Resenha – O homem que queria salvar o mundo

A primeira vez que ouvi falar de Sérgio Vieira de Mello foi no primeiro ano de faculdade. A professora nos passou um breve documentário sobre seu trabalho e sua vida para falar sobre a rotina de uma organização como a ONU. Mas não adiantou…Sérgio Vieira de Mello era a estrela completa e a ONU ficou em plano secundário.

Vieira de Mello era carioca, filho de um diplomata autodidata – em uma época em que o Itamaraty estava mais preocupado com o Brasil como país e menos com o Brasil como interesse de políticos – que entrou para o sistema da ONU ainda muito jovem. Seu pai foi aposentado de maneira compulsória pelo regime militar no Brasil mas não antes de impactar profundamente o filho.

A carreira de Sérgio na ONU foi focada em missões humanitárias e de paz. Samantha Power retrata as etapas da vida de Vieira de Mello de uma maneira completa, entrevistando pessoas cruciais que apresentaram facetas que possivelmente não seriam conhecidas pela maioria. O livro nos traz a sensação de que estamos espiando a vida dele de forma objetiva. Ela tem uma ótima habilidade descritiva e podemos sentir as bombas na Bósnia, ver os refugiados de Camboja e participar dos problemas do Iraque.

Vieira de Mello ficou (mais) conhecido no meio diplomático durante sua missão no Camboja quando foi o único diplomata que conseguiu negociar com o Khmer Rouge. A autora estrevistou outras pessoas da missão que descreveram a maneira como Sérgio abordava esse tipo de negociação delicada. A verdade é que, nesse momento, aprendemos que Vieira de Mello tinha algumas características que talvez não fossem compatíveis com o que imaginamos de um diplomata em missões humanitárias. Ele conseguia se desconectar de sua ideologia para sentar à mesa com rebeldes assassinos e sorrir.

Essa habilidade, no entanto, trouxe benefícios claros à sua carreira. Quando chegou ao Timor Leste, Vieira de Mello se tornou o chefe do governo interino do país – o posto mais alto que um oficial da ONU chegaria no período de transição que o Timor enfrentava. Essa, para mim, é a parte mais interessante do livro. A descrição de como ele e sua equipe se juntaram à população local para desenvolver as instituições básicas do país é detalhada e nos leva em uma viagem a uma parte do mundo com a qual poucos se preocupam ou se importam. É fascinante conhecer o nascimento de um país.

A tensão começa quando entramos na vida pessoal de Vieira de Mello que era mulherengo, pai ausente e nunca escondeu nada disso de ninguém, apresentando namoradas para seus  amigos enquanto sua esposa o esperava em casa, na França com dois flhos pequenos. O interessante é que o livro não se esquiva desses momentos e entrevista pessoas que corroboram essa fama ao invés de tentar exonerá-lo.

Essencialmente, o livro nos diz que “ele é o que ele é” e que nenhum aspecto de sua vida pessoal, anula o que ele deixou como legado profissional. A verdade é que ninguém é apenas uma coisa e definitivamente ninguém é perfeito. Sérgio, simplesmente não tentava ser perfeito.

Lendo o livro eu simplesmente não consigo entender como tantos brasileiros desconhecem Sérgio Vieira de Mello e seu trabalho pelo mundo. Até hoje, ele foi o brasileiro que chegou mais longe dentro do sistema das Nações Unidas e estava cotado para assumir o lugar de Kofi Annan como próximo Secretário Geral. Era estimado pelos corpos diplomáticos de diversos países e um ídolo do Timor Leste.

Sua morte foi trágica e precoce. A descrição do atentado ao Iraque que o matou – junto com outras 22 pessoas – é triste e levanta questões importantes quanto ao nível de segurança da missão e se a ONU sabia realmente o que estava fazendo ali. O livro todo é uma aula de relações internacionais dos direitos humanos e é leitura obrigatória para todos os que querem conhecer grandes brasileiros que não jogam na Seleção Brasileira de Futebol.

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