Domingo dos Quadrinhos – Hellblazer

Hellblazer

 

Você deve ter assistido (ou pelo menos ouvido falar de) um filme chamado Constantine. Não? Pois então, além de perder minutos de um filme interessante, você também perdeu a chance de conhecer John Constantine, a estrela da série Hellblazer. O personagem visto nas telas do cinema, representado por Keanu Reeves, deixou de fora os traços marcantes do personagem dos quadrinhos, mas ainda assim foi bem representado: o Constantine original é inspirado no cantor Sting, e por isso tem os cabelos loiros. O cabelo e o seu sobretudo marrom são a marca registrada deste personagem memorável.

Um clássico da linha de quadrinhos adultos da DC Comics (a editora de Batman e Superman), Hellblazer é uma publicação que conta a história de John Constantine, um mago um tanto quanto diferente dos que conhecemos. As histórias se passam nos tempos atuais, na Londres de hoje e não na Idade Média ou em algum passado fantástico distante. Além disso, logo se percebem as principais características de John: o sarcasmo, a ironia, a atitude de quem simplesmente não está nem aí para o que está acontecendo, a postura de anti-herói constante. É, com certeza, uma das personalidades mais marcantes dos quadrinhos.

Com esta atitude, John Constantine vive às voltas com demônios, bruxas, monstros de toda espécie que procuram resolver antigas desavenças, pedir favores ou mesmo ameaçar e chantagear o bruxo. Algumas cenas apresentam um humor ácido (algo que o filme captou bem) que dá o toque final à série.

No Brasil, a editora Panini publica as histórias de John Constantine em uma revista chamada Vertigo, que traz também outras ótimas histórias. O arco que li este mês é o que vai do número 1 ao 6 da revista Vertigo brasileira, escrito por Mike Carey, e recomendadíssimo para quem gosta deste estilo.

John Constantine é para iniciados. Mas, para estes, é das melhores coisas que se pode encontrar. Boa leitura!

Terça De Quadrinhos – Frankenstein

Quem aqui conhece a história do doutor Frank e sua criatura? Já tivemos a oportunidade de acompanhar esse drama de horror pela literatura e através do cinema. Desta vez podemos conhecer tal história pelos quadrinhos, o que percebi ser uma ideia interessante.

É interessante saber que Mary Shelley criou seu Frankenstein a partir de uma roda criativa entre amigos. Byron (Lorde Byron que conhecemos, romântico inveterado, poeta desvairado e extravagante bon vivant, no que tange a aproveitar a vida sem restrições) incentiva aos colegas a escreverem contos de terror. Depois de passar momentos de “folha em branco”, Mary consegue imaginar sua maior obra.

O enredo de Frankenstein é contado através de cartas, entre um capitão de navio e sua irmã. O capitão (Robert Walton) de uma expedição pelo Polo Norte avista, junto a sua tripulação, um ser gigantesco, anormalmente maior do que um homem comum, vagando pelas geleiras e depois se deparam com Victor Frankenstein, um médico em busca de redenção, já moribundo. Walton o salva e Victor conta toda sua história até o momento em que já estava ali, à beira da morte.

Frankenstein é um garoto incrivelmente interessado no oculto e naquilo que reflete o que está além do puramente físico. Quer descobrir o segredo da vida e como burlar as leis que regem tal segredo. Ele cresce, estuda e se forma médico. Mas o médico não quer apenas curar, quer também vencer a morte. Em um experimento, consegue, depois de enorme e dramático esforço, “montar” uma criatura que vive, que respira e que, como o tempo, pensa. Mas tudo vai além do esperado e o horror e desespero de almas despreparadas para tal empreitada, traumatizam um ser já atormentado, que está além da vida e da morte. A criatura deseja uma companheira, a solidão a assola e o que poderia ser uma vitória de um homem, acaba se transformando em seu maior pesadelo, cheio de terror.

Esse quadrinho é bem leve na verdade, não transmite de forma fantástica toda a dramaticidade que o livro possui e merece, mas vale como uma introdução para adolescentes. Os traços não incomodam e são até condizentes com o que é proposto. A argumentação foi trabalhada pra não ficar somente com as falas clássicas em balões, mas também em pequenos textos que ligam um quadrinho ao outro e isso ajuda ao desconhecido à entender um pouco esse clássico da literatura do Terror.

Indico para uma iniciação breve, mas já digo que é preciso ir além e desfrutar do livro em questão.

Terça De Quadrinhos – A Odisseia

Eis uma história que permeia mitologia grega, alegorias de aventura e a defesa de um amor para toda a vida. Acredito que seja uma das maiores e conhecida história já contadas, divulgadas e trabalhadas pelo mundo inteiro (pelo menos no Ocidente). Literatura, Teatro, Cinema já adaptaram as desventuras de Ulisses e seus homens, dessa vez podemos acompanhar a trama atrás da 9ª arte.

Assim como no enredo criado por Homero, acompanhamos a viagem que Ulisses emprega para retornar a tua querida Ítaca e amada esposa Penélope que o espera junta ao filho. Dez anos durou a guerra de Troia e mais dez tal empreitada, e durante esse tempo, nosso herói passou por momentos de total provação física e psicológica.

A trama contada por Homero está fielmente explicada na HQ: Os homens de Ulisses que ficam “perdidos” sem lembranças em uma ilha após comer lótus; o cativeiro em uma ilha de Ciclopes e a luta para fugirem; as transformações em animais que acometeu sua tripulação na ilha de Circe (uma feiticeira); a passagem pela ilha das Sereias; o confronto contra Poseidon e depois o tempo em que ficou junto a Calipso para depois retornar de vez à sua terra. Durante esse anos, Ulisses teve o amparo ou desamparo dos deuses.

Ao chegar em Ítaca, Ulisses se depara com ex companheiros que desejam seu lugar e sua mulher, mesmo que para isso tenham que matar seu filho, que já é homem feito. Penélope faz o que pode para se manter fiel e casta, durante 20 anos vai rechaçando pretendentes e se esquivando como pode (iria desposar novamente quando acabasse de tecer um manto, mas tecia de manhã e destecia a noite). Como os anos se passaram e com Telêmaco (o filho) já adulto, ela foi obrigada a aceitar um novo marido. Uma prova de tiro com arco foi acertada, o vencedor a teria aos braços. Vários candidatos não conseguiam nem mesmo preparar o arco e então Ulisses, vestido como mendigo aparece, vence a disputa e depois, junto ao filho e à deusa Atenas mata todos os inimigos, reconquistando teu lar e sua vida.

O trabalho do ilustrador Jorge Gonzáles é interessante. Mescla o que parece ser um rabiscado simples com uma certa elaboração conceitual. Podemos vislumbrar uma técnica em que o desenhista se utiliza de contornos definidos e finalizados mesmo quando o rascunho ainda está presente, sem ser descartado. Os desenhos misturam a utilização de giz e lápis (creio que seja mesmo). Tal HQ serve como alternativa para aqueles que julgam enorme a narrativa de Homero, recomendo como opção válida. Claro que não traduz ou transmite toda a atmosfera e conteúdo do original, mas vale como referencia do que Homero escreveu.

Domingo dos Quadrinhos – Maurício de Sousa por 50 Novos Artistas

Maurício de Sousa por 50 Novos ArtistasMaurício de Sousa é o quadrinista mais conhecido do Brasil e responsável por personagens reconhecidos em diversos lugares do mundo (em menor grau do que por aqui, obviamente). O alcance da sua obra é inquestionável e impressionante.

Em 2011, a Panini lançou o terceiro volume de uma série que buscou homenagear os 50 anos de carreira de Maurício, com artistas recriando os personagens clássicos da Turma da Mônica. Foram convidados 50 artistas, desde totais desconhecidos em início de carreira a nomes já um tanto conhecidos entre entusiastas dos quadrinhos, como Mike Deodato Jr., Adão Iturrusgarai, Daniel HDR, Luke Ross, entre outros.

Algumas histórias agradam pela bela arte, outras divertem pela perspectiva alternativa sobre os personagens, outras ainda dão uma certa saudade do traço original, como seria de se esperar em uma coletânea deste tamanho. Mas, de modo geral, os artistas foram muito bem escolhidos e o nível se mantém entre as histórias.

Pessoalmente, algumas histórias me agradaram muito mais do que outras. Mas prefiro que interessados formem sua própria opinião sobre isso. Para quem gosta da Turma da Mônica ou de quadrinhos em geral, esta é uma HQ para ter, ler com atenção e de vez em quando dar mais uma olhadinha. Boa ideia e boa execução.

 

Domingo dos Quadrinhos – Star Wars (Série da Ediouro)

Star Wars 1Demorou mas saiu! Quase que o domingo acaba sem Domingo dos Quadrinhos, mas felizmente conseguimos providenciar a tempo!

Em 2005 a editora Ediouro inaugurou um braço de quadrinhos com a publicação de uma série mensal de quadrinhos de Star Wars, originalmente publicados pela Dark Horse Comics nos Estados Unidos. Apesar de interrompida em 2006, a revista chegou a trazer diversas histórias completas, que compensam de longe para o fã do universo criado por George Lucas.

Como exemplos da qualidade desta série, temos as duas primeiras histórias completas, que aparecem entre os números 1 e 4 da revista mensal: a primeira delas, Obsessão, se passa meses antes do episódio III (A Vingança dos Sith) e apresenta Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker perseguindo uma inimiga chamada Ventress. Com traços muito bons (e agressivos), combinados a um roteiro que prima pelos detalhes e pela aderência ao mundo criado para a série de filmes, Obsessão é uma história que agrada a qualquer fã de Star Wars.

A segunda história completa publicada na revista, chamada Temporada de Caça, apresenta a origem do mercenário Jango Fett. Para quem se lembra, Jango foi o homem utilizado como base para criação dos clones, os Stormtroopers. A história também é muito bem desenhada e roteirizada, e vale inclusive para “não tão fãs”, porque funciona bem como uma história em quadrinhos isolada.

Esta série deve ser fácil de encontrar em sebos, e interessa demais a quem é apaixonado pelos filmes e quer saber mais sobre este universo. Recomendado.

 

Terça De Quadrinhos – Pequenos Milagres

Will Eisner é considerado um cara fenomenal dentro da 9ª Arte, um gênio, pois foi um dos mais consagrados artistas do meio que conseguiu unir quadrinhos com histórias que passava longe de conceitos infantis. Eisner (morto em 2005) foi um premiado quadrinista que trouxe para o público adulto, todo um universo de desenhos e que incentivou aos marmanjos a cultuar essa maravilhosa arte. Alan Moore, criador de Watchmen, defendeu que “Eisner é o responsável por dar inteligência aos quadrinhos” e olha que Moore não gosta de ninguém quase, kkkk.

No prefácio de “Pequenos Milagres”somos apresentados ao argumento da HQ: É difícil falar sobre milagres. Ou você acredita neles ou não. Eu acredito. No quarteirão onde passei minha infância, os milagres aconteciam à toda hora. Eram simplesmente parte da estrutura de nossas vidas e tornavam-se inseparáveis de eventos explicáveis, sendo, no final das contas, tratados como se fossem realidade. Anos de vivência têm o efeito de amadurecer julgamentos e inibir a aceitação do inexplicado. Quando começamos com relatos que não são dignos de confiança e carecem de evidência, nos aproximamos do folclore. Então, aquilo que alguém se lembra desses eventos é, na melhor das hipóteses, pouco confiável. O processo de relembrar é um trabalho de dedução, algo como um antropólogo reconstruindo um esqueleto antigo. Os contos neste livro se parecem com as histórias que meus pais chamavam de “meinsas”. E, embora sem apócrifos, eles foram destilados das minhas lembranças, que eram um patrimônio comum da nossa família. Por exemplo, minha mãe podia apontar para um velho alimentando pombos no parque e me dizer: “Aquele  é um tio, por parte do seu pai… Deixa eu te contar sobre ele… É um milagre.”

E pequenos contos começam seguindo essa temática, não somente histórias de milagres ocasionais, mas acontecimentos do cotidiano que podem ser observados como dádivas ou momentos de graça. Muitos dos “milagres” aqui apresentados apresentam situações do tipo: “Poderia ter sido assim”, “tal milagre poderia acontecer de várias formas”, “certas ocasiões são milagres ou mesmo coincidências?”. É possível ler uma vez e não entender ou perceber qual a conexão com algo tão puro e bom quanto um milagre, pode ser necessário ler mais vezes e o que também é muito legal, é poder interpretar tais eventos de maneiras diferentes em cada leitura. Muito do que parece simples fatos recorrentes ou de pequena importância, pode representar muito para quem convive com o acaso. O que para mim é de acordo com o esperado, para outras pessoas pode ser mais do que com o que contavam.

Pequenos milagres é composto por 4 contos, curtos ou mais longos, agradabilíssimos de se ler e a arte de Eisner é bem peculiar. Seus traços envolvem o leitor pela leveza e ainda assim consagra uma perspectiva madura e LONGE dos traços que a garotada está acostumada. Will Eisner por ser lido e contemplado por jovens e adultos, seja cativando pela arte ou nos levando a reflexão pela narrativa.

Domingo dos Quadrinhos – Notas Sobre Gaza

Notas sobre GazaJoe Sacco é um jornalista nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos. Sim, você ouviu direito. O autor de Notas Sobre Gaza é um jornalista.

Esta é uma obra totalmente diferente de tudo que você já viu. Trata-se de uma reportagem registrada utilizando o formato dos quadrinhos. Em um volume de mais ou menos 400 páginas (e que, confesso, ainda não terminei de ler), Sacco passa o clima da Faixa de Gaza, seus habitantes e o conflito entre Israel e Palestina.

Apesar do tema tenso, Notas Sobre Gaza não é uma obra difícil de ler ou pesada demais. O traço de Sacco é muito bonito e bem acabado, o conteúdo verídico confere um interesse maior para a leitura e o argumento bem elaborado te envolve com perfeição na história que está sendo contada.

Sacco escolhe como tema, justamente, o que chama de “notas de rodapé” da história do conflito, ou seja, pequenos incidentes que a princípio não parecem importantes mas podem ter gerado vinganças, represálias e respostas que escalaram ainda mais a guerra.

Notas Sobre Gaza é uma HQ genial, mas é também um registro histórico; portanto, vale a pena pelos dois aspectos. Se está procurando uma boa HQ realista, esta obra de Joe Sacco é altamente recomendada. Se está procurando mais informações sobre Israel e Palestina, trata-se também de um ótimo caminho.