Resenha – O Capote

Escrito em 1842, o Capote é um conto curto e direto de Gogol – escritor russo conhecido por seu humor negro e contos que misturam fantasia com realismo.

O conto é a história de Akaki Akakiévitch – um homem resignando a sua vidinha simples, sem grandes talentos, de personalidade vazia e sem grandes aspirações. Trabalhava para um ministério russo copiando documentos. Morava sozinho, não tinha amigos, era motivo de chacota de seus companheiros de profissão e pobre de dar dó.

Com o frio de Petesburgo, Akaki precisava constantemente remendar seu velho casaco – apelidado de capote. Porém, de tão velho e puído, o capote não poderia ser remendado dessa vez. Com suas economias e se privando de quase tudo (incluindo jantar) Akaki conseguiu juntar o dinheiro necessário para outro capote – lindo e na moda. Motivo de orgulho e congratulações de seus amigos.

Gogol nos apresenta em 50 páginas uma Rússia burocrática, superficial e hipócrita. Tudo isso com um senso de humor ácido (meu preferido) e certeiro. A história dá reviravoltas interessantes e fantasiosas. É um conto rápido para apresentar um autor que muitos consideram o fundador da literatura russa moderna.

Extremamente recomendado. Leia na sala de espera do  médico que foi viajar no feriado e te deixou esperando enquanto o vôo dele estava atrasado. Pelo menos vai manter seu senso de humor vivo – e negro.

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Participação Especial – Resenha – Lolita

Após ser recusado por cinco editoras norte-americanas, em setembro de 1955, o romance “Lolita” de Vladmir Nabokov circulou por Paris através de 5 mil cópias publicadas pela Olympia Press. Quase seis décadas mais tarde, sinopse da história ainda tem potencial para escandalizar: a tragicomédia em duas partes retrata a obsessão sexual de Humbert Humbert, um imigrante europeu de meia-idade, por Dolores Haze, uma adolescente americana de 12 anos, a quem torna sua enteada e mais tarde sua amante.

Apesar de seu magnetismo para mulheres adultas, o protagonista e narrador não tolera quadris volumosos e peles amadurecidas. Os objetos de suas fantasias são criaturas que denomina ninfetas, ou seja, meninas de 9 a 14 anos com corpo em formação, na sua visão, tão ingênuas como crianças comuns, quanto vulgares como demônios sensuais. Para justificar sua perversão, Humbert relata um trágico amor da própria infância, uma paródia do poema “Annabel Lee” de Edgar Allan Poe.

Um dos narradores não confiáveis e monstros de Nabokov, talvez menos nocivo que seu primo Hermann de “Desespero” (de 1994), Humbert tece manipulações para leitores ao misturar cinismo com sentimentalismo e sua paixão não consumada pela sua Annabel Leigh é provavelmente uma delas. Por essa razão, conhecemos sua Lolita e jamais a Dolores, seu primeiro amor reencarnado. Solipsismo, a ideia de que apenas a experiência existe, é um termo-chave neste livro, uma ferramenta utilizada pelo protagonista ao descrever a memória que tem de sua enteada.

Criada por um entomologista amador (Nabokov estudava espécies de borboletas tão profundamente quanto a Literatura), a ninfeta do título é constantemente metamorfoseada por Humbert. Ela é uma típica jovem norte-americana obcecada por revistas e comidas calóricas, uma imitação em miniatura das femme fatales de hollywoodianas, uma traidora da mesma linha da Carmen de Prosper Mérimée e da Emma Bovary de Gustave Flaubert, uma “princesa frígida”, uma filha ora sarcástica e cruel, ora simplesmente negligenciada e invejada pela mãe, e ainda uma criança interrompida e corrompida, com crises de choro noturnas. Mesmo seus nomes são múltiplos – Dolores, Dolly, Lo, Lolita.

Assim como sua heroína, a história se transmuta em diferentes gêneros enquanto é despida. No início, assume o tom de confissões íntimas, evoluiu para drama suburbano, escorre como uma road story e descamba em suspense noir. No fundo é um conto de fadas adulto e sem moral da história. O uso recorrente das palavras “encantamento”, “elfos” e “fadas” é um sinal disso.

Esteticamente, mais do que um mergulho em um erotismo ilícito, seus capítulos oferecem um banquete de delícias intelectual. O tecido que envolve o esqueleto de sua trama é uma narração fértil em ironia, lirismo e elegância.  O exibicionista Humbert Humbert sabe chocar, mas também é capaz de entreter seu leitor culto se delicia com pastiches literários e alusões artísticas e um voyeur menos erudito com jogos de palavras, aliterações e anagramas.

Não há, porém, um código de linguagem que dificulte a compreensão da história, a leitura é elegante e flui e uma releitura oferece uma satisfação dupla pelo reencontro com feitiço perverso de sua trama e pela descoberta das dicas sobre o destino dos personagens são espalhadas pela narrativa. É sempre um prazer a percepção de que um livro acompanhado por horas foi estruturado do começo ao fim. Nenhuma frase é desperdiçada, todas as passagens estão encadeadas, cada nome de hotel e interação com outros personagens são significativos. Seus detalhes, o valor poético de sua narração e seus protagonistas memoráveis são os pontos que tornaram “Lolita” um clássico indispensável da Literatura mundial.

Rafaela Tavares

Resenha – As três irmãs

É isso mesmo. Hora do clássico. Aguente, se puder.

Desde que li um livro de contos de Tchekhov, notei a diferença dele para outros autores clássicos russos. Tchekhov escreve de maneira rabuscada mas em um estilo mais simples que facilita a compreensão. (Sim, um autor russo que não é impossível de ler. Eu quase engasguei também).

Em “As três irmãs”, o autor nos apresenta Olga, Maria e Irina que vivem com o irmão Andrei numa região longíqua da Rússia. Elas falam o tempo todo de voltar para Moscou onde elas acham que a vida tem algum propósito já que as três têm nada para fazer o dia todo. “Três Irmãs” é uma peça e toda a história deve ser deduzida dos diálogos entre as personagens. Não há nada que nos dê maiores explicações sobre o passado ou a personalidade de cada uma mas como são apenas quatro atos, é mais simples do que se imagina.

Ato I = se passa no dia do aniversário de Irina, não se sabe de quantos anos. As personagens são extremamente superficiais, reclamam o tempo todo de tédio e os diálogos são desconexos. Cada um está tão envolvido em si mesmo que falam simplesmente o que pensam e não necessariamente o que a conversa pede o que gera situações constrangedoras para os leitores. Andrei – o irmão – sonha em ser professor em uma grande universidade de Moscou e está noivo de uma mocinha que as irmãs não aprovam. Sonhos e tédio resumem o primeiro Ato.

Ato II = alguns anos depois, estamos novamente acompanhando as reclamações diárias das três personagens principais. Agora, Olga e Irina encontraram um trabalho. Você imaginaria que elas não teriam mais motivos para reclamar, certo? Negativo. Elas agora reclamam por terem que trabalhar (o que na verdade me lembra muitas pessoas que conheço). Andrei está casado, com um filho e obeso. Ao invés de ser professor, se tornou secretário do setor Rural. Tédio continua permeando o Ato mas agora, os sonhos estão quase morrendo quando a realidade começa se assentar.

Ato III = não se faz distinção de personalidade entre as irmãs. Apesar de Maria, que ele apelidou de Macha (péssimo!) ser casada, ela está apaixonada por outro e reclama de sua “difícil” situação. Aqui tem alguns pontos mais de comédia…o autor nos apresenta um médico que não lembra de nada sobre medicina e um barão que dorme o tempo todo e só fala de cochilos quando está acordado. Andrei está estragado. Ele sai de casa escondido da mulher, perde dinheiro no jogo (mas o autor nunca comenta que tipo de jogo que é – eu suponho que seja roleta russa) e chegou ao ponto de hipotecar a casa para que a mulher tenha mais dinheiro e também porque está cheio de dívidas. As irmãs a odeiam mais do que antes. Aqui fazemos uma descoberta impressionante: Irina tem apenas 24 anos! Com o tanto que ela reclama, eu imaginava que ela tinha 60.

Ato IV = Irina aceita se casar porque continua sonhando em se mudar para Moscou e agora ela pode ter a chance. Porém, o noivo morre em um duelo com um outro rapaz que está apaixonado por ela mas a quem ela não dá atenção por não ter o status necessário.

Fim.