Resenha – Game Change

Game Change – Virada de Jogo (que deveria entrar para a lista de piores traduções de títulos de filmes), conta a história da corrida Presidencial de 2008 nos Estados Unidos. A eleição de Barack Obama foi histórica mas levantou também um lado da política estadunidense que, acredito, políticos clássicos não sintam orgulho.

O filme foi produzido pela HBO que anualmente lança projetos ousados e fora da curva. O roteiro é bom, as atuações são excelentes mas a maquiagem é fenomenal! Julianne Moore está igualzinha a Sarah Palin. (A Sarah real é a da esquerda).

Mas essencialmente, o que vale a pena nesse filme é entender as mudanças na escolha de um Presidente que acometeram os Estados Unidos nos últimos 20 anos. Nas últimas eleições, o papel da mídia mudou. A facilidade de acesso na informação exigiu que os candidatos participassem mais de debates diretos com a população. Barack Obama mandava emails semanais para os que se inscreviam em seu site, pedindo fundos e esclarecendo questões sobre seu futuro governo. Ele foi o candidato 2.0.

Mas não apenas isso, os eleitores mudaram. No país de Hollywood, um candidato não pode ser um tédio. Os debates são grandiosos. As guerras são grandiosas. Os programas de comédia política se divertem – e nos divertem – com comentários maldosos sobre os candidatos. O fator “estrela” se torna essencial. E mais do que isso, se torna o ponto principal.

John McCain – que concorria pelo partido republicano contra Barack Obama – não tinha nenhum tipo de qualidade de estrela. Um ex combatente da Guerra do Vietnã que chegou a ser capturado e torturado, ele falava de maneira incisiva, se preocupava com a imagem do partido, e já era Senador pelo Estado de Arizona (um dos mais conservadores do país) desde 1987. Ele representava o antigo Estados Unidos enquanto Barack Obama representava o novo país. Ou foi isso que as respectivas campanhas gostariam que acreditássemos.

O filme mostra a estratégia desenhada pela equipe de McCain nesse contexto novo e pouco explorado. Game change nos permite uma visão clara e objetiva da transformação de Sarah Palin em uma candidata à Vice Presidência dos EUA através de cenas de bastidores.

Sarah Palin era Governadora do Alaska, havia sido indiciada (e durante a campanha foi condenada) por abuso de poder e não entendia NADA de política externa (e pelas suas recentes entrevistas, ainda entende muito pouco). Ela não conhecia a história da Segunda Guerra Mundial, não sabia dos problemas enfrentados pelo próprio País no Oriente Médio e não conseguia fazer distinção entre a Guerra no Iraque e a Guerra no Afeganistão. Ela acreditava que Saddam Hussein estava por trás dos ataques de 11 de Setembro.

Considerando que McCain já era um idoso (tinha 76 anos em 2008), as chances dela se tornar efetivamente a Presidente do país, eram mais altas do que o normal. A seu favor, Palin tinha o carisma. Ela falava com as donas de casa como igual e a grande parcela da população que também não entendia nada de política externa – impressionante para um país que acha que lidera o mundo – acreditaram que ela os representaria. A maioria das pessoas não sabe a diferença entre as Guerras que os Estados Unidos lutam atualmente. Mas a maioria das pessoas não está concorrendo à vice Presidência do país.

Palin se tornou maior que McCain – um sintoma de que o eleitorado americano está mais dividido do que se imaginava.

Em geral, a corrida presidencial de 2008 foi uma piada. As táticas de ataque da equipe de McCain saem pela culatra e o eleitorado começa a acreditar em coisas como “Obama é muçulmano, Obama não é americano, Obama é a favor de terroristas”. Sarah Palin falou coisas que não se podia provar e que não foram aprovadas pela equipe. Quando McCain tentou corrigir esse erro, já é tarde demais. Até hoje, grande parte da população dos Estados Unidos acredita nessas características de Obama.

O filme nos faz perguntar o que as pessoas procuram em um candidato para liderar seu país. É a qualidade “estrela” ou a aptidão e os conhecimentos necessários para se sentar na mesma mesa que os líderes mundiais?

Lembro até hoje de receber emails durante a campanha das nossas eleições em 2010 dizendo que Dilma não tinha nacionalidade brasileira. “Ela não pode ser eleita porque não é brasileira”, as pessoas mal se deram ao trabalho de pesquisar isso a fundo. A nossa sorte é que o fator “estrela” – que Lula tinha – nem sempre é um fator para se tornar elegível no Brasil. FHC não tinha muito e Dilma tem quase nada.

Para quem gosta desses debates e dos bastidores de cenas políticas, esse filme será interessante. Mais do que isso, ele pode ser um indicativo da corrida presidencial desse ano nos Estados Unidos e dos caminhos que o país está tomando desde a era Bush. Recomendado!