Resenha – Contra Ataque (Livro e Filme)

Contra Ataque – O massacre nas Olimpíadas de Munique e a reação mortal de Israel – começa, como diz no título, com o massacre nas Olimpíadas de Munique em 1972. O massacre, explicando rapidamente, ocorreu em Setembrode 1972 quando 9 membros da equipe olímpica de Israel foram feitos reféns por membros do Setembro Negro (grupo militante da causa Palestina).

Durante horas, os atletas israelenses foram mantidos prisioneiros enquanto os palestinos faziam exigências para aviões que o levassem para zonas seguras e a libertação de 230 prisioneiros palestinos em Israel. As autoridades alemãs nunca haviam lidado com um ato de terrorismo tão claro e decidiram armar uma emboscada no aeroporto. Definitivamente, a parte mais chocante é quando os palestinos percebem que não conseguirão escapar e decidem que todos os reféns devem ser assassinados (não, eu não vivo em uma realidade alternativa rosa em que eu cheguei a pensar que os reféns iriam sair vivos por causa bondade palestina). Enquanto esperavam dentro dos aviões, os reféns foram alvejados por metralhadoras até que se garantisse que nenhum havia sobrevivido.

O resultado foi a morte dos 9 reféns, 4 terroristas e 1 policial alemão. Um desastre.

Mas aqui é que o livro começa a contar uma parte da história que, por muitos anos, ficou escondida sob camadas de sigilo principalmente do Mossad (Inteligência Israelense) e dos Governos Europeus. O autor pesquisou a resposta de Israel nos 20 anos seguintes ao massacre e constatou que o Mossad, com autorização de todos os Governos durante esse tempo, caçou e assassinou todos os palestinos que acreditavam estarem envolvidos no ato terrorista.

Durante muitos anos se especulou como certos agentes palestinos haviam sido assassinados e por quem, já que os assassinatos ocorreram em territórios teoricamente neutros como França e Londres (na verdade, acho que os territórios neutros fingiam não saber quem estava por trás do assassinato). Mas a verdade é que Israel não poupou esforços para vingar seus atletas e demonstrar sua força. O nível de detalhe que o livro apresenta é impressionante porque se tratam de missões – acredita-se – sigilosas (pelo menos para a maioria das pessoas) e que, na época, se reveladas poderia ter consequências imprevistas.

Na década de 70, a luta de Israel e Palestina estava no auge com Israel ocupou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a Península de Sinai e as Colinas de Golã.  A ousadia do Setembro Negro forçou o mundo a reconhecer que as coisas estavam saindo do controle. Nessa época, toda a região estava envolvida em disputas territoriais de alguma parte com Israel sendo o alvo principal. Mas Israel também tinha aliados fortes como os Estados Unidos.

O livros nos leva por uma viagem por toda a Europa enquanto os alvos israelenses são executados e, ao mesmo tempo, o restante do mundo começa a pedir que a região tente se entender de forma mais enfática (ao invés de sentar na ONU e pedir paz ou cantar uma música do John Lennon para lembrar a todos como a paz é importante). No entanto, Israel não abriu mão de continuar investindo contra as cabeças que organizaram o massacre das Olimpíadas. Na verdade, o autor indica que Israel estava disposto a abrir mão de algumas coisas MENOS dessa vingança. Depois da 2a Guerra Mundial, o orgulho judeu estava em xeque e eles não iriam aturar algo assim.

O livro inspirou o filme Munique de Steven Spilberg lançado em 2005. Aliás, a cena do massacre em si (o assassinato dos 9 reféns) é aquela que nunca mais se pode esquecer pela frieza com que foi filmada (talvez a última grande cena de Spilber desde então). O filme se torna morno quando entra nas missões israelenses porque esse não é o típico filme de espiões e nem pode ser tratado como tal.

Tem muito mais contexto por trás das cenas do que apenas estratégias de execução e infelizmente, não acredito que Spilberg conseguiu captar a intensidade das ações israelenses.Mas isso é compreensível porque a audiência está condicionada a esperar carros explodindo e peitos o tempo todo. Até mesmo as cenas familiares – dos agentes do Mossad interagindo com suas respectivas famílias – são para a audiência do filme já que não constam no livro.

No entanto, ambos – filme e livro – nos trazem uma imagem do que ocorria na Europa e no Oriente Médio na época e como as relações internacionais estavam travadas, tensas e as grandes potências estavam perdidas. Além disso, o livro mostra o nível de crueldade com que palestinos e israelenses se atacavam que é digno de 11 de Setembro. O filme foi mal visto pelos israelenses que diziam retratar apenas atos de vingança quando, na verdade, se tratava de atos de defesa. Pode ser verdade. Mas uma defesa que exige 20 anos de planejamento, empenho, recursos e aprovação do Governo tem, sim, um gostinho de vingança.

Se tiver que escolher, leia o livro. É denso mas direto. É informativo mas objetivo. E quando se trata de conflitos no Oriente Médio, ser objetivo já é meio caminho andado.

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