Resenha – Tempo é dinheiro

Só precisei ver que esse livro foi escrito por Lionel Shriver para comprar. Não precisei de indicações, comentários críticos nem nada disso. Depois de ler “Precisamos falar sobre o Kevin” e “O mundo pós aniversário” eu já era fã dela.

O livro aborda o “way of life” norte americano. Shep Knacker é um empresário que veio de uma família humilde e ao começar a fazer pequenos trabalho manuais na vizinhança, ganhou clientes a rodo e abriu um pequeno negócio. A “Knack para toda obra” cresceu e Shep acreditava que estava no caminho para seu sonho: guardar dinheiro o suficiente para aproveitar a velhice em um lugar tranquilo – de preferência em algum país do 3o mundo onde o dinheiro renderia mais. Depois de 22 anos como chefe de si mesmo, Shep vende a empresa por 1 milhão de dólares (quantia que ele achava que acabaria por comprar seu sonho de descanso). Mas os planos não saíram conforme pensado e Shep se tornou empregado de sua ex empresa.

Tudo isso enquanto Glynis, sua esposa, saia e entrava em depressões pesadas. Quando eles se conheceram, Glynis fazia peças de metais para vender e ganhar a vida – ainda que de forma modesta. Quando casaram, Glynis não se preocupava mais em trabalhar já que suas contas estavam pagas e ela podia descansar e criar os filhos. Shep via seu sonho de outra vida cada vez mais distante. Agora, ele trabalha por quatro e a margem de dinheiro guardado ia diminuindo.

Mas não se pode confiar no destino ou na vida, não é mesmo? Glynis explica a Shep que não pode viajar com ele e que eles não podem abandonar tudo: ela precisa do plano de saúde. Glynis descobriu que tem um câncer raro.

Somos apresentados também a Carol e Jackson – amigos do casal com duas filhas problemáticas: a mais velha tem uma doença degenerativa e, aos 16 anos, já começa a definhar. A mais nova é hipocondríaca por acreditar que estar doente é a única maneira de ter atenção dos pais. Jackson trabalha com Shep e é seu melhor amigo. Apesar de um casamento sólido, Carol e Jackson enfrentam alguns problemas típicos de pais que têm um foco de atenção constante nos filhos.

Os capítulos vão se alternando entre a vida de ambos os casais e quando Shep aparece, os capítulos iniciam com o saldo de sua conta. Assim, vamos acompanhando o sumiço de suas finanças à medida que os tratamentos de Glynis começam. Além disso, também aprendemos mais sobre o sistema de saúde norte americano (o livro é uma crítica direta e dura a esse sistema). Quando Obama chegou ao poder, em 2008, um de seus primeiros projetos envolveu a saúde…apesar de ser a terra das oportunidades e dos tênis baratos, uma internação sem convênio poderia custar quase um ano de salário para os desafortunados. (Para saber mais sobre o sistema de saúde norte americano, recomendo o documentário SOS Saúde de Michael Moore que traça um paralelo entre o sistema de saúde dos EUA, da Inglaterra, do Canadá e da França – e, pasmem, os EUA têm um sistema pior e que custa o dobro)

O livro é permeado de comentários ácidos como: “Algum palerma obsequioso foi pago para preencher todos aqueles códigos e ticar os quadrinhos, e despachar cópias para mais cinco lugares. Trinta por cento do dinheiro gasto com a assistência médica neste país vai para a chamada administração. A verdade é que existe toda uma camada de empresas de seguros com fins lucrativos entre a Glynis e os médicos, um bando de parasitas sacanas e gananciosos ganhando dinheiro com a doença dela”. Esse, claro, é Jackson. Shep nunca diria nada do tipo.

Aliás, Jackson também acaba se metendo em um problema insano que não vou detalhar porque a própria autora demora para nos dizer o que é. Então acho que ela quer que você descubra sozinho(a) e não sou eu quem vai estragar isso. ;). De qualquer forma, a família tem mais um problema de saúde – e caro – para cuidar. Mas surpresas sempre acontecem e prepare-se para reviravoltas na história que você certamente não esperava – do tipo que te deixam sem reação por alguns minutos.

O livro, como a maioria do trabalho de Shriver, é escrito de maneira magistral – com pensamentos profundos para cada personagem. Aliás, a construção das personagens é cuidadosa e elas são completas e interessantes por si só. A estrutura do livro é objetiva e ao nos permitir acompanhar as finanças de Shep, a autora nos coloca junto com sua personagem na linha de desespero financeiro sob um sistema de saúde que não funciona. Claro que a nossa conclusão acaba condicionada mas mesmo assim, em alguns pontos, ela nos permite desenvolver uma análise própria de como o sistema de saúde atual trata dos pacientes.

O câncer não é uma das personagens principais mas está ali, atravessando todos os diálogos e trazendo situações ao ponto de ebulição. Além disso, Glynis traduz muito bem uma personagem enfrentando esse tipo de batalha e acompanhamos sua solidão enquanto os amigos somem, a família se esquiva e sua dor aumenta. Aliás, vale iniciar uma reflexão sobre amigos e famílias que começam na lista de “íntimos” e terminam na lista de “não tão íntimos assim” quando uma doença como câncer aparece. Talvez valha pensar sobre quem realmente queremos colocar nessas listas.

Um livro pessoal, sincero, real, triste e simplesmente fantástico. Recomendadíssimo, íssimo!

Resenha – A pirâmide vermelha

Ahh!! Rick Riordan! Há alguns anos atrás uma nova série me viciou – Percy Jackson e os Olimpianos (que sempre considerei uma mistura de Harry Potter com mitologia – duas das minhas coisas preferidas). Puro amor. Li os sete livros da série em menos de um mês.

Muito se fala sobre literatura jovem e os mimimis habituais de que “não tem qualidade” e “desde Harry Potter nada mais é bom”. Eu concordo que o padrão estabelecido por J.K Rowling realmente é alto. E definitivamente, nem todos os livros lançados para um público jovem tem a qualidade das histórias que ela criou para o jovem bruxo. Ainda assim, conheço pessoas que gostam mais de Percy Jackson do que de Harry Potter. No fundo, se esses livros afetarem os jovens como me afetaram aos 14 anos, tudo certo. Pode publicar. (Menos Crepúsculo. Crepúsculo NÃO!)

Depois do sucesso de Percy Jackson, Rick Riordan nos apresenta “As crônicas dos Kane”. O estilo, formato, fórmula são os mesmos. Só que agora ao invés de seres mitológicos estamos tratando de Deuses Egípcios (weeeeeeeee).

Os Kane são Carter e Sadie, dois irmãos que perderam a mãe muito cedo e foram criados separados. Sadie cresceu uma criança normal morando com seus avós em Londres e Carter cresceu seguindo o pai em suas escavações mundo afora – seu pai era um egiptólogo (que deve ser um dos empregos mais sensacionais do mundo). Esse é um ponto importante da história porque Riordan já mostra que tem um espaço grande para desenvolvimento dos personagens. Sadie só vê seu pai duas vezes por ano e quando finalmente ele aparece para vê-la, os irmãos testemunham o desaparecimento do pai de uma forma bem bizarra.

Vão morar com seu tio – Amos (que é um belo tonto) – e começam a aprender mais sobre suas origens e descobrem que seus pais foram magos poderosos que lutavam contra os Deuses Egípcios – que são do mal (o que é interessante, se pararmos para pensar que cada Deus cuidava de uma coisa – dos gatos, do sol, da terra, do mar e etc. Alguns queriam poder e outros queriam só cuidar de suas vidas. É invevitável quando se tem tantos Deuses que algum deles acabe tramando para derrubar os demais. Me pergunto se é por isso que hoje temos apenas um…mas eu divago…).

A premissa não é original, mas Riordan consegue transformar algo simples em uma história eletrizante. Em uma noite, li 80 páginas sem nem perceber. A leitura flui bem e cada capítulo vai acrescentando componentes e personagens estranhos que deixam a leitura mais divertida. (Por exemplo, um jacaré albino que adora bacon ou um babuíno que só come coisas que terminem com a letra o).

Os capítulos vão se alternando entre a visão de Carter e a visão de Sadie que precisam, agora, aprender a dominar poderes que eles nem sabiam que tinham para evitarem uma catástrofe porque o pai deles libertou cinco Deuses da Pedra de Roseta que precisam ser detidos porque um deles em particular – Set – quer liberar um caos completo na América do Norte e, possivelmente, no mundo.

Aos poucos, vamos conhecendo mais sobre a história egípcia, Deuses secundários, seus poderes, aprendemos mais sobre os magos e quais são seus reais poderes. É muito interessante como Riordan incorpora na história esses Deuses menores enquanto ensina mais sobre cada um. Mais ainda, como ele incorpora a História na história (eu realmente espero que vocês tenham entendido essa porque demorei dois dias para bolar) e dá vida não apenas a entidade mitológicas como também amplia o enredo de pouco em pouco.

O melhor é que, apesar do tom sobrenatural que o enredo pode tomar, Riordan criou Deuses com características humanas e muitas vezes engraçadas o que pode tornar a leitura muito mais agradável do que ler sobre seres perfeitos o tempo todo. O livro tem ação o suficiente para te mandar interessado e curioso o tempo todo e vai revelando aos poucos a trama total.

Sadie e Carter são obrigados a amadurecer mais rápido e a tomarem conta um do outro, desenvolvendo um senso de família que eles não tinham antes. A forma como isso é descrito por Riordan pode não ser original mas é inteligente e se adapta bem à trama.

A minha única ressalva é um erro bem crasso: “Com seu último encantamento, me prendeu-me à serpente.” Tenso. Mas foi o único que encontrei no livro todo.

Fora isso, a Intrínseca fez um ótimo trabalho com a edição mantendo a capa original e a qualidade é indiscutível. Se você está tentando estimular um jovem (vamos dizer…de uns 12 anos) a ler e quer uma opção além de Harry Potter, recomendo checar os livros de Riordan. Eles tratam de assuntos que possivelmente eles estudarão na escola (mitologia grega, história egípcia e etc) e pode estimular a curiosidade por essas civilizações. Mas além disso, se você procura um livro divertido para ler depois de Jane Austen ou algum russo intenso, os livros de Riordan também são uma boa pedida.

Resenha – Religião para ateus

Tratar de religião ou a ausência dela é complicado. O assunto é espinhoso. Quem acredita, defende suas crenças com unhas e dentes e quem não acredita, desconsidera tudo o que uma religião apresenta. Alain de Botton tenta fugir desses dois tipos de conclusão e parte para o debate nos pedindo a mente aberta. Não há outra maneira de falar seriamente sobre o assunto e muito menos debater sobre o tema.

“As religiões merecem nossa atenção pela sua absoluta ambição conceitual, por mudarem o mundo de uma maneira que poucas instituições seculares fizeram.”

Alain é filho de judeus que se tornaram ateus tratando a religião com desconfiança e ensinando seus filhos que religião é igual a acreditar em Papai Noel – por um tempo é razoável mas levar isso para a vida faz você parecer ridículo. Seu pai era um bancário que morreu e deixou um fundo de USD 300 milhões para ele e sua irmã. Outra questão interessante é que Alain se auto intitula um autor de auto-ajuda – gênero renegado por muitos leitores e autores.

Mas vamos em frente (tentando com todas as forças não pensar em Paulo Coelho).

O livro é dividido em 10 capítulos abordando o tema sob diversos pontos de vista: sabedoria sem doutrina, comunidade, gentileza, educação, ternura, pessimismo, perspectiva, arte, arquitetura e instituições.

Quanto a comunidade, por exemplo, Alain explica que hoje temos cidades monumentais com tanta gente que o senso de comunidade é estendido – talvez – ao seu vizinho. E só. A verdade é que o senso de comunidade está sumindo e cultivamos uma cultura cada vez mais “cada um por si”. Comunidade, no entanto, é a base de qualquer religião. Quando você participa de uma missa, deve sentir que está ali com um grupo de pessoas iguais a você. Ali, não importa seu cargo, a promoção que você não teve, se você é estéril, impotente, se você tem um casamento infeliz, se seus filhos são horríveis e etc. Nada disso importa porque a oração é a mesma e o senso de comunidade se instala naturalmente.

No capítulo sobre educação, Alain nos explica que há muito a se aprender com as escrituras sagradas. Não apenas sobre História, mas também, na maneira como a religião ensina seus discípulos. A verdade é que aquele que lê a Biblia a conhece quase de trás para frente, memorizando passagens e relendo partes importantes quase sempre. Mas para os não-adoradores, a educação e leitura funcionam de uma maneira diferente. “Nós nos sentimos culpados por tudo o que ainda não lemos, mas deixamos de notar que já lemos muito mais do que Agostinho e Dante, ignorando, desse modo, que o problema está sem dúvida em nossa maneira de assimilar, não na extensão de nosso consumo.”

O capítulo sobre ternura é um tédio só. Debater o apego das pessoas à religião é fácil. Na verdade, a maioria das pessoas se apega à religião por causa de um desespero – às vezes sutil, às vezes escancarado. Então recomendo nem dar muita atenção a esse capítulo que tem um tom auto-ajuda além do normal – e não do jeito bom. Além disso, Alain começa o capítulo com uma “cena” (um homem senta em uma Igreja e bla bla bla) o que é muito diferente do resto do livro.

O livro é permeado de fotos fazendo com que a leitura de um tema pesado se torne um pouco mais leve – apesar de uma foto da Madonna e do Guy Ritchie aparecer também (totalmente desnecessário). O que me fez pensar o quão pop Alain quer ser. (A Revista Época da semana do dia 03 de Setembro – que tem Alain na capa – ajuda a responder um pouco isso: EXTREMAMENTE POP).

Mas vamos em frente novamente.

Acredito que os dois melhores capítulos são Pessimismo e Perspectiva. A verdade é que meu interesse por religiões sempre foi entender como ela funciona – algo que nunca consegui entender de verdade. A questão do pessimismo envolve muito do que cheguei, inclusive, a estudar em ciências políticas – veja só. Um povo que é otimista em sua relação com o Ser Supremo, tende a esperar que coisas boas aconteçam. Tende a fazer o mínimo possível pois há uma recompensa em algum lugar – é o idoso que não toma remédio porque Deus cura, são os pais que não usam contraceptivos porque “seja o que Deus quiser”. Esse otimisto religioso acaba impactando diretamente a cultura e, por fim, a economia.

Não vou entrar a fundo nisso mas há historiadores que acreditam que o resultado econômico das colônias das Américas são desnivelados por um motivo diferente daquele que você aprende na escola. Você deve ter aprendido – quando ainda não podia argumentar – que Estados Unidos e Canadá prosperaram porque foram colônias de povoamento. Os colonos tinham que desenvolver a terra para viver ali. E as colônias do México para baixo, foram colônias de exploração – onde os colonos não se importavam muito com a estrutura em si. Mas isso não é bem verdade. Em essência, a maior diferença entre esses colônias era a religião – porque muitos nativos portugueses e espanhóis vieram morar nas colônias. Os protestantes acreditavam que eles tinham que fazer sua vida dar certo, Deus não dá nada de graça e recompensa os que trabalham. Os católicos, por sua vez, cobravam pelo céu, diziam que era pecado guardar dinheiro e desejar mais do que de tem (avareza). Então aqui está o impacto direto da religião no desenvolvimento econômico.

E perspectiva, nada mais é do que entender que Deus existe para cada um de um jeito diferente. Simples assim. Pode não ser o mesmo, com os mesmos poderes mas com certeza está ali de alguma forma. (O meu é mais parecido com o Batman , por exemplo).

Os capítulos sobre arte e arquitetura são os mais similares a um livro de auto-ajuda do que o resto. Alain aborda a importância da beleza ao nosso redor para nos tornar pessoas melhores e muitos outros mimimis que não vou repetir ou comentar.

A questão central do livro não é SE Deus existe, e sim – para os ateus e aqueles em dúvida – POR QUE o homem sente a necessidade de inventá-lo e reinventá-lo o tempo todo?

O livro é interesse para aqueles que gostam de debater e pesquisar o assunto. A estrutura de capítulos temáticos facilita a leitura e a ordem dos temas flui nauturalmente. Acho que é uma leitura muito válida para quem tem interesse nos mistérios da fé mas ainda não tem certeza de qual caminho seguir. Não espere respostas prontas. O livro talvez aumente suas dúvidas, mas se isso já fizer com que você pense em religião de uma maneira mais aberta, já valeu a leitura.

Resenha – A culpa é das estrelas

Eu sabia de “A culpa é das estrelas” antes do livro sair. Há algum tempo já acompanho o vlog de John Green e seu irmão Hank – o vlogbrothers. Nesse canal – que existe há 5 anos mais ou menos – os dois falam de tudo que se possa imaginar. Eles têm outros canais no youtube sobre diversos assuntos mas esse é a base. É um canal engraçado que celebra o nerdismo. Não é uma surpresa, portanto, que a linguagem do livro seja informal e o seu público seja formado essencialmente de adolescentes e jovens adultos (no qual eu me enquadro e vou me enquadrar até os 35 anos – mais ou menos).

Green leu os primeiros dois capítulos do livro antes dele sair e mostrou a capa aos seus seguidores antes da impressão oficial. Os nerdfighters (termo que denomina os seguidores dos irmãos Green) acompanham o processo do livro de uma form diferente. Inclusive, o título do livro vem de uma nerdfighter.

Esse é o quarto livro de Green e aborda um assunto delicado: câncer. Mas mais do que isso, o cancêr em jovens que nem completaram 18 anos ainda. Green teve seu primeiro emprego em um hospital para crianças com câncer. Então a pesquisa do livro é impecável. Mas não é isso que mais chama a atenção nesse livro.

A história é narrada por Hazel Grace que tem um câncer terminal na tiróide que já chegou aos pulmões. Hazel é uma jovem engraçada apesar de sua situação. Ela tem uma leveza que talvez só um homem pudesse dar. Digo isso porque as duas últimas heroínas da literatura jovem – Bella e Katniss – são bem chatinhas e ambas foram escritas por mulheres (até Hermione chega a ser chatinha de vez em quando). Hazel não vive da pena de si mesma e se permite pensar no câncer como apenas um problema e não seu único problema. Isso faz toda a diferença.

Hazel frequenta um grupo de apoio e ali conhece Augustus e, claro, eles se apaixonam. Mas não pense que você vai encontrar um triângulo amoroso impossível e insonso. Não, não. Green conduz a história dos dois como se o câncer fosse um companheiro de viagem. Eles têm um amor adolescente como o de qualquer um apesar de terem certos cuidados específicos. E nada disso soa estranho porque se você achar que câncer é um assunto muito sério para misturar com amor adolescente, você está morto por dentro.

Hazel e Augustus dividem uma paixão pelo livro “Uma aflição imperial” de um autor recluso na Holanda. O livro é uma Bíblia para Hazel e ela tem uma insana vontade de saber a continuação da história. Isso faz com que os dois troquem emails com o autor e criem um vínculo ainda maior entre si. Essas são as passagens mais adultas e sérias do livro…Green se utiliza de outro autor para nos dizer tudo o que ele quer mas que a literatura jovem não permite – como citar poemas shakesperianos. Isso faz com que o livro tenha mais conteúdo do que se imagina à primeira vista. É uma excelente idéia para amarrar a história e dizer o que ele quer dizer.

Os personagens são bem desenvolvidos mas nenhum mais do que Hazel. Isso faz com que o livro seja sobre  a história de duas pessoas que querem deixar sua marca no mundo e  fazer o que sonham e não a história do câncer de cada um deles. Elas só têm cancêr mas isso não define muito. Atrapalha algumas atividades, claro, mas não é esse o ponto do livro.

A verdade é que os dois vivem como se cada dia fosse o último porque, para eles, essa é uma realidade à flor da pele. O problema é que isso é verdade para todos , a gente só não tem indícios de como o fim pode ser. Hazel e Augustus têm uma boa idéia do final de cada um. Isso torna a história mais triste mas também mais sincera.

Green foge daqueles clichês de que todos os que estão no fim da vida desenvolvem, repentinamente, uma sabedoria excepcional sobre o mundo e tudo o que dizem são basicamente lições de moral – simplesmente porque ninguém aos 17 anos teria todas as respostas do mundo só por terem câncer. Sabedoria de vida vem com anos vividos e não com doenças terminais. Diferenciar isso é o maior trunfo de Green.

Resenha – Precisamos falar sobre Kevin

Ano passado, passeando por uma de minhas livrarias preferidas, me deparei com uma capa pertubadora. Comprei o livro sem entender bem sobre o que era, mas com uma sensação de que eu estaria lendo algo forte. Eu estava certa.

Precisamos falar sobre o Kevin é o conjunto de cartas que Eva Katchadourian escreve para o ex marido. São cartas sinceras, beirando o doentio, onde ela confessa coisas que nunca teve coragem de falar. Tudo aquilo que a maioria de nós guarda no lugar mais profundo e horrível de nossas cabeças.

Através das cartas, conhecemos mais sobre Eva, seus desejos e sua história de vida. A pessoa que ela se tornou é tão diferente de quem ela queria ser que acredito que Eva é uma das personagens mais trágicas sobre as quais já li. Ela casa, se sente feliz e se prepara para seguir a vida como uma mulher completa. Mas nada disso lhe é permitido.

Ao engravidar, ela abre mão de quase tudo aquilo que sonhou para ser mãe. Ela toma essa decisão mais pela convenção da época (que mulher NÃO quer ser mãe? ¬¬) do que por vontade própria. Ela não queria engravidar. Ao invés de se identificar com o filho, ela fisicamente tentou impedir que ele nascesse, “segurando” o bebê e estabelecendo naquele momento o que ela acredita ser uma relação de amor e ódio com o primogênito. Como mulher, posso dizer que ler essa cena foi pesado. Kevin nasce de uma maneira cruel e rasgando mais do que o corpo, a vida de sua mãe.

Kevin é uma criança problemática em todos os sentidos. Desde cedo ele demonstra sinais de egoísmo exagerado, sociopatia e manipulação descarada. Ele faz questão de destruir apenas o que Eva deixa claro que é importante para ela testando Eva até o limite. Sua presença nas cartas é forte e assustadora.

Apesar de Eva  ter certeza de que Kevin a odeia, é difícil saber se isso é verdade já que as cartas são narradas de sua perspectiva. Ainda assim, o poder da linguagem de Lionel Shriver é certeiro. Ela consegue te transportar para a situação fazendo você ver a cena mas, mais do que isso, sentir a cena.

As cartas vão construindo a vida de Eva após o momento mais forte de sua vida: aquele em que filho se torna um monstro. Eva está tentando se reerguer depois que Kevin assassinou nove pessoas na sua escola de uma das maneiras mais terríveis possível. Ela foge dos pais das vítimas desesperadamente e evita contato até com pessoas desconhecidas. Ela se isola e é isolada pela sociedade que a culpa pelas ações de Kevin. Se o menino fez tudo isso, claramente ele teve uma péssima criação – é o que pensa a maioria das pessoas – a culpa só pode ser dos pais. Mas o livro vai além, a culpa não é dos  pais, a culpada é a mãe. Eva recebe, sozinha, todo o baque do desprezo da sociedade. Pode ser por machismo acomodado, pode ser porque Kevin não tenha lhe deixado alternativa…ela se torna uma das maiores vítimas de seu filho.

Há alguns anos assisti “Tiros em Columbine” de Michael Moore. O documentário fala sobre dois meninos da cidade de Columbine que decidiram pegar as armas dos pais, entrar na escola, e saírem atirando a esmo. Enquanto o povo enojado e assustado culpava os pais, Moore tentou demonstrar que a violência presente diariamente na vida social e a disponibilidade de armas seriam os maiores culpados. Mas ninguém se solidarizou com os pais desses meninos.

Sempre me perguntei o que se passaria na cabeça desses pais, como seria a vida deles após verem seus filhos se tornarem o símbolo de uma juventude quebrada, violenta e cheia de ódio.  Lionel Shriver parte justamente desse ponto. Ela mostra uma mãe que se vê presa pelo que seu filho fez, pelo desdém que ele parece nutrir por ela, pela destruição que ele causou e pelo julgamento das pessoas que parece confirmar o que ela sempre achou: que ela foi uma péssima mãe. A culpa de ver seu papel no que Kevin fez, destrói o que restava de Eva.

O livro todo é um soco no estômago atrás do outro enquanto acompanhamos a vida de uma pessoa que beira a sobrevivência.

Ela sempre visita Kevin na prisão e a cada visita percebemos a mudança de relacionamento entre os dois. É como se esse fosse o ato de penitência de Eva. No início, Kevin parece sentir prazer na dor que causou mas, aos poucos, ele vai se dado conta dos resultados de sua atitude. De maneira nenhuma é possível pensar em Kevin como uma criança…Eva deixa claro que nem ela parece vê-lo dessa forma. Ainda assim, à medida que ela se dá conta de que nada mudará o fato de que ele é seu filho, que eles estão ligados por uma força que nenhum dos dois vai conseguir quebrar – apesar de tentarem -, ela parece encontrar o instinto maternal que estava ausente até então.

É incrível, mas Eva parece se tornar mãe de verdade apenas quando seu filho faz o impensável e precisa dela mais do que nunca – ainda que Kevin nunca diga isso, ainda que ele ria dela, ainda que ele se divirta com o desespero calado no qual ela vive constantemente. A história toda é difícil de resumir mas Lionel Shriver tem um talento inegável para conduzir o leitor através de um drama forte. Utilizando-se de um lado da história que nunca foi contado, ela faz com que nossos próprios preconceitos sejam questionados levantando o debate sobre culpabilidade e  julgamentos pré concebidos.

Além disso, Eva pode simbolizar qualquer tipo de figura nos primórdios da humanidade. Considerando que Eva – para alguns – é a mãe da raça humana, o que ela pensaria se visse hoje o que nos tornamos? Será que não somos todos, em algum sentido, assassinos em série? Ou será que não somos todos, de alguma forma, mentirosos patológicos e manipuladores?

O filme é bom mas não conseguiu traduzir a intensidade do livro. Por ser uma narrativa em cartas, as palavras têm uma força descomunal e a ausência delas mais ainda – infelizmente, não acredito que o filme tenha conseguido captar isso totalmente.

Precisamos falar sobre o Kevin é um livro, na falta de uma palavra melhor, visceral. Ele incomoda e faz chorar, se arrepender, repensar e se chocar em todos os momentos certos inspirado por uma triste realidade de crianças que matam crianças e pais que são considerados culpados sem um julgamento.