Resenha – Criança 44

Nos primeiros capítulos somos apresentados a dois irmãos. Arkadi – de apenas 4 anos – brinca de jogar bolas de neve com o irmão mais velho. Ele é encontrado morto pouco depois. Seus pais imediatamente acreditam que foi assassinato e exigem que as autoridades tomem uma atitude.

Essa exigência tem mais peso porque o pai de Arkadi é parte do baixo escalão da MGB – a Segurança do Estado. É então que conhecemos Liev – o agente sênior da MGB e chefe do pai de Arkadi – que analisa as informações (entende-se – lê o relatório por cima) e pede para que os pais acreditem que o menino morreu em um acidente, varrendo a investigação para baixo do tapete.

Liev é responsável por prender todos aqueles suspeitos de serem espiões. Na Rússia de Stálin, existia o que eles chamavam de “pressuposto de culpa” – onde todos são culpados até que se prove que são mesmo culpados. O clima é de tensão constante, vizinhos não confiam uns nos outros e as pessoas deixaram de ter amigos por medo de serem delatadas.

Apesar desse trabalho sujo, Liev está enfrentando uma crise de consciência. Ele não tem certeza de que um suposto espião seja culpado – na verdade, ele acredita que ele é totalmente inocente – mas o preso acaba confessando depois de 2 dias de tortura e entrega uma lista de 6 nomes de possíveis “espiões”. O último nome dessa lista é a esposa de Liev.

O diretor pede, então, que ele investigue a própria esposa e decida se ela é culpada ou inocente para que a “corte” resolva qual será a punição. Sua crise de consciência se agrava e a ironia da situação é óbvia: Quantas pessoas ele havia mandado executar sem nenhuma prova, exatamente como aconteceria com sua mulher? E mais, quantas pessoas ele mandou executar sabendo que em qualquer tribunal do mundo seriam inocentadas?

Honestamente, tem tanta história acontecendo ao mesmo tempo que mal consigo pensar no que é mais importante… Liev enfrenta o descaso da mulher, a inveja de seus ex-colegas de trabalho (um em especial que faz mais do que o necessário para transformar a vida de Liev num inferno), a decepção que ele causa a si mesmo e ainda o retrocesso na carreira trazendo problemas sérios para sua família.

O livro tem um tom frio e direto – simbolizando o sistema no qual o povo vive onde é tudo preto no branco. Mas isso também pode tornar a leitura um pouco arrastada. Confesso que em algumas partes eu parei de ler propositadamente porque a história me incomodou. Mas isso é graças ao autor que sabe muito bem conduzir a história para as sensações certas serem despertadas. E ainda que a história tenha me incomodado em alguns pontos, eu estava curiosa para saber o final.

Liev é enviado para um cidade pequena onde se depara com dois corpos na floresta e decide investigar o que está acontecendo. Quando mais corpos são encontrados, Liev percebe que há um serial killer por aí e que o Governo está acobertando as mortes. O assassino não é bem uma surpresa mas seus motivos e a forma como ele mata suas vítimas faria Freud se debruçar sobre o caso por um tempo. A mente de algumas pessoas é realmente assustadora.

Liev é o exemplo perfeito de um cidadão que tem um papel importante no sistema de justiça mas quando percebe o peso que isso tem, é tarde demais. Ele é uma decepção. Um exemplo de homem cheio de falhas e oprimido por um sistema que ele não consegue mudar. A opressão é tão grande que quando ele tenta um ato de redenção na tentativa de salvar alguém que ele acredita que seja inocente, ele se perde e causa mais danos a inocentes.

O desenvolvimento de Liev como personagem é impressionante. De odiado ele passa a ser a chance de redenção de todo um sistema quebrado. E, de repente, você está realmente torcendo para ele conseguir encontrar o assassino só para ver o que tudo isso vai causar na política “a polícia nunca erra” da Rússia. Mas claro, o sistema nunca se perde do rumo por muito tempo.

Óbvio que o leitor descobre quem é o assassino antes de Liev. Ele está começando a aprender a fazer uma investigação de verdade e comete muitos erros. Se até aqui a leitura pode ser um pouco arrastada, as últimas 100 páginas passam voando. À medida que conhecemos mais detalhes sobre o assassino e sobre Liev, o círculo vai se fechando, a história fica melhor e tudo começa finalmente a fazer sentido.

O livro é um thriller policial que envolve alguns dos melhores elementos desse tipo de literatura dentro de uma história bem contada e com um autor de mente fértil.