Resenha – Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury é um clássico das distopias. Bradbury criou um mundo que a princípio parece impensável mas aos poucos vamos percebendo o quão próximo estamos de algumas de algumas situações descritas.

Bradbury nos apresenta Montag – um orgulhoso bombeiro. No livro, a ordem natural foi  invertida e os bombeiros ao invés de apagarem incêndios – eles os começam. As casas são a prova de fogo e os livros são inimigos e devem ser queimados – o Governo defende a idéia dizendo que os livros atrapalham os pensamentos e a felicidade dos cidadãos de bem. É como se as estruturas fossem invertidas e a polícia ao invés de defender a população, existisse para matar (o que eles julgam ser) os maus elementos (oh!! espere aí….)

Apesar de publicado na década de 50, o livro retrata um mundo a partir de 1990 – ou seja, o que conhecemos hoje. Um mundo na ficção com pessoas alienadas que falavam apenas de “marcas de carros ou roupas ou piscinas.” (oh!!! espere aí…) O fato é que uma vida sem livros deixou as pessoas sem base para criar idéias, sem assuntos para conversas, sem motivos para interagirem.

O livro é dividido em partes. A primeira parte é sobre o despertar da consciência de Montag que ao conhecer sua nova vizinha Clarisse – que pegunta coisas que faz com que as pessoas pensem – se assusta por ser algo incomum (perguntar e pensar). Clarisse some tão rápido como apareceu, mas ao abrir os olhos para essa superficialidade, Montag começa a perceber outros pontos horríveis da realidade em que vive. As pessoas e os animais se tornaram máquinas (quase literalmente – a mulher dele sofre uma overdose de remédio para dormir e os paramédicos trocam o sangue dela. Na própria cama. Enquanto ele vê. Simples assim…).

Mas o ápice dessa parte é a cena que leva a uma conversa sincera (até demais) entre Montag e seu Capitão:  ao checarem uma denúncia anônima, os bombeiros descobrem uma senhora que guardava diversos livros e prefere morrer queimada com seus livros do que se entregar para a polícia. Montag não apenas pega um livro escondido como se sente muito mal com a decisão da senhora e tenta ajudá-la (duas coisas proibidas). Na manhã seguinte, ele acorda fisicamente doente e decide que vai abandonar o emprego.

O Capitão Beatty vem procurá-lo e faz um dos melhores discursos que já vi em um livro. Tive dificuldades em achar uma única parte para colocar como amostra grátis mas vamos com essa: “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias, as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

É nessa primeira parte que também percebemos algo terrível: o Governo pode ter facilitado mas foram AS PESSOAS que decidiram deixar de ler. Foram as pessoas, ao longo dos anos, que foram deixando os livros de lado e dando mais valor para a programação na tv. A tv – nessa nova realidade – é embutida na parede e as pessoas a chamam de “família” mas mal conversam entre si.

Enquanto você recupera o ar, a segunda parte começa com força total.

O fato é que Montag está farto de não saber nada. Então, ele decide revelar para sua esposa um segredo que poderia acabar com ambos: Montag tem roubado livros há algum tempo e já acumulou uns 20 – inclusive uma Bíblia (livro totalmente proibido). E agora, Montag quer entender o que tem ali só que apesar de ler e reler as passagens ele não consegue entender o significado de nada – porque pensar não é um exercício fácil.

A saída é procurar ajuda. Montag se recorda de Faber – um ex professor que agora está (óbvio) desempregado – e pede que o ajude a copiar os livros e garantir que outras pessoas os leiam. Pede, também, que o professor o ajude a entender. Simples assim. A segunda parte do livro é sobre Montag assumindo sua identidade duplas mas percebendo que não se pode fugir para sempre das garras do Governo.

Na terceira parte, estou tentando ao máximo não contar spoilers, Montag encontra um grupo de homens que vivem à margem da sociedade – são ex professores, filósofos, estudiosos que perderam qualquer tipo de função nessa sociedade hiper regrada e não pensante. Mas a forma que eles escolheram de honrar suas devidas profissões foi memorizando livros que consideram importantes. Cada um memorizou um livro e Montag percebe que há muitos outros como eles. Para salvar os pensamentos, as idéias, essas pessoas se tornaram portadores e contadores de histórias.

Eu fechei o livro e instantaneamente ele se tornou um dos meus preferidos. A escrita é excelente, clara e objetiva e até mesmo as partes mais descritivas – que costumam ser um pouco chatinhas – demonstram um certo talento de Bradbury para envolver o leitor. O conceito da história podia parecer absurdo em 1953 – a ponto de ser classificado como ficção científica – mas hoje, não acredito que isso esteja tão distante, lamentavelmente. No livro, o constante pavor do silêncio levou a população a manter a tv ligada e o cérebro plugado na programação. É como hoje onde quase tudo que existe para nos conectar também acaba nos distraindo do mais importante: pensar e analisar o tanto de informação que temos.

Outra coisa interessante é que o livro é dividido em 3 partes mas não segue a estrutura de um livro comum. Exemplo, em qualquer livro você tem muita descrição no começo, para que possamos imaginar as cenas e as personagens. Mas em Fahrenheit 451, a descrição fica quase toda no final. É como se à medida que Montag abre seus olhos, ele começa a VER as coisas de verdade e nós também. Uma bela construção para uma bela história triste.

Resenha – A pirâmide vermelha

Ahh!! Rick Riordan! Há alguns anos atrás uma nova série me viciou – Percy Jackson e os Olimpianos (que sempre considerei uma mistura de Harry Potter com mitologia – duas das minhas coisas preferidas). Puro amor. Li os sete livros da série em menos de um mês.

Muito se fala sobre literatura jovem e os mimimis habituais de que “não tem qualidade” e “desde Harry Potter nada mais é bom”. Eu concordo que o padrão estabelecido por J.K Rowling realmente é alto. E definitivamente, nem todos os livros lançados para um público jovem tem a qualidade das histórias que ela criou para o jovem bruxo. Ainda assim, conheço pessoas que gostam mais de Percy Jackson do que de Harry Potter. No fundo, se esses livros afetarem os jovens como me afetaram aos 14 anos, tudo certo. Pode publicar. (Menos Crepúsculo. Crepúsculo NÃO!)

Depois do sucesso de Percy Jackson, Rick Riordan nos apresenta “As crônicas dos Kane”. O estilo, formato, fórmula são os mesmos. Só que agora ao invés de seres mitológicos estamos tratando de Deuses Egípcios (weeeeeeeee).

Os Kane são Carter e Sadie, dois irmãos que perderam a mãe muito cedo e foram criados separados. Sadie cresceu uma criança normal morando com seus avós em Londres e Carter cresceu seguindo o pai em suas escavações mundo afora – seu pai era um egiptólogo (que deve ser um dos empregos mais sensacionais do mundo). Esse é um ponto importante da história porque Riordan já mostra que tem um espaço grande para desenvolvimento dos personagens. Sadie só vê seu pai duas vezes por ano e quando finalmente ele aparece para vê-la, os irmãos testemunham o desaparecimento do pai de uma forma bem bizarra.

Vão morar com seu tio – Amos (que é um belo tonto) – e começam a aprender mais sobre suas origens e descobrem que seus pais foram magos poderosos que lutavam contra os Deuses Egípcios – que são do mal (o que é interessante, se pararmos para pensar que cada Deus cuidava de uma coisa – dos gatos, do sol, da terra, do mar e etc. Alguns queriam poder e outros queriam só cuidar de suas vidas. É invevitável quando se tem tantos Deuses que algum deles acabe tramando para derrubar os demais. Me pergunto se é por isso que hoje temos apenas um…mas eu divago…).

A premissa não é original, mas Riordan consegue transformar algo simples em uma história eletrizante. Em uma noite, li 80 páginas sem nem perceber. A leitura flui bem e cada capítulo vai acrescentando componentes e personagens estranhos que deixam a leitura mais divertida. (Por exemplo, um jacaré albino que adora bacon ou um babuíno que só come coisas que terminem com a letra o).

Os capítulos vão se alternando entre a visão de Carter e a visão de Sadie que precisam, agora, aprender a dominar poderes que eles nem sabiam que tinham para evitarem uma catástrofe porque o pai deles libertou cinco Deuses da Pedra de Roseta que precisam ser detidos porque um deles em particular – Set – quer liberar um caos completo na América do Norte e, possivelmente, no mundo.

Aos poucos, vamos conhecendo mais sobre a história egípcia, Deuses secundários, seus poderes, aprendemos mais sobre os magos e quais são seus reais poderes. É muito interessante como Riordan incorpora na história esses Deuses menores enquanto ensina mais sobre cada um. Mais ainda, como ele incorpora a História na história (eu realmente espero que vocês tenham entendido essa porque demorei dois dias para bolar) e dá vida não apenas a entidade mitológicas como também amplia o enredo de pouco em pouco.

O melhor é que, apesar do tom sobrenatural que o enredo pode tomar, Riordan criou Deuses com características humanas e muitas vezes engraçadas o que pode tornar a leitura muito mais agradável do que ler sobre seres perfeitos o tempo todo. O livro tem ação o suficiente para te mandar interessado e curioso o tempo todo e vai revelando aos poucos a trama total.

Sadie e Carter são obrigados a amadurecer mais rápido e a tomarem conta um do outro, desenvolvendo um senso de família que eles não tinham antes. A forma como isso é descrito por Riordan pode não ser original mas é inteligente e se adapta bem à trama.

A minha única ressalva é um erro bem crasso: “Com seu último encantamento, me prendeu-me à serpente.” Tenso. Mas foi o único que encontrei no livro todo.

Fora isso, a Intrínseca fez um ótimo trabalho com a edição mantendo a capa original e a qualidade é indiscutível. Se você está tentando estimular um jovem (vamos dizer…de uns 12 anos) a ler e quer uma opção além de Harry Potter, recomendo checar os livros de Riordan. Eles tratam de assuntos que possivelmente eles estudarão na escola (mitologia grega, história egípcia e etc) e pode estimular a curiosidade por essas civilizações. Mas além disso, se você procura um livro divertido para ler depois de Jane Austen ou algum russo intenso, os livros de Riordan também são uma boa pedida.

Resenha – A lista negra

Valerie é uma jovem estudante que enfrenta alguns problemas na escola e em casa. Seus pais brigam o tempo todo e na escola ela sofre com apelidos e tudo aquilo que consiste em bullying.

A história já começa com a notícia que saiu no jornal sobre o terrível tiroteio que ocorreu na escola em Garvin – pequena cidade com mansões e pessoas ricas. Nick Levin entrou na escola, escolheu seus alvos e saiu atirando. Alguns capítulos começam todos com partes da mesma notícia em que conhecemos novas vítimas. Além disso, os capítulos vão se alternando entre a o dia do tiroteio e a vida de Valerie depois. O que tira um pouco das surpresas que o livro poderia ter.

Valerie foi baleada na perna e enfrenta sua consciência por dois motivos lamentáveis: 1 – Nick era seu namorado e 2 – juntos, eles criaram uma lista de pessoas e coisas que odiavam. Aparentemente, era essa lista que Nick seguiu para escolher as vítimas. A polícia já havia descoberto o caderno e agora Valerie enfrentava a suspeita de que talvez, ela tenha sido cúmplice no tiroteio.

Ela é a típica adolescente apaixonada. Ela não acredita que Nick é uma pessoa má ainda que quase tudo aponte para isso, ela usa como email o nome dele e o dela, ela choraminga para ele sempre que alguém é mal com ela…enfim, a adolescente chatinha e dependente. Mas isso muda à medida que ela começa a entender o que Nick fez e como ela está implicada na situação. A verdade é que as coisas mudam mas não muito depois do tiroteio. Os amigos de Valerie a evitam, algumas pessoas que não gostavam dela, agora gostam menos ainda e seus pais ainda não conseguem se entender mas também se recusam a encarar um divórcio – e dá-le terapia.

Algumas passagens do livro são realmente tristes e pesadas e como o livro é narrado em primeira pessoa, temos uma visão completa de tudo o que Valeria tem que passar para superar não apenas a tragédia mas seus próprios sentimentos de culpa. Nesse meio tempo, ela também precisa lidar com as mudanças na vida daqueles ao seu redor.

O livro é bem escrito e tem conteúdo para suas páginas. O desenvolvimento da história é bom e Valerie é uma personagem que consegue transmitir todas as sensações necessárias nos momentos certos, elevandos passagens que poderiam ser simples parágrafos a momentos emocionantes. É basicamente a história do amadurecimento de Valerie depois que algo muito ruim acontece. Ela aprende a olhar as pessoas como elas realmente são e finalmente começa a entender que ninguém uma coisa só. Do mesmo jeito que ela é vítima e heroína, as pessoas que a “maltratavam” são filhas, amigas, boas alunas e etc. É um belo avanço.

Hey, eu conheço gente aos 30 que ainda não consegue pensar assim.

Resenha – Tormenta

Seguimos com o 2º livro da série “Fallen” e posso dizer, tranquilamente, que é perceptível uma evolução na narrativa. A autora já escreve esse livro com mais facilidade e os personagens parecem mais críveis, mais imperfeitos até e mais humanos, mesmo com toda parte angelical que envolve o enredo.

Luce está em uma escola diferente, rodeada de pessoas especificamente diferentes, e com seu amor eterno longe. Sua vida é regada e pontuada por acontecimentos sobrenaturais agora, o envolvimento direto e sem encobrimento com seres de outra espécie (já que ela estuda com “Nefilins – descendentes de anjos”), fazem parte de seu cotidiano, mas as infinitas perguntas continuam a tomar conta de sua curiosidade (nesse livro tais questionamentos são mais frequentes e mais direcionados, pois ela já sabe PARTE da história). Luce é uma jovem e suas prioridades são fugazes quando existem coisas mais importantes, mas isso não é um pecado, pois ela ainda é nova, e desconhece completamente o que já viveu em tempos passados. Ao invés de buscar se aprofundar no que pode vir adiante, ela só se interessa pelo que já aconteceu. Aqui a autora manda bem, pois trabalha muito bem o ritmo de cada personagem que está nessa faixa de idade e mais do que nunca deixa a protagonista mais ativa e menos reativa como no 1º livro.

Tais ações de Luce a deixa em situações nada agradáveis e em cada atitude ela vai se martirizando e se questionando sobre seu envolvimento com um anjo. Ela vai criando argumentos que poderiam acabar de vez com os problemas causados tanto por Daniel quanto por ela mesma, mesmo que seja se envolver com outro garoto (sim, isso acontece). A culpa por se afastar de sua melhor amiga, por não poder ter contato e mentir para seus pais, por estar escondida e não poder mais fazer nada é direcionada para o sentimento de amor que envolve a ambos e ela se interroga sobre se nada disse existisse, ela poderia ter uma vida normal, sem crucificar suas vidas passadas ou seu presente. Mas isso é interessante, pois todo o inferno que o anjo vive por séculos, não é pesado, ela não está muito interessada em conhecer os reais motivos dele e a única coisa que Luce identifica, é que ele poderia se decidir de uma vez qual lado escolher, entre bem e mal, e que as ações dele são perfeitamente questionáveis. Típico de um(a) jovem rebelde que só analisa os fatos por uma ótica, a dele(a).

O livro todo é contado durante 18 dias, que é a duração de uma trégua entre Cam e Daniel, uma época para não visitar ou ficar ao lado de Luce, onde ela ficaria escondida dos outros vários inimigos que pretendem exterminar a existência dela ou algo a mais (aqui conhecemos os Párias) mas em certas situações, ambos os anjos a veem ou esbarram por ela. Não tinha como ser diferente. No final dos 18 dias, e do livro, temos um acontecimento que reflete MUITO como serão os acontecimentos a seguir: uma pequena batalha entre os anjos caídos, que estão provisoriamente do mesmo lado, combatem inimigos que estão decididos a enfrentar a morte, mas a razão que todos entendiam, se alterna e mais perguntas são jogadas no ar. Não existe a simplicidade do branco e negro no mundo, mas também vários tons de cinza.

Tormenta aguça mais a curiosidade sobre quem são as anjos caídos, quais as intenções deles, quais são os lados da história e se Luce tem uma importância maior do que já parece ter. Parece que no 3ª livro, tais respostas poderão ser respondidas. Veremos.

Resenha – A culpa é das estrelas

Eu sabia de “A culpa é das estrelas” antes do livro sair. Há algum tempo já acompanho o vlog de John Green e seu irmão Hank – o vlogbrothers. Nesse canal – que existe há 5 anos mais ou menos – os dois falam de tudo que se possa imaginar. Eles têm outros canais no youtube sobre diversos assuntos mas esse é a base. É um canal engraçado que celebra o nerdismo. Não é uma surpresa, portanto, que a linguagem do livro seja informal e o seu público seja formado essencialmente de adolescentes e jovens adultos (no qual eu me enquadro e vou me enquadrar até os 35 anos – mais ou menos).

Green leu os primeiros dois capítulos do livro antes dele sair e mostrou a capa aos seus seguidores antes da impressão oficial. Os nerdfighters (termo que denomina os seguidores dos irmãos Green) acompanham o processo do livro de uma form diferente. Inclusive, o título do livro vem de uma nerdfighter.

Esse é o quarto livro de Green e aborda um assunto delicado: câncer. Mas mais do que isso, o cancêr em jovens que nem completaram 18 anos ainda. Green teve seu primeiro emprego em um hospital para crianças com câncer. Então a pesquisa do livro é impecável. Mas não é isso que mais chama a atenção nesse livro.

A história é narrada por Hazel Grace que tem um câncer terminal na tiróide que já chegou aos pulmões. Hazel é uma jovem engraçada apesar de sua situação. Ela tem uma leveza que talvez só um homem pudesse dar. Digo isso porque as duas últimas heroínas da literatura jovem – Bella e Katniss – são bem chatinhas e ambas foram escritas por mulheres (até Hermione chega a ser chatinha de vez em quando). Hazel não vive da pena de si mesma e se permite pensar no câncer como apenas um problema e não seu único problema. Isso faz toda a diferença.

Hazel frequenta um grupo de apoio e ali conhece Augustus e, claro, eles se apaixonam. Mas não pense que você vai encontrar um triângulo amoroso impossível e insonso. Não, não. Green conduz a história dos dois como se o câncer fosse um companheiro de viagem. Eles têm um amor adolescente como o de qualquer um apesar de terem certos cuidados específicos. E nada disso soa estranho porque se você achar que câncer é um assunto muito sério para misturar com amor adolescente, você está morto por dentro.

Hazel e Augustus dividem uma paixão pelo livro “Uma aflição imperial” de um autor recluso na Holanda. O livro é uma Bíblia para Hazel e ela tem uma insana vontade de saber a continuação da história. Isso faz com que os dois troquem emails com o autor e criem um vínculo ainda maior entre si. Essas são as passagens mais adultas e sérias do livro…Green se utiliza de outro autor para nos dizer tudo o que ele quer mas que a literatura jovem não permite – como citar poemas shakesperianos. Isso faz com que o livro tenha mais conteúdo do que se imagina à primeira vista. É uma excelente idéia para amarrar a história e dizer o que ele quer dizer.

Os personagens são bem desenvolvidos mas nenhum mais do que Hazel. Isso faz com que o livro seja sobre  a história de duas pessoas que querem deixar sua marca no mundo e  fazer o que sonham e não a história do câncer de cada um deles. Elas só têm cancêr mas isso não define muito. Atrapalha algumas atividades, claro, mas não é esse o ponto do livro.

A verdade é que os dois vivem como se cada dia fosse o último porque, para eles, essa é uma realidade à flor da pele. O problema é que isso é verdade para todos , a gente só não tem indícios de como o fim pode ser. Hazel e Augustus têm uma boa idéia do final de cada um. Isso torna a história mais triste mas também mais sincera.

Green foge daqueles clichês de que todos os que estão no fim da vida desenvolvem, repentinamente, uma sabedoria excepcional sobre o mundo e tudo o que dizem são basicamente lições de moral – simplesmente porque ninguém aos 17 anos teria todas as respostas do mundo só por terem câncer. Sabedoria de vida vem com anos vividos e não com doenças terminais. Diferenciar isso é o maior trunfo de Green.

Resenha – Feios

Feios é uma obra de ficção sobre um mundo onde existe uma divisão entre pessoas consideradas bonitas (ou perfeitas) e as pessoas consideradas feias. Há duas cidades principais onde as pessoas feias e bonitas ficam separadas. Ao completarem 16 anos, as pessoas passam por cirurgias obrigatórias que retiram tudo o que é considerado imperfeito e elas podem se mudar para Nova Perfeição – onde apenas as pessoas perfeitas vivem de festas, sem qualquer resposabilidade.

As cirurgias foram criadas para que as pessoas parassem de se julgar baseando-se na cor da pele, cabelo, tatuagens, cicatrizes, olhos vesgos e etc. Ou seja, a criação de pessoas perfeitas e padronizadas foi justamente para evitar racismo e preconceitos mesquinhos dos seres humanos.

A personagem principal é Tally que está quase completando 16 anos e sonha em se tornar perfeita. Ela vive imaginando como será sua vida quando tudo for perfeito e se acha feia de uma maneira cruel. Quando se infiltra no mundo perfeito para visitar seu amigo recém operado, Tally quase é descoberta. É nesse contexto que ela conhece Shay.

Shay também é uma feia. Mas ela não parece se importar muito com isso e se rebela contra a idéia de que apenas quando se é considerado perfeito é possível ser feliz e decide fugir para uma cidade onde ninguém é obrigado a passar pela cirurgia – porque onde todo mundo é feio, ninguém é feio. Mas Tally não entende essa lógica. Ela vive obcecada pela idéia de se tornar perfeita, manipulada pela biologia e o que todo mundo diz que se deve fazer e ser. Tally é chata. Ela é toda adolescente leitora de revistas de moda que acredita que se você não tem a saia no tom certo de marrom, você nunca será alguém na vida. Ela é a adolescente que precisa de celular e maquiagem para ir para a escola..não para ser diferente, mas para se misturar. A história eleva o termo “Ditadura da beleza” a um novo patamar.

Mas algo dá errado antes da cirurgia de Tally e ela é, basicamente, forçada a escolher entre ser perfeita e trair uma das únicas pessoas que foi sua amiga independente de sua aparência. Ela se infiltra na cidade dos feios que fugiram e começa a enfrentar sua consciência, se dividindo entre seu sonho e sua amiga.

A imaginação do autor quase que trabalha contra ele. Ao descrever o caminho para Fumaça – cidade onde o grupo de feios fugitivos vive – ele se perde. Honestamente, a descrição é chata e beira o irritante.

Na Fumaça, Tally descobre o que era considerado bonito há 300 anos – quando aparentemente as cirurgias começaram. Ao folhear uma revista ‘antiga’ de celebridade ela percebe que  havia diversas pessoas que não pareciam envergonhadas de não serem “perfeitas”.  O mais estranho é ver nosso atual e distorcido conceito  de beleza colocado como “um conceito mais democrático de beleza”.

Tally encontra um mundo completamente novo e aprende detalhes sobre sua estimada operação que abrem sua cabeça para um mundo novo e novas possibilidades. Ela começa a ver que ser igual não é necessariamente ser melhor e que, na verdade, tem muita beleza no que é diferente.

Tudo o que acontece na Fumaça serve para manter o enredo rolando enquanto você começa a se perguntar onde tudo isso vai dar e qual a lição que o autor quer que o leitor tire do livro. Não é que ser bonito é subjetivo. Por que tenho certeza que quando pensaram nos perfeitos, 95% das pessoas que liam o livro pensaram em meninas brancas de cabelo liso.

O que o autor nos mostra é que nós JÁ ESTAMOS programados a ver beleza de determinada forma. As plásticas que vemos hoje são padronizadas, elas só não são obrigatórias. A história de Westerfeld é o extremo do modelo que criamos hoje em todas as revistas de beleza. Ultrapassa a padronização da beleza e se torna a padronização do pensamento.

Infelizmente esse é um tipo de reflexão que um jovem de 12 anos não poderia fazer. Muitas das pessoas que leram o livro provavelmente vão pensar que o livro é bom e “puxa, ainda bem que não somos assim”, sem refletir nem por um segundo que já estamos quase vivendo o que o livro descreve. Não nos extremos de dividir as cidades e todo o bla bla bla que o autor coloca para enfeitar a história, mas no conceito do bonito X feio e na idéia de que beleza significa quase automaticamente sucesso e boa vida.

Se metade das pessoas que lerem esse livro conseguirem entender isso, já é considerável porque esse é um debate muito importante. É essa crise de identidade do bonito X feio que faz com que a geração que cresce agora seja intrinsecamente insegura e desesperada em agradar. Esse tipo de pessoa não reclama, não muda o mundo, não se rebela, não transforma sua realidade. Elas se sentem contentes em serem aceitas.

Para elucidar tudo isso, indico o documentário sobre a mídia e a forma como as mulheres são retratadas atualmente (com legendas em português). O foco do documentário é a mídia norte-americana mas acho que fica claro que essa é uma epidemia que está se espalhando:

Dado o contexto atual, é impossível não pensar que o modelo de “Feios” seja uma realidade muito próxima e assustadora.

Resenha – Fallen

Fallen é um livro que nasce em uma época quase que dominada por uma safra de livros juvenis fantásticos e isso sustenta uma demasiada carga de “parecer” com todos os outros, mas ele muda completamente o personagem de fantasia aqui e um dos motivos que me levou a lê-lo, foi esse. Eu gostei do livro, gostei mesmo. A escrita é tranquila e nada maçante. Apesar do enredo ter sido construído na base do consagrado estilo romântico, com dois personagens lutando por um sentimento, um terceiro querendo roubar o amor da mocinha, a melhor amiga, a garota que incomoda e tudo o mais, o livro apresenta alguns tópicos diferenciados e a temática gira em torno de “anjos”.

Lucinda Price – Luce – é uma garota meio deprê, mas não é uma deprê normal, ela aparentemente tem motivos para isso e alem dos motivos, ela ainda é observada como maluca, desequilibrada até. A causa disso tudo é uma diferença sensorial que ela possui: ela vê sombras estranhas e nada agradáveis; e também sofre com o transtorno causado por um suposto envolvimento na morte, sem explicações, de um rapaz que ela gostava (nem mesmo Luce sabe se tem parcela de culpa na morte). Ela passa por momentos de perturbação pessoal e de incompreensão de outras pessoas, até da família, com tudo isso, ela acaba sendo enviada para um reformatório, feio, mórbido, decadente.

Toda a estrutura do reformatório é apresentada como uma escola para delinquentes. Existem aqui até o grupo dos “perigosos” que usam uma pulseira específica. Luce é bem recebida por alguns, bate de frente (literalmente) com outros e também chega a ser menosprezada. SIM, a garota mal chega em um lugar estranho e JÁ É desprezada, não apenas ignorada. Tal situação a deixa intrigada. Mesmo sendo abordada com bastante galanteio por um dos rapazes mais populares, ela se sente atraída pelo que a deixa de lado. É certo que muito na vida real acontece dessa forma, mas no livro as explicações se dão com o tempo e algo além envolve Luce e Daniel, o rapaz que nem a olha direito.

Daniel tem a aparência de triste, melancólica e passiva, Cam, o galanteador popular, já é mais ativo e impulsivo, deixando Luce dividida, assim como em histórias de amores impossíveis. O interesse por um, que não parece afim, é compensado pela empolgação do outro. No decorrer do livro, ela se sente cada vez mais envolvida pelo clima de mistério de Daniel e passa a pesquisar sobre ele (com a ajuda de uma amiga fiel), ficando com a intuição perseverante de que o conhece, de alguma maneira. Mas a decisão de finalizar qualquer comprometimento com Cam ainda não parece definitivo. Com o tempo, as investidas de Cam se tornam cada vez mais diretas, levando a um momento de ação definitiva por parte de Daniel.

Luce e Daniel se posicionam, e a hora da verdade chega, mas é claro que nada é tão simples e tão objetivo. Daniel tem uma longa história e Luce está presente nessa história desde SEMPRE. Daniel é um anjo, Luce uma mortal que ele escolheu para amar eternamente. (essa parte da história é um pouco ligeira, a escritora parece ter escrito com alguma pressa, uma pena, pois deveria ser a parte mais bem elaborada, mas creio que nos outros livros, tudo seja detalhadamente explicado). Tal contexto não é processado facilmente por Luce, que se perturba com isso, mas tuas pesquisas a ajudam a acreditar e então ela decide enfrentar de vez, TUDO, para estar ao lado do ser que ama. Quando os eternos amantes se aceitam, as peças se agrupam e os lados se desmascaram, adversários se posicionam no tabuleiro de uma guerra infinita entre seres eternos, onde não há somente bem ou mal.

Daniel e Cam são dois anjos caídos que se confrontam, juntos com seus aliados (sim, mais personagens são anjos), mas que, por algum motivo, AMBOS, não querem a morte de Luce. O grande problema é que muitos outros querem, outras forças desejam o fim do envolvimento do anjo com a mortal e essa luta pode ser muito mais complexa do que foi apresentada até agora (aqui quero, muito, ver como a autora estrutura essa ideia).

O livro é o 1º de uma série de 4, os próximos explicam o passado dos amantes, a causa dessa guerra angelical e explicará como anjos caídos fazem escolhas. Espero que a autora tenha trabalhado isso muito bem (o 4º ainda será publicado), pois pode ser um mote deveras interessante, ainda mais em uma época onde seres fantásticos ganham cada vez  mais lugar no imaginário popular e anjos são personagens que podem ter capacidades maiores do que mortos vivos (eu ainda sou MEGA fascinado com Vampiros, mas um que brilha e outros que são bonzinhos, me deixam deprimido).

Li Fallen por indicação da minha Pekena Ludmila Pires e o fiz com vontade mesmo, gostei do livro. Ele é gostoso de se ler, ainda mais sendo embalado por uma trilha sonora que o envolva. Fallen tem muito ar de música gótica, diria eu e acredito que os amantes de Evanescence podem gostar muito dele e vice-versa, mas eu acabei lendo ao som de Seether, pois o som que a voz sussurrante do vocalista entoa, ajuda um bocado a entrar no clima enevoado que a história dispõe e, junto, deixei tocar  Agridoce também, pois a caracterização rebelde e solitária que a musicalidade desse projeto da Pitty evidencia, auxilia na disposição entorpecente da protagonista.

Alguns personagens possuem carisma e são interessantes, mesmo que sem tanta profundidade, pois é o 1ª livro ainda, muito há para acontecer e a história de amor não é piegas (algumas são, a de um vampiro fadinha por exemplo). Parece que a autora acertou onde a criadora de Crepúsculo pode ter errado: a protagonista tem razão de ser da forma que é e o par romântico não é um morto vivo que a “engravida”, assim, eu indico.