Resenha – O inocente

John Grisham é conhecido por seus livros sobre o mundo dos advogados. Ele, normalmente, retrata histórias fictícias baseadas em histórias reais mas sempre com um final mais feliz – talvez para que as pessoas tenham menos aversão aos advogados.

Em seu primeiro livro não-ficção, Grisham escolheu a dedo uma história tensa e complicada envolvendo um tema difícil do sistema jurídico norte-americano: a pena de morte.

Em 1976, depois dos Estados Unidos restituirem a pena de morte, Oklahoma debatia sobre qual seria a melhor forma de execução e foi o primeiro estado do país a instituir a injeção letal. Desde então, de acordo com o Death Penalty Information Center, já executou 99 pessoas e atualmente tem 66 pessoas no corredor da morte.

A história de Ron Williamson, um medíocre ex-jogador de beisebol e Denis Frit, professor de escola secundária, se tornou parte de um debate ainda mais intenso sobre a eficácia de um sistema que tem o poder de tirar a vida de alguém. Em 1988, Ron e Denis foram condenados pelo estupro e morte de Debra Sue Carter – Denis recebeu prisão perpétua e Ron, pena de morte.

A pesquisa de Grisham para este livro foi impecável. A forma como ele nos conduz durante o julgamento nos auxilia a compreender um sistema que simplesmente não funciona. As provas circunstanciais foram colocadas como incontestáveis e, sem DNA, os resultados das evidências não eram irrefutáveis apesar de terem sido apresentados como tal. Enquanto lemos, ainda que não tenhamos nenhum conhecimento legal sobre o assunto, é possível compreender que este julgamento foi, no mínimo, um absurdo.

Ron era alcoólatra e tinha problemas mentais. Por esse único motivo não poderia ser executado mas, claro, ninguém levantou esse tópico durante o julgamento. A polícia precisava terminar seu trabalho, os advogados precisavam encerrar o caso pois tinham muitos outros e, nesse meio tempo, a presunção de “inocente até que se prove o contrário” foi deixada de lado. Ron e Denis se tornaram o bode expiatório de um sistema que tinha problemas demais para tentar fazer o que era certo.

Os argumentos são tão absurdos que chega a ser assustador como o jurí se deixou convencer. Em dado momento, o Estado chama uma pessoa que ouviu Ron chamar por Debbie durante seu sono. A história foi colocada como prova concreta da culpa de Ron. Nesse momento, confesso que fiquei revoltada.

Entendo os argumentos de quem é a favor da pena de morte, já os ouvi 300 vezes. Mas deixar para um sistema tão corrupto a decisão sobre a vida de uma pessoa, é simplesmente desumano – por mais desumana que a pessoa seja. A história de Ron e Denis é um argumento forte contra a pena de morte e me impressionou tanto que até hoje me interesso pelo assunto e tento ler e pesquisar sempre casos novos.

Grisham consegue ser quase imparcial na forma como nos conta a história deixando que o leitor entenda por si onde está a injustiça de verdade e como é fácil culparmos aqueles que seguem um estilo de vida que não vemos como “ideal”.

Os dez anos seguintes foram de apelações e mais injustiças contra Ron e Denis. Ron deteriorou terrivelmente durante seus dez anos no corredor da morte e chegou a 5 dias de ser executado. Ficava em sua pequena cela, muitas vezes sem ver o sol por dias e às vezes dava sinais claros de que sua saúde mental já estava nas últimas. Nada disso, no entanto, fez com que o Estado revogasse sua condenação.

Denis, por sua vez, ficou dez anos sem ver a filha, se torturando e tentando entender o que realmente tinha acontecido. É algo que não é fácil de imaginar. Que um jurí permita algo desse tipo – sem provas concretas – é monstruoso.

A salvação veio por meio do The Innocence Project. Este é um projeto desenvolvido por advogados para exonerar presos através de exames de DNA – acredita-se que, atualmente, 5% dos presos nos Estados Unidos sejam inocentes – algo em torno de 100.000 pessoas. Desde o início do projeto, em 1989, mais de 250 pessoas inocentes foram libertadas. Algumas chegaram a cumprir 25 anos de prisão.

Foi o The Innocence Project que trabalhou no caso de Ron e Denis não apenas para provar que eram inocentes mas, também, para apresentar o culpado. Eles saíram da prisão com um breve pedido de “desculpas” e 50 dólares. Claro que ambos processaram o Estado e ganharam uma fortuna mas nada disso muda o tempo de vida que perderam e a sensação de injustiça que perdura.

Para aprofundar o assunto sobre pena de morte, recomendo um documentário – que foi feito em 3 partes – durante os 18 anos que o caso rolou. O caso ganhou notoriedade porque foi a primeira vez que o Metallica liberou os direitos de suas músicas para um filme deste tipo. Mas o mais importante é mesmo a calamidade do sistema jurídico norte-americano que permite que 12 pessoas sem conhecimento legal seja persuadida de maneira tão cruel a decretar a morte de uma pessoa, tornando-se cúmplices do Estado no assassinato de um inocente.

Parte 1: Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills Trailer

Parte 2: Paradise Lost: Revelations (não achei o trailer)

http://www.hbo.com/documentaries/paradise-lost-2-revelations/synopsis.html

Parte 3: Paradise Lost: Purgatory

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Resenha – Jogos Vorazes – vol. 3 – A Esperança

[Contém spoilers]

O 3o – e último – volume da Trilogia de Jogos Vorazes começa de onde o segundo acabou. Quase que literalmente.

Katniss explodiu a Arena do Massacre Quaternário e acorda em uma unidade de tratamento do Distrito 13 que – surpresa! – existe mas que passou 75 anos como “morto” enquanto desenvolvia sua própria estrutura de Governo, seu sistema de defesa e, o mais importante, a sua vingança contra a Capital. Ao vencer o 74.o Jogos Vorazes com Peeta, Katniss se colocou no centro da atenção da Capital e também do Distrito 13.

O Distrito propõe que Katniss seja o símbolo da revolução. Através de recursos midiáticos – o que diz muito sobre os tempos atuais de revoluções agendadas pelo Facebook – Katniss aparecerá para todos os habitantes de Panem em discursos rápidos sobre a importância de se derrubar o Governo tirânico de Panem e cenas de ação em pleno exercício militar.

Ela será treinada, montada, maquiada e lerá textos para os habitantes. Porque ela não pode ser uma rebelde qualquer. Ela tem que ser a rebelde que Panem precisa e a rebelde que o Distrito 13 quer que o represente. O bordão “Se nós queimarmos, você queima”, mostra uma Katniss pronta para a revolução. É orgânico e direto. É o melhor momento dela em todo o livro.

A vida no Distrito 13 é pior do que aquela que Katniss já conhecia. Isso porque, como a História do mundo nos mostra, nem toda revolução soluciona os problemas que ela aponta e, muitas vezes, ainda cria outros que têm consequências piores para a população (Cuba, estamos falando de você, cheque sua orelha esquerda!) Enquanto o Distrito 13 se organiza para colocar em prática seu plano de vingança, Peeta que foi sequestrado pelo Capital, aparece em diversas entrevistas pedindo o cessar-fogo para ambas as partes. Ele atua quase como a ONU: fala muito, faz pouco e quando tenta opinar fica em cima do muro e ainda paga caro. Isso porque Peeta tenta avisar o Distrito 13 dos planos da Capital de bombardeá-los. E a última cena que se vê é Peeta e sangue. Corta!

Quando Peeta chega ao Distrito 13 (porque seu resgate foi bem simples, na verdade) as coisas mudam dramaticamente. Não apenas porque o triângulo romântico fica mais tenso, mas porque Peeta agora odeia Katniss. Parece que tudo está perdido.

O que é bom porque nos permite focar na luta contra a Capital mais do que na indecisão de Katniss entre Gale e Peeta. Aliás, nos permite ler menos besteiras da cabeça de Katniss. A partir daqui, a história se arrasta um pouco. A autora claramente só tem noções militares e de guerra do que ela leu ou viu em filmes e as cenas de treinamento são bem fantasiosas. Mas elas valem ao proposto: mostrar o quanto o ódio do Distrito 13 e da população em geral pela Capital se converteu em investimentos pesados para derrubar o regime. Os rebeldes têm muitos recurso à sua disposição. O que é mais do que se pode dizer de quase todas as rebeliões do mundo. Afinal…os rebeldes são sempre os oprimidos e os oprimidos não têm nada. (Por isso são oprimidos! – e eu nem me formei em filosofia, hein?!)

O que demonstra que o Distrito 13 – mais especificamente a Presidente Coin – tem planos muito maiores do que apenas derrubar a Capital. Nesse ponto é fácil de entender que ela quer o que todos querem – o poder. E ela está pronta para derrubar quem quer que seja para conseguí-lo. O que quer dizer que se tudo sair de acordo com seus planos, um regime ditatorial cai para outro começar.  Que é, basicamente, a história do mundo.

A história da revolução em si se arrasta mais um pouco e a guerra que toma as ruas e chega até a Capital e a irmã de Katniss morre.

E, em parte, é por isso que na hora de matar o decadente ex-Presidente, ela mata a atual Presidente. Aquela que iria trocar uma ditadura por outra, a que propôs manter os Jogos, a que deu todos os recursos para que os Distritos lutassem entre si e contra a Capital. Assim que perdeu seus motivos para lutar, Katniss conseguiu enxergar a verdade sobre o poder. Que ele corrompe não apenas os que o têm mas também aqueles que estão próximo a ele.

O final do livro é previsível e a vida segue.

Toda a crítica da trilogia pode ser resumida em um parágrafo: “Francamente, nossos ancestrais não merecem esses respaldo todo. Enfim, olha oestado em que nos deixaram, com as guerras e o planeta destroçcado. Visivelmente não davam a mínima para o que poderia vir a acontecer com as pessoas que viveriam depois deles. Mas essa idéia de república soa como um aprimoramento, tendo em vista o nosso governo atual.”

Resenha – Jogos Vorazes – vol. 2 – Em chamas

[Contém spoilers]

Terminei o primeiro volume da trilogia e, francamente, não sabia o que a autora ia fazer para manter o interesse e a ação do primeiro volume. Katniss e/ou Peeta participariam de uma nova edição de Jogos Vozares? Talvez a irmã dela? Talvez o foco fosse nos dois como mentores de novos tributos e fazendo tudo errado? Enfim…eu não tinha idéia. O que é bom.

O segundo volume da trilogia de Jogos Vorazes, “Em chamas”, traz novas nuances para a história de Katniss e Peeta…MAS também traz um aprofundamento na visão e ódio de Katniss pela Capital. Ao final do primeiro livro, a idéia de se matarem faz com a Capital deixe que Peeta e Katniss sobrevivam àquela edição dos Jogos Vorazes. E isso causa um efeito imediato nos Distritos.

“Em Chamas” começa no 75.o ano desde que a Capital tomou conta de Panem e os Distritos se formaram e o 13.o Distrito (que descobrimos que era focado em energia nuclear) se rebelou e foi destruído. Katniss e Peeta, como vencedores dos últimos Jogos Vorazes, fazem uma turnê pelos Distritos e recebem a atenção do público (a velha política de pão e circo mas sem muito pão).

Questionei se se matar não seria a rebeldia real na resenha do primeiro volume, MAS a Capital não pensou assim. A atitude de Katniss foi vista como uma afronta e forçou a Capital a fazer com que Peeta fosse poupado. Para uma tirania que não se importa com as pessoas, talvez não ter um vencedor da 74.a edição dos Jogos Vorazes fosse melhor do que ter dois vencedores. Faz sentido.

Durante a turnê, percebe-se que algo mudou na atmosfera dos Distritos. As pessoas parecem mais preparadas para questionar a Capital porque Katniss questionou e não morreu. Isso faz dela um alvo direto da raiva do Presidente Snow mas também faz dela um exemplo para a população. E o que a Capital temia, acontece. Levantes começam a occorer em alguns Distritos e as pessoas que continuam morrendo de fome e trabalhando para a Capital começam a questionar suas circunstâncias.

O comentário social e político da autora continua e permeia essa primeira sessão do livro de forma muito mais clara do que no primeiro volume. Mas, claro, a Capital reage. E com toda a força que só Governos podem ter sobre indivíduos.

Há 75 anos, anualmente ocorrem os Jogos Vorazes. Mas a cada 25 anos, a Capital apresenta o “Massacre Quaternário” cujas regras mudam a cada edição e tudo depende do contexto social do momento. Isso quer dizer que os tributos são escolhidos baseados em regras aleatórias para o Massacre.

Este ano, com toda a rebeldia que se apresenta em alguns Distritos e a atmosfera de insatisfação da população, o Massacre pede que os tributos sejam um homem e uma mulher de cada Distrito – como sempre – MAS que sejam escolhidos entre os vencedores dos Jogos Vorazes. Ou seja, Katniss terá que se apresentar novamente à Arena e lutar pela sua vida assassinando os demais participantes. Haymitch é escolhido mas Peeta se oferece para ir em seu lugar. O casal 20 do Distrito 12 retorna à Arena e, dessa vez, é improvável que os dois saiam vivos novamente. Jogada de mestre da Capital. Quase bati palmas em público quando li essa parte.

Os procedimentos são os mesmos e logo menos a 3a edição do Massacre Quaternário começa. Haymitch decide que dessa vez Katniss e Peeta devem fazer alianças se querem durar algum tempo. Todos ali são assassinos profissionais e sabem sobreviver muito bem. Suzanne Collins escapa do risco de escrever o mesmo livro onde o Jogo é uma sequência de mortes, criando uma Arena extremamente criativa e que interage muito bem com os tributos. Então a história tem mais conteúdo durante o Massacre do que o primeiro volume teve durante os Jogos. Isso é compreensível, claro, já que no primeiro volume, a autora estava nos apresentando as personagens e desenvolvendo a história principal.

Katniss decide que já que ela causou a confusão toda com a Capital, que Peeta merece ser o vencedor dessa edição do Massacre. Ela está pronta a se sacrificar para que ele sobreviva. Mas isso é besteira. Ela só fala. Porque Peeta não sabe matar. Ele depende mais dela do que o contrário. Peeta é, em diversos sentidos, um homem fraco. Se isso é ou não uma estratégia para sobreviver, o livro não esclarece. Mas seria inteligente dele se fosse. Ele é um pintor, não um assassino. Katniss está acostumada com armas e chega a pensar que ela talvez inspirasse mais as pessoas se estivesse morta.

Porque todo rebelde sonha em ser um mártir. Provavelmente ela pensa em camisetas com seu rosto e seu tordo. Katniss é chata. E continua sendo uma mulherzinha um tanto quanto irritante.

A verdade é que a história se sustenta na imaginação da autora e da capacidade que ela tem para criar momentos inesperados. O final do livro é ótimo apesar da explicação estranha para os últimos acontecimentos da Arena, o final nos deixa aquele gostinho de quero mais. Os Distritos de rebelaram, a revolução vai acontecer…Katniss foi apenas um peão em algo muito maior do que ela. Pena que ela não enxerga isso e passa mais tempo se lamentando do que aceitando o que ela deveria representar.

Resenha – Jogos Vorazes – vol. 1

Jogos Vorazes está em todo lugar. O filme do primeiro livro já saiu e o sucesso foi imediato. A trilogia foi chamada de “a nova saga de sucesso”depois de Harry Potter e Crepúsculo. Enquanto ouvir Harry Potter me animou, ouvir Crepúsculo me desanimou completamente. Mas achei que valeria a pena ir em frente e ler o livro. Não poder ser pior que Crepúsculo. E não é. Nem de perto. Ainda bem.

O primeiro livro da trilogia nos apresenta Panem. Um país que surgiu onde antes estava a América do Norte que foi destruída por fenômenos naturais e guerras civis (piscadelas sarcásticas). Panem é um país com 13 Distritos e cada um é responsável por uma atividade essencial (agricultura, artigos de luxo, carvão e etc) dentro do sistema de Governo. Durante a história, descobrimos que o Distrito 13 foi destruído pela Capital quando tentou se rebelar. O mais interessante é que esse Distrito era o detentor das forças nucleares do Governo.

 O sistema de Governo é a ditadura. Apesar da palavra nunca aparecer no livro, percebe-se claramente que a Capital existe para demonstrar seu poder ao povo e colocá-lo em seu lugar controlando-o com atividades como os Jogos Vorazes. Em essência, o jogo consiste de dois representantes de cada Distrito – os tributos (alias, tributo é sinônimo de imposto. A Capital aqui já deixa claro o verdadeiro significado do povo) – um menino e uma menina entre 12 e 18 anos que devem lutar até a morte. 24 entram e apenas 1 sai.

A partir dos 12 anos já se é elegível para disputar o Jogo Voraz e é aqui que vemos uma direta crítica à sociedade de Panem. A partir dessa idade também já se é elegível para as téssaras. As téssaras são trocas que as famílias pobres podem fazer. Em troca de óleo e grãos, as crianças colocam seus nomes mais vezes no bingo da morte. E o número de vezes é acumulativo. Isso quer dizer que, aos 18 anos pode-se ter o nome inscrito mais de 40 vezes nos Jogos, como Gale. (amigo? amante? interesse romântico? saco de batata?)

Os pobres pagam com a vida pela sua pobreza. E não é assim em todo lugar? E a autora mostra que o preço que as crianças pagam são ainda piores. Não apenas elas se inscrevem mais vezes, se são escolhidas para competir nos Jogos, elas são obrigadas a se transformarem em assassinas de inocentes. O vencedor dos Jogos ganha dinheiro, uma casa chique em seu Distrito e fama. O que mais uma criança de 16 anos morrendo de fome pode querer?

A história é narrada em primeira pessoa na voz de Katniss Everdeen. Quando sua irmã de 12 anos é escolhida para ser a representante feminina do Distrito 12, Katniss se oferece para lutar no lugar da irmã. Ela irá para os Jogos Vorazes junto com o filho do padeiro – Peeta Mellark.

Katniss tem 16 anos e cuida da família desde que o pai morreu nas minas de carvão e a mãe perdeu a base (e, parece, um pouco da cabeça). Ela caça na floresta proibida para a família ter o que comer e vende o que pode no mercado negro para comprar o restante. Duas ações ilegais logo de cara. Então a Capital não transforma as pessoas apenas em assassinas, ela também as transforma em ladrões, corruptos e etc.

Quando ela chega à arena dos Jogos, Peeta e seu orientador (o orientador é um ex-ganhador dos Jogos, do mesmo Distrito) elaboram uma estratégia interessante para despertar o interesse da audiência nos dois. Peeta se declara apaixonado por Katniss. Isso mexe com o coração das pessoas frias e (in)sensíveis da Capital que passa a torcer por eles – ainda que isso não signifique nada de verdade. Mas eles poderão acompanhar a história em tempo real porque os Jogos são filmados e transmitidos para todos os Distritos. Os pais vêem seus filhos morrerem ao vivo e as pessoas com mais dinheiro apostam nos vencedores.

A crueldade é intensa.

Quanto a Katniss, o próprio orientador diz que ao se colocar como apaixonado por ela, Peeta a tornou desejável. Porque uma mulher só pode ser desejável se um homem diz que ela é. Sexista. Mas Katniss é boba demais para entender a profundidade do que Peeta fez. Para o bem ou para o mal, Peeta os colocou na linha de frente da atenção do telespectador e, numa arena onde eles devem se matar, dificilmente isso poderia acabar bem.

Apesar de carismático, Peeta é uma personagem incompleta. Ele não faz muito a não ser se declarar para Katniss. Provavelmente colocado na história apenas para fazer as meninas carentes de romance suspirar e sonhar que ele as ame também. (Tal qual o vampiro-que-brilha). Ele não faz muito. Não mata ninguém e ainda atrapalha parte da trajetória de Katniss. Quase que mais atrapalha do que ajuda e, sem ele, Katniss seria a campeã definitiva dos Jogos. Mas aí não teríamos volumes 2 e 3.

Eles acabam se separando no decorrer do jogos, e Katniss se associa à menina mais nova da arena, Rue.  Qquando ela não consegue proteger a menina que acaba morrendo pela lança de um outro competidor, Katniss mata o algoz da pequena Rue. Mas ela não faz isso para se proteger ou para garantir sua posição no jogo. Ela fez isso para se vingar. E, na verdade, ela TEM que fazer isso ou os adolescentes lendo o livro iriam odiá-la. Não se questiona uma morte por vingança de uma menina negra de 12 anos. A própria mídia a colocaria como um modelo.

Em um outro momento, Katniss derruba um ninho de vespas sobre um grupo de pessoas e duas meninas morrem por causa do veneno das ferroadas. Mais uma vez, Katniss não matou ninguém. As vespas mataram. Ou seja, Katniss tomou uma decisão sem ter um resultado em mente. Ela não jogou as vespas sobre o grupo para matá-los. Ela o fez para tirá-los dali para que ela pudesse fugir. Ainda assim, as duas pessoas que morreram em consequência dessa ação serão atribuídas a Katniss mas ela não as matou de verdade. Foi um acidente. E, como sabemos, acidentes acontecem. Ops.

A única morte pensada friamente por Katniss é a de Cato. Depois de ser atacado por bestas gigantes (enviadas pelos Organizados dos Jogos), Cato – o último participante entre ela, Peeta e a glória – está no fim da vida e PEDE para que ela o mate. E ela o faz. Mas ela não o matou de verdade. As bestas o mataram. Ela fez um favor em acabar com seu sofrimento. Mais uma vez, ou ela faz isso ou as pessoas a veriam como fria e sem coração. Uma heroína não pode ser nada disso. Todas as mortes causadas por Katniss não a tornam a assassina que ela deveria se tornar.

Toda sua trajetória é facilitada pelos demais personagens e pelo que o público quer dela. Katniss se comporta exatamente como a Capital quer que ela se comporte. Ela não é uma rebelde – apesar de parecer que sim porque ela odeia a Capital. Aliás, a atitude mais rebelde que ela pode poderia ter seria comer as amoras ao final do jogo e se matar. O que a Capital faria se não houvessem vencedores? Quem eles teriam controlado se todos os participantes morressem?

Mas não. Katniss e Peeta estavam blefando. Ela trocou a rebeldia pela glória. Isso não faz dela uma personagem forte, isso faz dela uma personagem comum. Ela faz o que todos fariam. Heróis devem fazer o que só eles podem fazer. Ela não é, e não se vê, como uma heroína. Nem como uma símbolo rebelde. Ela  tomou a decisão de não comer as amoras para que Peeta sobrevivesse. Mas…se ela tivesse se matado ele teria ganhado os Jogos de qualquer maneira. Então é simples. Ela não quis morrer. Quando  chegou o final e seria ou ela,ou ele, Katniss resolveu que seria ou os dois, ou nenhum.

Mas nada disso tira o mérito de que o livro é interessante e contém uma crítica à sociedade e à forma como vemos a miséria como entretenimento, como o Governo está alheio às reais necessidades do povo, como o povo é controlado facilmente como uma horda de famintos e a forma como o Governo tende a se utilizar das necessidades mais vitais da população contra a própria.

O tom de “1984”está por todo o livro. Parece quase uma continuação do clássico de George Orwell. A Capital tudo vê e tudo decide. A maioria dos Distritos vive em estado deplorável, onde pessoas morrem de fome e são vigiadas constantemente pelos Pacificadores. Além disso, o livro é bem escrito – mais uma enorme diferença de Crepúsculo – e tem conteúdo para suas páginas. Apesar de ser classificado como “literatura jovem”, Jogos Vorazes contém críticas sociais densas que permeiam o rumo da história e a forma como ela é contada.

São todos os ingredientes para se tornar um classico.