmo assim, não deixa de ser engraçado com comentários irônicos de Hank. Dizem que Hank – que aparece em outros dois livros de Bukowski – é um alter ego do autor que tinha problemas sérios com a bebida. Hank bebe muito. E não só isso, Bukowski trabalhou como carteiro temporário no começo dos anos 50 e odiava mais seu trabalho a cada dia.

Então podemos dizer que Cartas na Rua é quase uma biografia. Bukowski escreve de maneira direta e hilária. Ler o livro é sentir que você está na mesa de bar com ele enquanto ele te conta suas peripécias.

Resenha – Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury é um clássico das distopias. Bradbury criou um mundo que a princípio parece impensável mas aos poucos vamos percebendo o quão próximo estamos de algumas de algumas situações descritas.

Bradbury nos apresenta Montag – um orgulhoso bombeiro. No livro, a ordem natural foi  invertida e os bombeiros ao invés de apagarem incêndios – eles os começam. As casas são a prova de fogo e os livros são inimigos e devem ser queimados – o Governo defende a idéia dizendo que os livros atrapalham os pensamentos e a felicidade dos cidadãos de bem. É como se as estruturas fossem invertidas e a polícia ao invés de defender a população, existisse para matar (o que eles julgam ser) os maus elementos (oh!! espere aí….)

Apesar de publicado na década de 50, o livro retrata um mundo a partir de 1990 – ou seja, o que conhecemos hoje. Um mundo na ficção com pessoas alienadas que falavam apenas de “marcas de carros ou roupas ou piscinas.” (oh!!! espere aí…) O fato é que uma vida sem livros deixou as pessoas sem base para criar idéias, sem assuntos para conversas, sem motivos para interagirem.

O livro é dividido em partes. A primeira parte é sobre o despertar da consciência de Montag que ao conhecer sua nova vizinha Clarisse – que pegunta coisas que faz com que as pessoas pensem – se assusta por ser algo incomum (perguntar e pensar). Clarisse some tão rápido como apareceu, mas ao abrir os olhos para essa superficialidade, Montag começa a perceber outros pontos horríveis da realidade em que vive. As pessoas e os animais se tornaram máquinas (quase literalmente – a mulher dele sofre uma overdose de remédio para dormir e os paramédicos trocam o sangue dela. Na própria cama. Enquanto ele vê. Simples assim…).

Mas o ápice dessa parte é a cena que leva a uma conversa sincera (até demais) entre Montag e seu Capitão:  ao checarem uma denúncia anônima, os bombeiros descobrem uma senhora que guardava diversos livros e prefere morrer queimada com seus livros do que se entregar para a polícia. Montag não apenas pega um livro escondido como se sente muito mal com a decisão da senhora e tenta ajudá-la (duas coisas proibidas). Na manhã seguinte, ele acorda fisicamente doente e decide que vai abandonar o emprego.

O Capitão Beatty vem procurá-lo e faz um dos melhores discursos que já vi em um livro. Tive dificuldades em achar uma única parte para colocar como amostra grátis mas vamos com essa: “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias, as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

É nessa primeira parte que também percebemos algo terrível: o Governo pode ter facilitado mas foram AS PESSOAS que decidiram deixar de ler. Foram as pessoas, ao longo dos anos, que foram deixando os livros de lado e dando mais valor para a programação na tv. A tv – nessa nova realidade – é embutida na parede e as pessoas a chamam de “família” mas mal conversam entre si.

Enquanto você recupera o ar, a segunda parte começa com força total.

O fato é que Montag está farto de não saber nada. Então, ele decide revelar para sua esposa um segredo que poderia acabar com ambos: Montag tem roubado livros há algum tempo e já acumulou uns 20 – inclusive uma Bíblia (livro totalmente proibido). E agora, Montag quer entender o que tem ali só que apesar de ler e reler as passagens ele não consegue entender o significado de nada – porque pensar não é um exercício fácil.

A saída é procurar ajuda. Montag se recorda de Faber – um ex professor que agora está (óbvio) desempregado – e pede que o ajude a copiar os livros e garantir que outras pessoas os leiam. Pede, também, que o professor o ajude a entender. Simples assim. A segunda parte do livro é sobre Montag assumindo sua identidade duplas mas percebendo que não se pode fugir para sempre das garras do Governo.

Na terceira parte, estou tentando ao máximo não contar spoilers, Montag encontra um grupo de homens que vivem à margem da sociedade – são ex professores, filósofos, estudiosos que perderam qualquer tipo de função nessa sociedade hiper regrada e não pensante. Mas a forma que eles escolheram de honrar suas devidas profissões foi memorizando livros que consideram importantes. Cada um memorizou um livro e Montag percebe que há muitos outros como eles. Para salvar os pensamentos, as idéias, essas pessoas se tornaram portadores e contadores de histórias.

Eu fechei o livro e instantaneamente ele se tornou um dos meus preferidos. A escrita é excelente, clara e objetiva e até mesmo as partes mais descritivas – que costumam ser um pouco chatinhas – demonstram um certo talento de Bradbury para envolver o leitor. O conceito da história podia parecer absurdo em 1953 – a ponto de ser classificado como ficção científica – mas hoje, não acredito que isso esteja tão distante, lamentavelmente. No livro, o constante pavor do silêncio levou a população a manter a tv ligada e o cérebro plugado na programação. É como hoje onde quase tudo que existe para nos conectar também acaba nos distraindo do mais importante: pensar e analisar o tanto de informação que temos.

Outra coisa interessante é que o livro é dividido em 3 partes mas não segue a estrutura de um livro comum. Exemplo, em qualquer livro você tem muita descrição no começo, para que possamos imaginar as cenas e as personagens. Mas em Fahrenheit 451, a descrição fica quase toda no final. É como se à medida que Montag abre seus olhos, ele começa a VER as coisas de verdade e nós também. Uma bela construção para uma bela história triste.

Resenha – O Velho E O Mar

Livro pequeno, uma história curta, argumento sem grandes reviravoltas ou tramas mega elaboradas, eis o mote de O Velho E O Mar. Ernest Hemingway é considerado um dos maiores escritores norte-americanos da história e o livro em questão é dito como um dos mais famosos. Como isso é possível em um livro sem, aparentes, grandes atrativos? Simples…

A história de superação, perseverança, condicionamento em uma crença mais forte do que a própria natureza. Motivos mais do que necessários para instigar leitores ávidos por enredos que valorizam aquilo que todos mais querem: VENCER. (O homem almeja a FELICIDADE, e, com certeza, vencer nos deixa profundamente felizes).

Somos apresentados à um velho pescador que não desiste daquilo que acredita e à um menino que acredita veementemente em seu velho amigo. Durante 84 dias a pesca não está pra peixe (!!!, kk) e Santiago (o velho) continua tentando. Manolin (o garoto) foi tirado de sua companhia, pelo pai, que quer que ele trabalhe em um barco que dê sustento, mas o garoto não consegue ficar separado do velho – uma história de amizade verdadeira é visivelmente observada aqui -, tentando ajuda-lo da melhor forma que consegue e pode. No 85º dia, ambos acordam cedo, os preparativos começam ainda de madrugada, como normalmente se faz em uma pescaria. Manolin acompanha Santiago até a praia e ambos se despedem com um “Boa sorte”. Uma simples despedida, cheia de respeito e confiança.

Sozinho, sem a companhia de seu melhor amigo, remando mar adentro, o velho se vê cercado pelo mar límpido e pelos animais marinhos. Tartarugas, água mala (água viva), peixes voadores e cardumes que se mostram próximos, o afastava da solidão completa. Enquanto tentava se aproximar dos peixes, ia narrando episódios antigos e como era a vida no mar. A falta que o garoto fazia e a determinação de conseguir, tomava conta de seus pensamentos. Era um pescador experiente, conhecia as artimanhas e peripécias marinhas e não queria que tudo ficasse reservado somente ai passado. Histórias antigas serviam de roteiro para passar o tempo. Ele relembrava como era a vida e outras aventuras no mar, até que fisga um peixe diferenciado. O peixe que mudaria sua vida. Durante as horas em que batalhava com o peixe, um respeito enorme tomava conta dele, arquitetava as múltiplas possibilidades de vitória e estava rigidamente convicto de que não desistiria, mas a natureza é implacável e o sofrimento é certo.

Dias se passaram enquanto a batalha entre os dois era travada. O sol castigava de forma fatigante o corpo e os olhos do velho, a linha presa ao peixe cortada suas mãos e o cansaço pedia trégua, mas a certeza de que poderia e que iria ganhar era muito maior do que qualquer outra coisa na vida. Com tempo, a sabedoria, paciência, determinação e experiência de Santiago vence e o peixe é derrotado, mas ainda existiam outros desafios. Desafios para um retorno que significaria a glória. Tubarões vão atacando o peixe morto e o velho vai conseguindo se livrar de todos. Até chegar a costa sua vida corria perigo, mas ele estava disposto a enfrentar todos os desafios que pudessem aparecer à sua frente.

Santiago volta com a carcaça do peixe, mas passa a ser respeitado pelos outros pescadores que observam o tamanho do pescado e entendem que o velho não é um simples velho, mas um homem estranho que conseguiu superar as dificuldades e a superar a si mesmo, lutando contra a natureza e saindo vitorioso.

O livro discursa sobre desafios a serem superados, sobre amizade, sobre a vida como ela verdadeiramente é. Somos afligidos diariamente por ocasiões que nos cobra ações e decisões, sem se importar com nossas vontades. Existem momentos em que somos só nós e a vida, e em tais momentos, nossa crença em nós mesmos é o que mais importa.

Terça De Quadrinhos – A Metamorfose

Li dois livros do Franz Kafka: A Metamorfose e O Processo. Tenho a dizer, a priori, que o escritor tcheco, nesses dois livros, cria situações extremamente desfavoráveis ao protagonista sem uma prévia explicação ou o destrói sem motivo aparente… Pronto, isso é só um aperitivo sobre o que vem a seguir…vamos ao que interessa.

A Metamorfose é um conto que pode indicar várias interpretações subjetivas aos leitores mais interessados: apresenta facetas da humanidade que muitos não aceitam ou fingem não existir, ao encobrir por debaixo do tapete. Kafka trabalha assuntos como: rejeição, apatia, desrespeito, preguiça, de forma muito interessante, pois joga na cara que muitos de nós podemos ser levados por sentimentos de horror e descaso “condicionados”, e que nos desculpamos tentando nos convencer que possuímos motivos para tal, sendo que, na verdade, tal condicionamento é somente uma variação do que pode acontecer no dia a dia, naturalmente. Deixe-me explicar:

Algumas pessoas costumam dizer que nada na vida é capaz de mudar seus sentimentos por aquelas que amam, que em qualquer situação estará lado a lado dos entes queridos e amigos verdadeiros. O que o homem, muitas vezes, esquece, é que tudo que, cotidianamente, ocorre em nossas vidas, nos ajuda a gostar mais, gostar menos, nos aproximar mais, nos faz odiar, nos faz amar tudo que nos cerca. Não podemos estar presos a conceitos convictos de que tudo é imutável, principalmente quando se trata de sentimentos, pois sentimentos SÃO dependentes de nosso amor, ardor, horror, torpor.

Da 1ª vez em que li A Metamorfose, fui sendo levado pelo entendimento de que o personagem se transforma em uma barata (no livro NÃO indica qual inseto é, mas, em algumas versões, como nessa HQ, e como na música dos “Heróis Da Resistência”, a barata é referenciada) e isso indiciava que ele era uma personificação de uma pessoa preguiçosa, que rasteja e que leva uma vida sem compromisso ou desejo algum, mas nas seguidas vezes em que reli, pude perceber outras relações e entender de formas diferentes o que o texto pregava, e o lance da prioridade familiar para outros assuntos é uma delas.

Essa Graphic Novel ajuda muito ao leitor a compreender essa análise principalmente, pois as feições de cada pessoa, são muito expressivas. Seja com a família (a irmã com o olhar de dó, a mãe com o olhar de perda e o pai com o olhar de repulsa), que dia a dia, mês a mês convive com tal situação horrenda, seja com os inquilinos que são todos iguais e que são indiferentes com o sofrimento alheio e só se interessam por suas vidas e seja com a empregada que parece uma carrasca mais interessada em fazer o trabalho que ninguém mais tem coragem, mas que todos querem, que é eliminar de vez essa praga que atrapalha e empaca a ocorrência da vida.

Kafka cria um enredo bizarro e o ilustrador Peter Kuper personifica o aspecto sombrio sobre algo que pode muito bem acontecer com qualquer um, já que o homem é um bicho que vive de acordo com o seu interesse. Mesmo pessoas íntimas podem perder o interesse pelo próximo, quanto esse incomoda mais do que cativa (e não estou sendo pessimista, mas sim realista). Nós precisamos de demonstrações de afeto, responsabilidade, interatividade, importância, vontade, para vivermos da melhor maneira possível junto de outras pessoas. Uma família não existe sem certa compatibilidade ou empenho.

A vida para ser vivida de forma, no mínimo boa, precisa ser apreciada com apetite.

Resenha – Ponto de Impacto

Dan Brown escreve com fluência de alguém que, não só sabe sobre o que versa, como também gosta muito. Ponto de impacto é o 3º livro que leio do autor (Anjos e Demônios e O Símbolo Perdido foram os outros dois, ainda não li o aclamado Código e também falta a Fortaleza), tenho que dizer que Brown envolve ficção com realidade com certa primazia e os enredos são trabalhados com esmero no que trata de informações.

Alguns aspectos que parecem enrolação ou dispensáveis, se mostram profundamente necessárias e isso é uma constante em seus nos livros, aspectos como reviravoltas dramáticas (que me parecem o prato principal em seus argumentos) e as citações de fatos que indicam atos ou intenções futuras também são bem recorrentes (“…teria acelerado ainda mais se soubesse…”, “…teria preferido estar em qualquer outro lugar…”).

Ponto de Impacto apresenta uma história sobre a descoberta que pode mudar o rumo de entendimento humano em relação ao universo (assim como Fortaleza, é sobre um assunto bem diferente das tramas simbólicas em que acompanhamos Robert Langdon, mas que possui um ingrediente bastante funcional e corriqueiro dentro de todos os livros: a corrida pelo poder, seja da forma que for). Temos aqui uma heroína – Rachel Sexton – uma importante analista do “NRO” (Escritório Nacional De Reconhecimento) dos E.U.A., que é convocada pelo próprio Presidente para dar aval e credibilidade ao descobrimento que pode justificar quaisquer gastos adicionais que a agência “NASA” (Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço) tenha empregado em seus anos de atividade. Rachel é filha do Senador Sedgewick Sexton, principal, e forte, opositor do Presidente e da própria NASA. Depois da exposição esclarecedora que a própria Rachel participa, vamos percebendo que o que tinha ares simples de uma eventual jogada política, se mostra algo muito mais complexo e impactante.

Rachel está junta à outros civis, escolhidos para corroborar na confirmação e divulgação do achado, no Ártico, há milhares de quilômetros de distância da civilização. Tudo estava indo muito bem até que indícios de fatores que colocam em dúvida todo o trabalho da NASA vão aparecendo. Elementos sem uma prévia explicação linear ou funcional começam a surgir e levantar a suspeita de uma possível fraude. O grupo vai tentando entender o que está ocorrendo e quanto mais vão suspeitando e comprovando que algo está errado, um a um vai sendo eliminado por um inimigo altamente perigoso e importante. O maior questionamento é de que, aparentemente, isso não coloca em xeque a tal descoberta, mas fica a questão de que existem planos maiores e conflitos inexplicados por trás das intenções governamentais, ou não… E a pergunta sobre quem é o responsável por tudo isso, quem está por trás de toda a trama, instaura a suspeita de que o bonzinho pode ser mal ou o mal pode ser bonzinho. Falar mais pode atrapalhar no clímax e tirar o suspense…

Brown possui um ritmo já bem característico e muito enraizado nos seus livros. Um fator muito legal é de que a narrativa instiga e a vontade de saber o próximo acontecimento, a próxima ação, faz com que a leitura, não só seja agradável, como também dê desejo de ler página por página com aquele apetite por respostas. Em todos os livros acontecem isso e quando tudo parece resolvido, Brown pode, ou não, reverter a história ou acrescentar mais intriga no contexto.

Resenha – Coisas frágeis vol. 1

“Coisas frágeis” é um livro de contos de Neil Gaiman – minha primeira experiência com o autor. Já ouvi coisas ótimas dele pertinentes a vários de seus livros (principalmente “Deuses Americanos” que tentei comprar na Bienal mas não consegui. Se alguém quiser me dar de presente eu, gentilmente, aceito).

Para conhecer um autor novo eu gosto de começar por um livro de contos – na verdade, tive uma professora que me disse que essa era a mehor maneira de saber se eu me daria bem com o estilo de escrita de um autor. Então “Coisas frágeis” veio no momento certo. Esse é o primeiro volume e conta com 9 contos de Gaiman. Na introdução, temos uma breve explicação de como o conto foi escrito – que eu só li depois que acabava de ler o conto em si para não influenciar minha interpretação.

No terceiro conto já dá para saber que Neil Gaiman é um contista diferenciado. Ele passa de um assunto a outro como quem está sempre pensando em tudo e com uma boa capacidade para falar sobre qualquer coisa.

O segundo conto, “A vez de Outubro”, mistura fantasia com uma realidade cruel. Quando eu era criança eu pensava como seria se objetos e coisas intangíveis tivessem vida e personalidade e tudo mais. Gaiman faz com que todos os meses se sentem à mesa para contar histórias. É delicado e pesado ao mesmo tempo (dado o teor da história que Outubro conta).

O conto “Pássaro do Sol” foi abandonado. Longo e chato.

É inegável que Gaiman é um escritor criativo e um contista cuidadoso. Ainda assim, não senti aquela empolgação de ler mais do autor depois desse livro. Talvez porque eu não seja uma grande entusiasta de contos. Talvez porque eu precise de mais informações para decidir.