Resenha – Cai o Pano

Confesso que o último caso do detetive Hercule Poirot juntamente com seu companheiro Hastings me causa não apenas uma melancolia pelo final de uma grande parceira (se não for a maior, tal qual Sherlock e Watson!), mas também uma espécie de “frisson” incrível por conta da genialidade do desfecho da obra!

Poirot volta para a mansão onde ele resolveu seu primeiro caso da gloriosa carreira que construiu em 1920. Agora o ano é 1974! Que longevidade do detetive belga! (Vale lembrar que esta obra foi escrita em 1940 e acabou sendo publicada logo após a morte da Rainha do Crime, a pedido da mesma). Entrevado em uma cadeira de rodas, ele convoca seu companheiro Hastings para uma busca que beira a margem do impossível: vários assassinatos estão acontecendo e os possíveis suspeitos sempre são pessoas próximas da vítima.

Da forma como os crimes estavam sendo cometidos, a ideia natural é de que a culpa seja sempre colocada no suspeito mais provável. Entretanto, Poirot encontra uma solução para a série de crimes cometidos: a possibilidade de existir um assassino em comum a todos os crimes no qual ele chama de X.

A forma como a investigação é realizada pelo detetive belga e a resolução do caso são dignas de um gran finale que somente a Rainha do Crime conseguia fazer em seus livros. Quando eu terminei de ler a obra, passei a admirar mais ainda a genialidade da autora: em seu último, tivemos um assassinato perfeito que não poderia ser detido de uma maneira comum e um crime realizado de forma magistral, milimétrica e repleta de surpresas!

Deve-se destacar ainda nas linhas desta resenha a morte de Hercule Poirot, bem como a sua emocionante carta de despedida enviada ao capitão Hastings quatro meses depois de seu falecimento. Dificilmente os fãs do genial detetive belga não irão se emocionar com as últimas palavras de Poirot ao seu velho parceiro de aventuras.

Boa leitura!

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Resenha – A Terra Pura

Ficção com realidade é algo que me agrada muito e um livro que versa sobre a vida de uma pessoa que existiu, e que não é biografia, pode ser bem interessante. Não sou mega fã de tal estilo literário, mas quando a proposta de um livro é ser um romance sobre uma pessoa verídica e que, além disso, sua história se passa no Japão, ai posso dizer que meu interesse é estrondoso (curto demais quase tudo que vem de lá).

A Terra Pura é sobre a história de Thomas Blake Glover, um jovem escocês, aventureiro, cheio de ideias e ideais, que desconhece o significado da palavra impossível e que se muda para o Japão por causa de uma oportunidade de emprego, transformando o país e se transformando em alguém muito importante na terra do sol nascente.

Glover recebe três conselhos logo após sua chegada “Não cruzar o caminho dos samurais; Não se meter com a política; e observar bem onde “enfia seu brinquedo“. Mas ele vive completamente o contrário disso, vive intensamente todas as possibilidades que lhe aparecem. Ele aprende costumes, honrarias, hábitos e ensina também sobre modernidade para alguns japoneses, samurais em sua maioria, ávidos por aperfeiçoamento e entendimento de um novo mundo. O jovem cresce junto com o país. Participa de tudo que acontece de significativo por lá, seja de forma direta ou indireta e ajuda na transição daquilo que é antigo para o que é novo.

Ele chega ao Japão para trabalhar em uma empresa estrangeira que comercializa chá. Laços de amizades são criados e com o tempo ele decide crescer, expandir seus horizontes e seus relacionamentos vão aumentando também (Glover é muito versátil, comunicativo e corajoso, pelo que pude observar, tendo todas as características que uma pessoa que faz a diferença deve ter). O chá não é o suficiente para ele e então o comércio de outros artigos legais ou alguns ilegais vão ganhando importância, até que o negócio de armas surge e se transforma na transação mais lucrativa. Mas as relações de Glover incomodam algumas pessoas e seu envolvimento com todos passa a ser um empecilho. Depois de uma batalha sangrenta, a qual presencia e culmina na perda de um grande amor, ele decide se posicionar, parar de querer agradar à todos e decide se comprometer com somente alguns, com aqueles que irão mudar de vez o país e acabar com o atraso do Shogunato.

A abertura ao Ocidente parece ser uma obsessão para Tom, como é chamado pelos mais próximos, então suas manobras políticas e sociais se tornam cada vez mais evidentes e o envolvimento com os samurais só aumenta, até com clãs opostos. Mesmo depois de falir, o incansável escocês não se dá por vencido e continua sua batalha por prosperidade e evolução. Mas a vida pessoal de Glover passa por turbilhões também. Ele teve três filhos, de três mulheres diferentes. Sua vida foi envolta por grandes glórias e tragédias inesquecíveis.

“Terra Pura” é um conceito que está presente no Budismo, forma religiosa intensa no Japão e que tem a ver com a jornada de Glover. Jornada essa que o fez ser considerado um personagem de grande influência para a história japonesa.

Ao ler esse livro, eu me vi escrevendo-o. Sério. A escrita, o trato com os personagens, o enredo produzido, me fizeram imaginar que eu poderia tê-lo escrito. Um escritor é capaz de imaginar sua própria evolução ou como ele gostaria que sua escrita fosse seguindo uma estrutura ascendente de melhorias e “A Terra Pura” me parece meu próximo passo.

Resenha – O Caçador De Pipas

Algumas histórias são tão boas que MERECEM ser associadas à alguns tipos de arte, em casos específicos, as 6ª e 7ª arte. Literatura e Cinema andam juntos diversas vezes, muitas delas de forma agradável, outras nem tanto e existem ainda alguns casos de compatibilidade excelente.

Quando alguns filmes são adaptações de livros, é interessante ler primeiramente o livro, pois, além de costumar a ser melhor, existe aquele momento quando se entra na sala de exibição que você vai imaginando cenas concordando ou não com o que lhe é apresentado. No meu caso, em relação ao Caçador De Pipas, eu fiz o contrário, assisti ao filme antes.

Tinha ouvido algumas reclamações sobre a adaptação e também elogios, me guardei o direito de não me deixar levar…

O filme É muito emocionante, assim como o livro, um acerto excelente. A história está toda ali, MESMO. Eu não mudaria nada no roteiro, só escolheria um ator mais opulento para caracterizar fidedignamente a imagem do Pai, como eu criei em minha cabeça, e vi o ator, que faz o protagonista adulto, com muito pouco carisma, mas não chega a ofender e depois pensei na ideia dele ser muito introspectivo ou parecer fraco, correspondendo muito com algumas ações do passado. No livro é perceptível que Amir, quando criança, é um garoto meio que chateado por não ser o centro das atenções do pai, a mãe morreu no parto e ele se sente um pouco responsável, acreditando que o pai também pense assim. Ele sente inveja de Hassan que recebe um certo afeto do pai e isso também influencia em seu modo de ser. Amir é o filho de família abastada e Hassan é o filho do empregado.

Durante a infância de Amir, o filme expõe mesmo a condição de sentimento abalado e retraído dele, o que está presente no livro. O garoto age algumas vezes, revelando uma certa covardia, enquanto Hassan é exatamente o oposto. Um tem medo de ajudar o amigo em um momento de extrema necessidade, o outro aceita ofensas e tudo o mais pelo “amigo”. Depois de mais um exemplo de covardia e falsidade, Hassan e o pai se mudam, deixam a casa de Baba – pai de Amir. Os tempos em Cabul começam a ficar conturbados, a URSS invade o Afeganistão, instaurando um sistema opressor no povo e até mesmo as famílias ricas começam a sofrer com essa nova realidade.

Pai e filho fogem para os Estados Unidos e lá iniciam uma nova vida, muito diferente da que eles tinham no país natal, mas os dois aprendem a conviver com as dificuldades e o passado de Amir começa a ficar um pouco remoto. Mesmo distante da terra em que nasceram, os dois não deixam sua cultura de lado e convivendo com outras famílias afegãs, o modo de vida afegão continua a prevalecer. Costumes e tradições são extremamente importantes para ambos. A vida segue, Amir se apaixona e se casa, o pai está doente, com câncer e a nova família vive em comunhão. O casal cuida de Baba até esse vir a falecer – essa parte, especialmente no livro, é extremamente emocionante. A doença e todo o sofrimento que é causado é muito bem retratado. A doença parece ser igual para todos, o câncer atropela da mesma forma seja quem for…

Amir e Soraya Taheri, sua esposa, também afegã, vivem como um casal normal, mas não podem ter filhos. Ele é um escritor que vem tendo sucesso. A vida começa a seguir novamente um rumo tranquilo, mas o passado volta para cobrar uma atitude definitiva. Rahim Khan, amigo da família, quando viviam no Afeganistão, telefona e pede ajuda. Hassan teve um filho, e esse precisa urgentemente do auxílio daquele que pode ser o único elo familiar existente. Sohrab, o filho, tem muito mais a ver com a vida de Amir do que se podia imaginar. Esse não pode mais fugir de seu passado e de sua história e o momento para a redenção chega, finalmente.

O Taliban agora é quem comanda Cabul. A capital está desolada e muito foi mudado. Tanto livro, quanto filme apresentam um país devastado e cheio de opressão. Amir chega à cidade e procura por Sohrab. A vida do filho de seu antigo amigo, é extremamente sofrida, oprimida e isso aumenta mais ainda a vontade de Amir de modificar de vez seu destino e afastar para sempre o fantasma destrutivo de seu passado. Alguns horrores voltam a assombra-lo, mas o desejo de ser melhor e de consertar seus erros, são extremamente maiores. Enquanto Amir luta contra aquilo que o perturbava, Sohrab age, como Hassan sempre agiu e os dois fogem, fogem para, juntos, recomeçarem. Recomeçarem uma vida sem medo, sem olhar para trás. Começarem uma história diferente, que possa ser uma história de família, uma família renovada.

O Caçador de Pipas é um livro escrito entre a ficção e a realidade, os personagens podem ser criados, mas a história é sobre famílias reais, pessoas reais. O que acontece ali é sobre fatos de opressão e redenção, sobre como a vida muda e como podemos mudar com ela, sobre como enfrentamos nossos medos e defeitos, sobre como encaramos nosso passado, presente e futuro.