Resenha – Nietzsche

Nietzsche é o filósofo contemporâneo que parece ser mais “idolatrado” atualmente, é o filosofo do momento há anos, e ainda assim é um dos filósofos mais mal interpretados que se tem notícia. Eu por exemplo, estudante de filosofia, que escrevi sobre traços da sua filosofia, já deturpei algumas sacadas dele durante minha juventude e durante o trabalho de monografia, realizado sobre ele, é que comecei a entende-lo de forma mais acertada. Atualmente tenho tentado aprender mais (já que pretendo um mestrado em filosofia alemã focada nele) e uma das melhores maneiras para isso, é ler MESMO livros de doutores no assunto. Ler MESMO os livros dele. Ler DIVERSAS vezes e começar a estudar com afinco o que ele tentava promover a marteladas no contexto filosófico, de sua época, antes dele e até mesmo para o futuro.

Oswaldo Giacoia Junior é um dos mais respeitados doutores em Nietzsche e junto à Publifolha, publicou um livreto ESPETACULAR que pode iniciar qualquer pessoa na filosofia desse pensador que era dinamite pura. Tal pequeno livro (pequenino) é capaz de nos apresentar conceitos básicos sobre o que é considerado, muitas vezes, complicado dentro de todo questionamento do filósofo. Somos envolvidos pelos aspectos essenciais e mais importantes de todo a reflexão nietzscheana de forma clara.

A obra é caracterizada por capítulos curtos, apresentações sucintas e diretas, assuntos fundamentais e basilares de tudo que representa a filosofia do homem que ajudou a mudar o pensamento ocidental. Aprendemos como ele trabalhava seus textos durante sua juventude e em épocas posteriores. Giacoia vai esclarecendo particularidades dos escritos, estudos e as argumentações presentes nos principais livros de Nietzsche e isso tudo, de uma forma, se posso dizer, bem popular. Somos apresentados logo de cara por uma introdução que pergunta: “Por que ler Nietzsche?”. E o autor nos motiva a entender tal questão ao expor o seguinte conceito: “Nietzsche é um dos grandes mestres da suspeita, que denuncia a moralidade e a política moderna como transformação vulgarizada de antigos valores metafísicos e religiosos…se opõe à supressão das diferenças, à padronização de valores que, sob o pretexto de universalidade, encobre, de fato, a imposição totalitária de interesses particulares”. Suas “figuras de pensamento” também são motivos para lê-lo: Vontade de Poder; Além do Homem (Übermensch); Eterno Retorno e Niilismo. Giacoia discute bem sobre essas expressões.

O livreto trabalha bem a impressão de ser uma introdução na filosofia de Nietzsche, mas, CLARO, não aborda tudo o que gira em torno de todo o seu trabalho. Vale muito como referencial inicial e como fonte de consulta prévia, mas não segue como um trabalho isolado e sim como um auxiliar para estudos mais aprofundados. Nietzsche fica mais sociável e “tranquilo”. Recomendo MUITO.

Resenha – Jogo de Poder (Livro e filme)

Em Julho de 2003 o jornal Washington Post publicou uma coluna que causou comoção nos Estados Unidos. O jornal comentava sobre como a agente da CIA – Valerie Plame – havia organizado junto o marido – o diplomata Joe Wilson – uma história para convencer o país de que o Iraque não tinha os tubos de alúminio necessários para fazer armas nucleares (que o Governo Bush teimava que existiam). Após os atentados às torres gêmeas de 2001, o governo norte-americano estava entretido em uma luta firme no Afeganistão e, já que estavam por ali, começaram a procurar maneiras de destituir Saddam Hussein de seu posto no Iraque.

O motivo todos nós sabemos, mas o argumento que foi utuilizado na época foi o de que o Iraque consistia em um enorme problema para o Ocidente pois havia provas de que eles estavam comprando tubos de alumínio necessário para enriquecer urânio. Aqui, começou toda a loucura que envolveu a ONU e colocou o mundo em alerta.

Nesse contexto, o que uma simples matéria no jornal poderia mudar?

Valerie Plame foi a pessoa responsável na CIA pelo time que iria averiguar a verocidade dessas informações que o Governo havia recebido. Diziam que os tubos haviam sido comprados no Níger e seu marido conhecia o país com certa propriedade por causa de seus trabalhos diplomáticos para o governo norte-americano. Portanto, pagando a viagem de seu próprio bolso, Joe Wilson foi para o Níger para confirmar ou desmentir essas informações.

As informações eram falsas e Joe reportou isso para a CIA. Pouco tempo depois, o Governo decidiu ir à Guerra mesmo assim.A coisa toda foi tão rápida que é impossível não acreditar que a Casa Branca já tinha toda a guerra planejada esperando apenas um argumento plausível para convencer a população.

O livro nos conta como o Governo organizou as informações de maneira a cumprir seu objetivo de invadir o Iraque e passou a perseguir Plame e seu marido por terem informações contrárias. É aqui que entra a coluna do Washington Post. Valerie Plame, uma agente secreta da CIA teve sua identidade real publicada no jornal. Havia detalhes de seu trabalho, informações sigilosas e pessoais colocadas em um contexto para desacreditar qualquer coisa que viesse dela ou de seu marido. Ela foi retratada como traidora da pátria e começou a receber ameaças de morte de norte-americanos fanáticos que agora sabiam que ela era, onde ela morava e onde seus filhos estudavam.

Revelar a identidade de um agente secreto nos Estados Unidos é crime federal. Nada disso impediu a Casa Branca de convenientemente vazar a informação para a imprensa. A seriedade dessa atitude passou despercebida pela maioria dos norte-americanos assustados demais com as alegações do governo Bush.

Valerie e seu marido tentaram por anos, desesperadamente, provar que estavam falando a verdade enquanto se esquivavam dos ataques do Governo. Infelizmente, o livro tem dificuldades absurdas. Antes de publicá-lo, Valerie foi obrigada a submetê-lo para a verificação da CIA que chegou a censurar páginas inteiras.

Isso significa que muitas das missões que Valerie detalha no livro foram omitidas e resta ao leitor deduzir o que pode ser. O que, confesso, é divertido. Mas nada disso tira o foco do principal – a busca por quem vazou as informações para a imprensa e a verdade sobre o Iraque.

O livro tem um ritmo complicado justamente por causa da censura. A escrita de Valerie não é das melhores (ou talvez o problema seja a tradução) mas o livro entrega a mensagem que deseja: não existe Governo 100% confiável e limpo e, faz tempo, os Estados Unidos deixaram de ser o modelo de democracia para os demais países. A leitura vale a pena justamente para chegar a essa compreensão.

Já o filme apresenta mais alguns detalhes mas também não podemos ter 100% de certeza de que é verídico (pode ser apenas o que o roteirista achou que estava escrito nas linhas censuradas). Mas as atuações são boas e a história é contada sem censura.

Plame e seu marido não tiveram tempo, nem cacife, para impedir a guerra no Iraque apesar de suas tentativas. A história geral a gente já conhece mas Plame nos apresenta um viés muito mais sórdido da guerra: a corrupção do Governo Bush da verdade para benefício próprio. Havia uma idéia tão obssessiva de guerra que eles não se importaram de desrespeitar as leis e colocar em risco a vida de dois de seus mais fiéis cidadãos.

Resenha – Viver para contar

Gabriel Garcia Márquez é um dos autores latinos mais celebrados no mundo. Hollywood adaptou “O amor nos tempos de cólera” para o cinema, ele já esteve entre os escolhidos de Oprah para seu famoso Clube do Livro e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Se tornou um autor respeitado com grande sucesso comercial – o que é uma combinação difícil atualmente.

Viver para contar é quase uma auto-biografia. Digo quase porque o próprio Gabo comenta que muito daquilo que ele acreditava serem lembranças claras, ele acabou descobrindo que não aconteceram de verdade e talvez seja o fato de ele se aproveitar tão bem dessas lembranças falsas que suas histórias soem tanto como realidade misturada com fantasia.

Algo que sempre me atraiu muito no estilo de Garcia Márquez é sua maneira inusitada de descrever objetos, sensações, gostos e tudo o mais. A poesia de sua linguagem é algo que sempre me deixa com uma sensação forte de nostalgia por tempos que nem conheci. “O paladar que afinei a ponto de ter provado bebidas com sabor de janela, pães velhos com sabor de baú e infusões com gosto de missa“, ou ainda: “os guajiros, por seu lado, falaram sempre uma espécie de castelhano sem ossos com faíscas radiantes”.

Ele descreve sem descrever forçando o leitor a interpretar tudo de uma maneira subjetiva. Nenhuma palavra parece ser usada para preencher espaço, todas elas têm um papel claro e específico em ajudar o leitor a criar um mundo conforme ele próprio imagina. É quase uma paixão pelas palavras e uma vontade insana de usá-las da melhor maneira possível para criar um quadro específico.

Como não poderia deixar de ser, o livro tem comentários sobre autores e obras que o influenciaram em quase todos os momentos de sua vida. Para os fãs de boa literatura, pode ser um guia excelente de “livros que valem a pena serem lidos”. Os nomes vão de Faulkner a James Joyce passando por Bolaños e Neruda.

Através de suas lembranças, também é possível conhecer muito sobre a história da Colômbia e suas terríveis guerras civis e mudanças de poder. A política tinha um papel específico na vida de Garcia Márquez e ao escrever para um jornal em Cartagena, ele tinha que aguardar o censor reler tudo o que havia produzido e retirar tudo o que acreditava ser impróprio. Ver o censor ali do lado…com a caneta em mãos deve ser um sentimento terrível para um escritor. Aliá, Gabo foi, por muitos anos, mais jornalista do que escritor.

Quando ele começa a nos guiar pela criação de Cem anos de solidão, eu me empolguei achando que finalmente ia conhecer mais sobre os bastidores do meu livro preferido. O livro foi uma tentativa de contar  a história de sua família “que nunca foi protagonista e nem mesmo vítima de coisa alguma específica, e sim testemunha inútil e vítima de tudo“.  Mas isso é tudo o que ele conta. Confesso que fiquei um pouco decepcionada…nem o prêmio Nobel ele chega a mencionar. Eu queria muito saber como ele se sentiu quando ganhou o Nobel afinal..ele é um dos raros autores latinos a receberem esse prêmio. Mas nada disso é comentado.

Ainda assim, eu não consigo descartar o Gabo só por causa disso. Diria que a leitura de “Viver para contar” não é só recomendada, deveria ser obrigatória. Ainda que a edição da Record não seja das melhores. O material da capa fica sujo muito fácil, quando cheguei quase na metade do livro, as páginas começaram a descolar na parte inferior. Um livro dessa magnitude merecia uma edição melhor e um carinho maior.

Mas relevei isso porque, pessoalmente, ler Gabo é o mesmo que ler poesia. Abra o livro e esqueça da vida.

Resenha – O Travesti

Certo dia eu estava passeando pela Biblioteca Municipal de Araçatuba, quando eu me deparei com um livro que continha um título e uma capa excessivamente chocantes para a sociedade: um elemento do sexo masculino virado de costas, com uma peruca loira e um título que descrevia aquela figura com uma afirmação: “O Travesti”.

Assim sendo, me interessei pela leitura que, como todos os outros livros que envolvam homossexualismo e prostituição, contém um conteúdo polêmico e de cunho reflexivo para a sociedade contemporânea.

O livro é uma narrativa em primeira pessoa de Daniela, um travesti que vivia no mundo da prostituição durante a década de 80, época no qual o homossexualismo era excessivamente condenado e perseguido pela sociedade por causa da proliferação da Aids. Daniela sabia dos riscos que corria por causa desse fato, mas ela não tinha escolha alguma: precisava e necessitava da prostituição para sobreviver, ou morreria de fome.

Repleto de casos inusitados, mortes de travestis apenas pelo simples fato de se ter preconceito, o sofrimento vivido por Daniela com clientes e as drásticas mudanças ocorridas na vida da mesma, juntamente com o surpreendente término dessa história verídica da escritora Adelaide Carraro, transformam este livro em uma leitura recomendadíssima

Entretanto, “O Travesti” não é um bom livro no que se refere ao contexto gramatical: o excesso de palavras escritas de maneira errada tornam a leitura um pouco desgastante. Tudo indica que a autora optou por deixar os erros gramaticais para dar ênfase na falta de instrução de Daniela, e fazer o leitor pensar sobre como a educação brasileira é pífia e não traz oportunidades para todos os brasileiros, fazendo vários deles terem que acabar caindo em um caminho árduo e doloroso: a prostituição.

 

Resenha – Bossypants

Tina Fey é uma comediante norte americana muito celebrada. Seu estilo de humor sarcástico, seco e direto chamou a atenção em Saturday Night Live e logo tomou conta do primetime da televisão com a série 30 rock. Que, pessoalmente, eu vejo mais pelo Alec Baldwin. Mas não vamos entrar em detalhes.

O livro é uma autobiografia generosa no sentido de que ela compartilha conosco coisas que nem mesmo queremos saber como..não sei…sua primeira mestruação ou como ela não conseguiu amamentar sua filha. Mas isso é porque até mesmo o que parece estranho se torna muito engraçado na mão de Tina Fey. Desde a introdução ela deixa claro que essa não é uma autobiografia séria apesar de ser sua vida. São histórias de situações inusitadas que a transformaram em quem ela é hoje. Claro que, com certo tom dramático, o livro poderia sim ser uma autobiografia cheia de situações difíceis de alguém que veio de uma família de classe média e cresceu com um pai severo. Mas esse não é o estilo de Tina Fey.

Tina (porque agora somos amigas de infância), é formada em drama  começou sua carreira no show business trabalhando em uma companhia especializada em improviso. É como um stand up onde todas as cenas são montadas na hora. Foi esse caminho que a colocou na linha de frente para trabalhar em um dos maiores programas de comédia dos Estados Unidos: o Saturday Night Live.

O livro é difícil de largar. Eu lia em todos os momentos que eu tinha livre. Confesso que algumas vezes tive que me segurar para não rir alto em público….mas nem sempre tive sucesso o que resultou em alguma cenas estranhas em restaurantes lotados.

A melhor característica do livro é justamente a leveza com que Tina conta as história alternando entre sério e engraçado mas nunca chegando ao ponto de ser sério demais. Durante a leitura ela cria listas bizarras de como criar um show de sucesso ou como ser uma mulher bonita após certa idade.  Aprendemos como ela lida com crítica e o famoso comentário de que mulheres não são tão engraçadas quanto homens adicionando comentários sarcásticos de como as mulheres devem lidar com sexismo ou qualquer outro tipo de preconceito no ambiente de trabalho. E eu vou colocar mais isso como aperitivo porque a lógica dela é inquestionável (tradução livre):

“Meu conselho não solicitado para as mulheres é: quando você se deparar com sexismo ou preconceitos com sua idade ou sua aparência ou até mesmo um budismo agressivo, pergunte a você mesma: ‘essa pessoa está atrapalhando meu caminho para chegar onde eu quero?’ Se a resposta for não, ignore-os e siga com sua vida. A sua energia será melhor usada fazendo seu trabalho e derrubando pessoas pelo caminho. Daí, quando você estiver no comando, não contrate as pessoas que foram babacas com você.”

Apesar de seu show, 30 rock, ser um dos mais premiados da televisão norte-america, o momento de ouro de Tina Fey, acredito eu, foi nas eleições de 2008 quando ela interpretou Sarah Palin – a vice de McCain pelo partido republicano – durante as eleições para a Presidência. Para quem acompanhou as eleições e as gafes de Palin, os quadros de Tina Fey no SNL foram mais do que excelentes.

O livro é, também, um guia para quem se interessa pelo mundo da comédia e os bastidores de um programa de sucesso. Ela coloca partes de roteiros com as melhores piadas e explica como montar uma equipe de roteiristas que dá certo, como definir o tipo de câmera que será usado, como lidar com a pressão do canal e partes interessadas na audiência e etc. Além disso, o livro agrada por ser leve e fácil tornando a leitura bem rápida. É quase como limpar o paladar entre histórias pesadas.

Comprei o livro em inglês e não sei quando ou se vai ser lançado em português. Para quem tem interesse, o nível de inglês é de intermediário para alto com muitas gírias. Pessoalmente eu gosto desse estilo porque me ajuda na conversa do dia a dia. Mas se você ainda está estudando, talvez não seja uma boa idéia.