Resenha – Xangô De Baker Street

Eis o 1º livro que li do gênio Jô Soares e, me parece, o 1º romance dele também. De cara o que me chamou a atenção é que a história enveredava por um enredo que contem uma paixão antiga: Sherlock Holmes. Li todos os romances que Conan Doyle escreveu sobre o detetive inglês e quase todos os livros que possuem contos sobre ele. A aqui escrita é bem cativante, o gênero escolhido atrai minha curiosidade e a forma de conduzir a trama é bem elaborada, envolvendo elementos ingleses com uma brasilidade espontânea.

Outra característica que me causa grande interesse por esse livro e de outros de Jô Soares é a construção que ele costuma introduzir e conduzir personagens verídicos e outros criados. Existem pontuações históricas relevantes acompanhadas de envolvidos nada reais, mas que possuem consistência verossímeis.

O roubo de um violino de valor calculavelmente precioso (um Stradivarius) é o ponta pé inicial para uma trama rica de acontecimentos hilários e inesperados. Muito do que acontece de engraçado é fundamentado por atitudes e ocasiões inesperadas, como um porre de caipirinha que acomete o famoso detetive, entre suas experiências com a comida brasileira (o vatapá se mostra muito forte e pesado para o paladar europeu) ou até mesmo o envolvimento com a “marijuana” e as mulatas cariocas. Jô Soares aproveita muito bem vários atrativos de nossas terras ensolaradas e até mesmo a malemolencia do povo da terra de D. Pedro II e coloca o herói inglês em situações discutíveis, deixando-o até MUITO aquém de suas possibilidades de discernimento e capacidade, mas eu particularmente consigo levar em consideração. Aqui é Jô Soares escrevendo, não Sir Arthur Conan Doyle e o personagem em questão foi somente “pegado emprestado”. O romance tem como cena, um Rio De Janeiro do século 19 e entre momentos reais e contribuições ficcionais, a história é contada com entusiasmo e nos apresenta um Sherlock diferente do que Doyle poderia criar.

Holmes se depara com um Serial Killer astuto e que sabe perfeitamente como agir para não ser capturado, deixando em cada cena dos crimes que comete, uma corda de violino. Nosso querido detetive, que a priori veio ao Brasil para desvendar o roubo do violino, se envolve com a trama dos assassinatos, tentando desbaratar tais crimes, mas toda a perspectiva brasileira atrapalha mais do que ajuda. Até em um terreiro de candomblé o inglês está presente, descobrindo que é filho de Xangô. Junto ao seu fiel amigo Watson e auxiliando o delegado Mello Pimenta nas investigações sobre tais crimes hediondos, Holmes é caracterizado com toda a formalidade britânica a que estamos acostumados, mas fica a dúvida se toda sua perspicácia é suficiente para desvendar a audácia do assassino.

Jô Soares conduz a ação com muita propriedade, pois faz um passeio histórico pelo Rio de forma bastante acertada e contundente, provendo um romance bem gostoso e envolvente de se ler.

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Resenha – Os Sete

Eis um assunto que me interessa e muito. Já assisti à vários filmes, seriados, li muitos livros e sempre estou caçando algo sobre tal tema. Vampiros sempre estiveram entre minhas conversas com amigos e preferencias para histórias de terror. Já senti MUITO MEDO desses seres, tenho minhas convicções de como eles devem ser e já escrevi sobre também, eu meu livro de estréia: Máscara de Sangue.

André Vianco trabalha o mito do vampiro com algumas alterações. Dá poderes eficientemente peculiares para cada vampiro, diferenciando assim o terror que eles podem impor aos vivos e mortos. Como o título deixa claro, somos apresentados à SETE vampiros, vampiros lusitanos que são acordados depois de quase 400 de clausura.

O livro começa com uma aventura entre amigos, 3 amigos, que mergulham no litoral brasileiro em busca de tesouro, em busca de algo que possa trazer fortuna e reconhecimento. Começa como algo normal e até prazeroso e se transforma em um pesadelo irreal e descontrolado. Uma caravela portuguesa é vislumbrada no fundo do oceano e os 3 já correm para contar à uma amiga que trabalha como assistente de um historiador. O velho navio é resgatado e nele está uma caixa de prata. Uma caixa que serve como túmulo para seres que não foram “devidamente” mortos. 7 seres com os devidos nomes: Inverno, Acordador, Tempestade, Espelho, Lobo, Gentil e Sétimo. No decorrer do livro, somos apresentados à vampiros bem interessantes: temos os mais malignos, perversos, e os que simplesmente querem voltar a “vida”. Vianco trabalha bem na individualidade de cada. Mesmo com todo o terror em volta deles, o resquício de humanidade ou uma certa questão de honra é deixada em evidencia.

Um vampiro, Inverno, acorda de seu sono forçado com a ajuda de incautos descobridores e pesquisadores e já se levanta com sede pela “amada”, a causadora de seu despertar, que agora passa a ter um “laço de sangue” com ele, mas antes ele precisa esconder aquele que lhe causa mais horror (aquele que não pode nunca ser acordado) e ajudar seus irmãos imortais a retornarem do castigo eterno no qual foram subjugados.

A história é muito bem entrelaçada, o autor volta quando é preciso e constrói todo o entendimento de cada ação realizada (mas em uma única ocasião específica isso deixa a desejar, nada que atrapalhe o contexto ou muito menos que diminua a vontade de continuar lendo, só que poderia ser bem detalhada, assim como as demais, menos importantes). O enredo possui momentos de “pra que isso é necessário?”, mas com o tempo vamos observando que isso ajuda na construção da personalidade de cada personagem mortal e até na dos vampiros. Nos envolvemos também com aqueles que cruzam o caminho dos acontecimentos. Vítimas inocentes são introduzidas antes mesmo de se tornarem refeição ou “tira gosto” dos vampiros.

Tudo acontece em solo brasileiro, com indicativos do cotidiano (da época) mesmo. Isso foi algo que gostei demais, pois não sou um assíduo leitor de produções nacionais, mas gostei de como o contexto foi sendo desenvolvido, ainda mais trazendo na memória certas coisas, já que o livro é de 1999/2001 e até os apresentadores do Jornal Nacional noticiavam as tragédias das cidades por onde as crias demoníacas passavam. Amarração parece ser a única cidade fictícia no Romance, e tudo se desenvolve por lá, em Porto Alegre e Osasco, com suas ruas e pontos reais.

As batalhas dos vampiros, desde a de “Inverno”, sozinho, em seguida junto de Manuel e depois com os demais, são bem ao estilo terror mesmo. Os vampiros, mesmo sendo sanguinários, passam por momentos em que não estão com “sede” e isso salva alguns velhos imprudentes e bêbados ingênuos (nessas horas rolam pontuações cômicas). Os confrontos com as forças armadas do exército são bem marcantes, pois acentua a crueldade e animalidade dos sanguessugas e o desespero irracional dos militares, que enfrentam os inimigos sem qualquer conhecimento do oponente e mesmo depois, já com certas cognições do que confrontar, o impensável pode surpreender. O medo é o principal alimento das criaturas das trevas e aqui se encontra em demasia. Só quando um humano decide enfrentar todo o horror e quando seu medo se torna menor do que seus motivos, temos um oponente capaz de fazer frente à 5 dos antigos lusitanos e deixar 2 deles abatidos temporariamente, mas ainda não é o suficiente.

O campo de batalha volta para onde tinha começado e os vampiros enfrentam os humanos mais preparados e em meio ao caos, Sétimo, o mais aterrorizante vampiro acorda…

…mas a história continua no próximo livro a ser resenhado “SÉTIMO”.