Domingo dos Quadrinhos – Notas Sobre Gaza

Notas sobre GazaJoe Sacco é um jornalista nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos. Sim, você ouviu direito. O autor de Notas Sobre Gaza é um jornalista.

Esta é uma obra totalmente diferente de tudo que você já viu. Trata-se de uma reportagem registrada utilizando o formato dos quadrinhos. Em um volume de mais ou menos 400 páginas (e que, confesso, ainda não terminei de ler), Sacco passa o clima da Faixa de Gaza, seus habitantes e o conflito entre Israel e Palestina.

Apesar do tema tenso, Notas Sobre Gaza não é uma obra difícil de ler ou pesada demais. O traço de Sacco é muito bonito e bem acabado, o conteúdo verídico confere um interesse maior para a leitura e o argumento bem elaborado te envolve com perfeição na história que está sendo contada.

Sacco escolhe como tema, justamente, o que chama de “notas de rodapé” da história do conflito, ou seja, pequenos incidentes que a princípio não parecem importantes mas podem ter gerado vinganças, represálias e respostas que escalaram ainda mais a guerra.

Notas Sobre Gaza é uma HQ genial, mas é também um registro histórico; portanto, vale a pena pelos dois aspectos. Se está procurando uma boa HQ realista, esta obra de Joe Sacco é altamente recomendada. Se está procurando mais informações sobre Israel e Palestina, trata-se também de um ótimo caminho.

Terça dos Quadrinhos – 300 De Esparta

Frank Miller possui um estilo grandioso para suas ilustrações, essa é uma certeza que eu tenho. Nada dele é minimalista ou contido, pelo contrário, é impactante e muito bem evidente. Eu tenho alguns desenhistas como ídolos. Tipos como Marc Silvestre, Jim Lee, Todd McFarlane, Neal Adams entre outros, conduziram minha infância e juventude pelo mundo dos quadrinhos e posso incluir Frank Miller também. E nessa história, Miller, além de desenhar, cria todo o argumento. O que ajuda a caracteriza-lo como um artista fundamental para a história dos quadrinhos. Aquele que escreve é aquele que desenha também.

O enredo transita por personagens verossímeis e por argumentações reais, pois a história aconteceu verdadeiramente. A Batalha das Termópilas é um fato histórico que impressiona pela coragem, honra, companheirismo, lealdade e bravura. Os 5 capítulos dessa mini saga também indicam bem o significado da batalha: Honra; Dever; Glória; Combate e Vitória (mesmo que os Espartanos tenham perdido).

Somos enviados para o ano de 480 A.C. e apresentados à espartanos destemidos, que marcham para enfrentar uma guerra que poderia ser considerada perdida desde o começo, mas os 300 componentes se mostram mais preparados do que qualquer outro exército e, mesmo em número infinitamente menor, assustam a crescente persa. A HQ narra que o rei de Esparta, Lêonidas, recebe um mensageiro que trás notícias que obrigaria seu povo à prestar submissão ao “deus-rei” Xerxes, mas, com orgulho e resolução, o que ocorre é o lançamento de persas, horrorizados, a um poço profundo.

Com tal feito, o mundo grego vai à guerra, mas o espartano é diferenciado, tal povo é destinado à esse devaneio. O espartano respira batalhas, sonha com contendas e é forjados desde sempre para a luta. Leônidas recebe o recado de um Oráculo para não se confrontar contra Xerxes, mas esse já tem sua decisão tomada e nem discute, comunica, apenas, que dará um passeio, um passeio descompromissado com sua guarda de 300 homens, mas todos já entenderam seu desejo e sua rainha lhe ordena que volte “…com seu escudo…ou sobre ele.” Antes de partir, uma última reflexão ganha destaque: “Não há lugar para ternura. Não em Esparta. Não há lugar para fraqueza. Apenas os fortes e ásperos podem se chamar espartanos. Apenas os fortes. Apenas os ásperos.”

Leônidas era um perfeito estrategista, levou seu pequeno exército até um ponto que bloqueava a passagem de quem quer que fosse. As Termópilas eram um estreito, entre um desfiladeiro que caia no mar de um lado e uma muralha rochosa do outro. Os 300 se posicionaram em tal local até a chegada do gigantesco exército inimigo, que, aos poucos, eram eliminados. Cavalaria não passava por ali, o próprio Xerxes foi ter uma audiência com Leônidas, mas esse se garantiu inflexível e impossibilitado de ajoelhar perante ao “deus-rei”. A guarda pessoal de Xerxes, denominada Os Imortais, sangrou na 1ª noite. No 2º dia, mais homens, que tiveram a massa militar engrossada com “monstros”, foram exterminados pela astúcia espartana. O estreito ia se afunilando cada vez mais, com mais corpos e com mais raiva. Mas então o impensável acontece, uma traição inicia a derrota que já era dita como certa, mas que estava sendo adiada com verdadeira paixão pela glória da batalha.

Leônidas e seus 300 foram encurralados e mesmo assim não se renderam. Continuaram em formação até a última flecha caída. Em seu último pensamento, o rei assume: “…elmo é sufocante. O escudo pesado.“, mas o que parecia uma rendição, foi uma última investida para atingir Xerxes. “O elmo era sufocante. Limitava sua visão. E ele tem que ver longe. O escudo era pesado. Tirava o seu equilíbrio. E seu alvo está muito distante.“. Antes de ter o corpo cravado por flechas, Leônidas ainda conseguiu empunhar sua lança e mirar em Xerxes, que teve sua fase atingida, mas não foi o bastante para mata-lo.

Os 300 foram massacrados então, mas o exemplo deles ecoaram pela história e povos em guerra, povos que estudam estratégica ou conduta em batalha, acabam tirando um pouco de lição da bravura de tão poucos contra vários.

Essa é uma HQ, em 5 partes, que virou filme, onde o tal é uma copia PERFEITA. Tanto em imagem e fotografia quando em enredo. Vale muito a pena ler e assistir.

Domingo dos Quadrinhos – Persépolis

Persépolis - Marjane Satrapi

A primeira vez a gente nunca esquece. É com esse espírito que inicio este primeiro texto nesta casa, falando de uma HQ (História em Quadrinhos) que deve ser item básico na biblioteca de quem aprecia este tipo de leitura.

Persépolis é a obra autobiográfica de Marjane Satrapi, uma jovem iraniana que viveu durante um período extremamente conturbado do país islâmico. O Irã viveu uma revolução, adotou um regime rígido e muito pautado pela religião, e passou a ser um péssimo lugar para alguém viver sua juventude.

Tendo migrado por um tempo para a França, a garota se viu forçada algumas vezes a negar sua nacionalidade e fugir ao máximo da identidade iraniana, através das roupas e dos atos. Marjane teve a vida totalmente afetada pelos problemas políticos de seu país, que influenciaram diretamente a sua juventude e a formação de quem ela era.

O livro mostra todos estes aspectos, sempre densos e complexos, sem perder a leveza da linguagem dos quadrinhos. Marjane é uma personagem que atravessa todos os acontecimentos como uma espectadora, descrevendo bem os fatos e facilitando o acompanhamento do leitor. O traço simples e leve da autora deixa o livro mais tranquilo de acompanhar para quem não está acostumado com quadrinhos; mas o conteúdo, denso e politizado, é recomendado para quem tem mais interesse na influência que a política e um estado rígido e não-democrático podem ter no dia a dia de alguém. Um livro maduro, em que mortes acontecem aos montes e pessoas desistem de sonhos e da mudança política. Porém, ao mesmo tempo, uma história sempre pincelada pela esperança da personagem principal.

Persépolis é uma história pessoal; mas, principalmente, para pessoas como nós, que sempre olhamos o Irã pelo lado de fora, é uma ótima chance de ver o país com uma visão muito mais próxima.